Sumol Summer Fest 2015: Sumol Hip Hop Fest


O Sumol Summer Fest não tinha tido, até este ano, paragem no nosso roteiro de festivais. A aposta difusa e em nomes “controversos” (sim, o D8) era a marca de um festival que pelo contexto parecia ter tudo para proporcionar um grande final de semana mas ultimamente não acertava a 100% na aposta musical.

O palco ao pé da praia, as ondas lá ao fundo e o pôr-do-sol tardio eram assim os principais símbolos do festival que este ano aparecia com a cara lavada e sem estrita ligação a um estilo musical. Com passado no reggae mas incursões pontuais de outros estilos, o Sumol deste ano mostrou-se sobretudo descontraído e actual.

Do cartaz, destacava-se a diversidade mas a nossa escolha nem sempre passou pelos cabeças de cartaz. Atentos à oferta dos dois palcos, preferimos sempre o hip hop. E se Chance The Rapper e Slumvillage tiveram direito a honras de comunicação, outros nomes ficaram na sombra do mérito de ter sido escolhidos por DJ Ride ou de Sam The Kid e não figuravam no cartaz.

Feita a pesquisa e a selecção, partimos para o festival com uma ideia clara do que queríamos ver e muita expectativa por nomes que talvez merecessem maior visibilidade. Na mala: bloco e câmara para registar tudo, sem uma ideia do que daí podia resultar.

O resultado é o vídeo que podes ver e a experiência narrada.

1º Dia: Chance The Rapper, Astro Records, Valete, Dillaz, MGDRV, DJ Ride

O festival começou tarde, os primeiros nomes não atraíram a nossa atenção, só as 23:45 subia ao palco o primeiro nome da lista: Chance the Rapper. Com uma energia contagiante, o rapper vindo de Chicago conseguiu facilmente a atenção do público e embora alguns reagissem com estranheza também havia quem acompanhasse Chance nos seus refrões mais conhecidos como o de “Smoke Again”. Suportado por uma banda ao vivo e entregando-se com grande intensidade a cada música, Chance conseguiu levar o público numa viagem pelo seu repertório, que apesar da juventude do rapper conta já com dois álbuns (o último a meias com Donnie Trumpet) e duas mixtapes conceituadas.

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A noite avançava e enquanto Chance the Rapper continuava a ser o centro das atenções no palco principal, no secundário começava o showcase da Astrorecords. Profjam, Mike El Nite, Vilão e Vácuo no mic e Dj Holly nos pratos criavam a indecisão a que ao fim de 20 minutos cedemos. Chegámos ao showcase ainda a tempo de perceber a força e originalidade do colectivo lisboeta. Com estilos próprios e quase inconfundíveis é interessante perceber como se exploram as dinâmicas do grupo. Sempre concentrados e com grande entreajuda, os MCs revesaram-se para dar a conhecer ao público o seu trabalho. Entre os temas não faltaram, por exemplo, “Mambo Nº1” e “Astrolábia”. Temas com direito a videoclip,e que já na internet nos deixavam bastante entusiasmados.

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Depois da crew de astros a espera foi curta. Mega Draive foram os senhores que se seguiram. Apesar de já se ouvir falar de MGDRV (como habitualmente são conhecidos) há alguns meses (foi em fevereiro de 2013 que lançaram Cascavel, o primeiro single), o grupo está agora numa fase de apresentação do projecto ao vivo. O que é de outro nível. Skillaz e Yo Cliché formam o par perfeito e pronto a “destruir” (ou construir) os beats de Apache. Skillaz mais aguerrido e frenético, Cliché mais calmo e assertivo, levam-nos para o seu mundo de 16-bits onde vale quase tudo e as rimas são pixelizadas. Num concerto focado sobretudo no EP, percebeu-se a elasticidade do grupo capaz de rimar sobre personagens do CSI, cobras e sheiks. Para o final estava guardada “Salta Só”, uma das músicas mais conhecidas do projecto e que fez voltar ao palco a malta da AstroRecords. Deu para tudo, tornando-se num dos momentos altos do festival.

