Chegou Raccoon, o futuro da electrónica portuguesa


Crescido e criado entre lojas de conveniência que não dormem e uma sombra que tapa até os dias de maior calor, Diogo Madruga – mente-mestra do projeto Raccoon –, lança, em exclusivo Shifter, o seu EP de estreia No Honor Among Thieves, diário gráfico da existência no negrume dos Anjos, Graça e Intendente.

O quarto onde me mostra as faixas pela primeira vez esconde os segredos que muitos não conhecem; trancado a sete chaves, guarda no mini-estúdio monitores de estúdio, amplificadores, teclados MIDI, guitarras e baixos; ferramentas cruciais para escapar à pasmaceira do bairro. Autodidata confesso, Madruga vem de uma linhagem de miúdos que, graças a tutoriais de YouTube, descobriu os segredos das Digital Audio Workstations — como o Ableton e o Reason— e que delas faz farinha de amassar pão.

Enquanto salta de ficheiro em ficheiro, vai-me pedindo a opinião; quer que seja o mais honesto possível. Digo-lhe que tudo soa bem, que pode ajustar o bass numa faixa ou noutra; enfim, que não há grandes melhorias a fazer. Sem lhe levantar o ego, e sendo ultra-imparcial, não evito soltar no final um “isto está do caraças, pá!”. E ainda bem que o verbalizo. Por segundos faço-o largar o sorriso trémulo que esconde a insegurança guardada na personalidade dos temas.

Na mesma noite, o meu iPhone toca. Reconhecendo o ícone do Messenger, vejo que o Diogo tinha outra música para me mostrar. Ficou inspirado pela minha aprovação. Pergunta-me se o EP deve ter 5 ou mais faixas. Digo-lhe que 5 temas são mais do que suficientes para criar buzz; aproveito e congratulo-o pela nova canção que viria a ser Lupus, mas ainda sem a letra que a caracteriza, a única do disco, reminiscências da perda na noite e na própria procrastinação. Saiu-lhe sem grande esforço, diz sem gabarolices. Acredito, porque sei que tem olho para a coisa, mas preocupo-me, porque sei também que só a dor incurável pode trazer um tema assim.

Perco-lhe o contacto durante algumas semanas. Numa conversa ou outra avisa-me que vai lançar outra metade do disco quando partir para Liubliana, no ano que vem. Espera que lá possa encontrar o sucesso que aqui não bate à porta. Digo-lhe que faz bem. Crítico, nego-lhe a visão romantizada do Portugal amante de música nova. Sei que estou a fazer a coisa certa. Um punhado de festivais por ano não alimenta as bocas de quem quer que seja. Conformado, concorda.

Apanhando-me desprevenido, avisa-me que hoje vai lançar o disco nas internetes. Também sem ele saber, correspondo-lhe o esforço feito ao longo da jornada e dedico-lhe as palavras que acabam de ler. Não o faço pela proximidade, mas pelo talento. Até porque espero não ter de fazer 3000 km para o ver ao vivo.

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Numa geração de cancioneiros e cantautores de pacotilha, com ainda muito poucos produtores que se destaquem, o projeto Raccoon é  uma lufada de ar fresco. Invocando os ambientes e texturas de Nosaj Thing, James Blake ou Shlohmo, Madruga junta-se a um universo crescente de artistas nacionais, como IVVO ou DWARF, e mostra que a diferença ainda pode ser feita cá dentro, antes de ter de partir para o estrangeiro. O disco está aqui. Já foi só meu e dele, agora é de todos vós.

O Shifter é gratuito e sempre será. Mas, se gostas do que fazemos, podes dar aqui o teu contributo.