Depois de feita a festa, tempo para Dillaz. O rapper da Madorna veio, como sempre, acompanhado pelos “seus putos” Zeca, Vulto e com o DJ Spliff nos pratos, e deu continuidade à toada positiva da noite de hip hop. Misturando temas mais antigos das mixtapes Sagrada Família com outros mais recentes do projecto com Spliff deu um show de competência. Num concerto menos eufórico mas igualmente intenso, não faltou tempo para músicas como “A Carta” e “Não Sejas Agressiva” cantadas a meias com o público que aos poucos foi dando mostras da sua fidelidade.

O anfitrião da primeira noite foi o incontornável DJ Ride. Foi a seu convite que a AstroRecords, MGDRV e Dillaz vieram até ao Sumol, mas a lista de convidados não ficava por aqui. Dj Ride era o último nome que o cartaz anunciava. Depois de uma meia hora de Dj set chegava a hora de mais um convidado, um dos mais especiais: Valete. Depois de algumas colaborações com o DJ é notória a relação próxima entre os dois. Valete subiu ao palco para cantar alguns desses temas e outros em nome próprio – “Roleta Russa”, por exemplo, pôs o público a cantar em uníssono. Apesar de ser convidado, Viris não veio sozinho. Convidou por sua conta Bambino e Phoenix RDC.

Bambino é uma lenda do hip hop tuga, um dos fundadores do movimento. Fazia parte da formação original dos Black Company e assinou temas como o que pudemos recordar: “Não sabes nadar”. Com a sua imagem de marca intocável – o bucket hat pela linha dos olhos – era visível a felicidade do rapper que voltava a pisar um palco perante uma imensa multidão que acabou – a pedido de Valete – a gritar por um novo álbum de Bambino.

Já Phoenix RDC subiu como nome novo nestas andanças apesar de já ter alguma história de rap. Cantou com Valete, “Bad Boy”, o tema que juntos lançaram há cerca de um mês.

2º Dia: Slumvillage, Roger Plexico, Sam The Kid (DJ set), Grognation

O segundo dia do festival começou com Slumvillage, o grupo de Detroit fundado por Jay Dilla, Baatin e T3, o único que se mantém até hoje, agora acompanhado por YOUNG RJ. Os americanos chegaram à Ericeira com o recém editado Yes. Um álbum feito inteiramente com beats de J Dilla e que serviu de base para um concerto em que a falecida lenda do hip hop foi bastante recordada. O “game” é inegável e faz jus aos mais de 20 anos de Slum Village. A naturalidade com que controlam e animam o público mostram que apesar de não estar na melhor fase continuam a saber como se faz isto do rap. Competentes embora sem impressionar, Slum Village ao pôr do Sol ainda nos fizeram sonhar com nomes maiores pela noite dentro neste mesmo palco… Quem sabe outro ano.

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Estava encerrado o hip hop no palco principal do Sumol Summer Fest e suspenso por umas horas em todo o festival.

Retornou no palco secundário com a aparição do misterioso Roger Plexico, acompanhado por Ace e com Porte nos backs. Apesar de não trazer a máquina oleada, o grupo do Porto deu uma boa amostra da sua persona e do que vai ser o álbum com o rapper dos Mind Da Gap.

Mais ou menos a meio da noite subiu ao palco o mestre de cerimónias desta segunda noite de Sumol, Sam The Kid. Ainda que em formato Dj set, Sam é sempre um must-see. E a prová-lo, a multidão que se mudou de lugar para o ouvir. Em pouco mais de uma hora rodaram malhas do momento e outras eternas. Em alternância e quando menos se espera, músicas como “Quantidades” lembram-nos da vontade que temos de o ver ao vivo e em nome próprio.

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Os últimos convidados da noite – e do festival – foram os Grognation. Os jovens de Mem Martins já vão dispensando apresentações e subiram ao palco do Sumol determinados a encerrar em grande o festival. Com um novo EP acabado de sair, “Na Via”, a turma de Factor, Neck, Tem-p, Papillon e Prizko mostrou que o tempo os fez crescer e o reconhecimento lhes deu muita confiança. Mesmo perante a multidão – tocavam sozinhos a esta hora – os Grog mostraram um à vontade de fazer inveja mesmo aos mais velhos, fechando o Sumol da melhor maneira possível.

(fotos e vídeo: Marco Brandão / Shifter)