Falámos com o Rui Unas e a Noua Wong sobre o novo Pátio das Cantigas


O Shifter recebeu o convite de entrevistar alguns dos actores que interpretam a recriação do clássico português O Pátio das Cantigas. Com o todo o interesse em entrevistarmos Miguel Guilherme no papel de Evaristo e Rui Unas no papel de Carlos Bonito, tivemos ainda a agradável surpresa de conversarmos com Noua Wong.

Falámos do filme original e de como Lisboa mudou desse tempo até agora, conversámos sobre os desafios de recriar um filme tão popular e ainda descobrimos como é que Rui Unas e Noua Wong se prepararam para ser Carlos Bonito e Filha Shanta.

Agora só nos falta confirmar se este novo filme faz justiça ao original. E isso podemos descobrir a partir de hoje, dia 30 de julho, na estreia do Pátio das Cantigas nos cinemas portugueses.

 

O original trata de amor, amizade e sedução. Achas que são estes os temas do novo?

Rui Unas: Sim, é mesmo isso. Está respondido. Podemos ir já para a pergunta seguinte.

Noua Wong: Eu acho que é fixe essa pergunta. Porque quando fomos entrevistados com o Leonel, a ideia que se passou foi exactamente essa. O esqueleto está todo lá, ele quis foi inovar ao trazê-lo para os dias de hoje. Hoje em dia já é tudo nosso, não há vergonha em namorar.

Acreditas que o papel musical do Pátio das Cantigas se mantém?

Rui Unas: O meu papel não é de todo musical, apesar do Carlos Bonito ser guitarrista e um grande galã no clássico. Aqui ele é um bombeiro que não é galã, é só um wannabe. Ele é muito vaidoso e tem a pretensão de ser mais artístico do que realmente artista. Dinamiza o bairro com uns teatros, mas é um Carlos bonito sem grandes músicas.

Noua Wong: A Sara Matos canta nas horas nesta versão e, mesmo sem estar tão virado para o fado, pensa-se muito sobre quem quer ser uma estrela e quem quer ser músico. É um dilema de muitos jovens hoje em dia. Para mim não foi muito musical, mas a minha personagem vive no bairro típico e está naquele ambiente.

Quais são os grandes desafio de trazer um filme tão icónico para 2015?

Rui Unas: Desengane-se quem pensa que isto é um Pátio das Cantigas a cores. O desafio vai ser agradar às pessoas que viram o original, saberem o que está em comum e o que há de diferenças em termos de personagens. A minha personagem fala muito mais como se fala hoje em dia. Nós queremos é mostrar o ambiente típico de Lisboa a quem não conhece o original. O clássico é um êxito e ainda falta chegar a muita gente. Apesar de estar datado, nota-se que as grandes interpretações envelheceram muito melhor que a de alguns canastrões. O desafio é trazer o humor universal para agora. Não gostava de estar no papel do César e do poste de luz. Apesar do Pátio das Cantigas não ser uma obra de arte, sempre teve a pretensão de divertir as pessoas.

Noua Wong: Eu acho que é sempre um bom desafio ir buscar um filme que foi tão grande para esta geração de agora. O meu sobrinho tem 16 anos e nunca tinha ouvido falar deste ícone do cinema português. Vamos manter o filme vivo. Os portugueses vão reagir bem, de certeza, porque é uma comédia, mas está muito bem feita.

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Tiveste liberdade na criação do teu papel? Achas que olhar para os lisboetas típicos pode ajudar?

Rui Unas: Muita liberdade. Vou-te confessar uma coisa, todos os actores sofrem com o dilema do que fazer com os bonecos dele e eu andava a pensar como fazer um personagem sem ser igual ao Aldo Lima e ao José Pedro Vasconcelos. Pensei que menos é mais, não fui tão histriónico, não fui tão caricatural. Não queria ser só um bombeiro cromo, até para ser menos unidimensional. Há um lado humano do Carlos Bonito, com os seus sonhos, as suas ambições. Não queria que fosse só um cromo.

Noua Wong: Eu não tive de procurar muito, para além de ter um amigo indiano que me ajudou com as minhas dúvidas do costume, a família da Filha Shanta é quase tão conservadora como o antigo Pátio das Cantigas (risos). Sinto que vou buscar esse lado antiquado através de um contexto diferente no filme.

Achas que mais ou menos conservadora, Lisboa continua sempre algo parada no tempo? Os costumes mantêm-se?

Rui Unas: Não te sei dizer isso porque não sou de Lisboa (risos). Mas depois de ter visto o filme, o que penso é que tudo isto pode ser verdade. Estas pessoas podiam viver mesmo todas juntas. Tudo isto podia ter acontecido. Passa-se tudo num bairro e quando as pessoas vivem todas juntas existem estes triângulos amorosos. Repito, estas pessoas podiam existir e tudo podia coexistir. Os cromos de cabelo espetado e os cromos que querem ser galãs.

Noua Wong: Eu sou brasileira e quando os meus pais chegaram cá, quiseram mostrar-me um pouco do passado português, e dos costumes portugueses, através do filme original. Eu não sou de cá, mas também não sou de lá. Vim para cá com sete, oito anos, e agora até acho que até percebo mais de Portugal do que no Brasil. Acho que Lisboa é uma cidade de tradições, agora com mais turistas há mistura. Mas nos bairros ainda existe a comunidade com muita força. Tenho um amigo que andou a fotografar as marchas e numa família a bisavó dançava com a avó, a mãe dançava com a filha, a neta com a bisneta.

Sentem o confronto entre cultura erudita e cultura popular?  

Rui Unas: Eu acho que sempre vai existir. Isto é uma história eterna porque os bairros têm tendência a desaparecer, mas este bairrismo que faz estas histórias é uma história grande. Cada vez se conhece menos os vizinhos, mas agora ainda é possível. Para a questão que me colocas é preciso que pense. Acho que se está a esbater um pouco, o erudito está ligado a uma classe superior, agora qualquer pessoa no bairro pode aceder ao mais culto do mundo. Os hipsters são prova disso.

Noua Wong: Eu acho que o Fado é o forte da cultura portuguesa e um dos meios mais internacionais que temos. Acho que continuamos a ter tanta gente com essa força. Acho que até o popular é uma mais-valia nossa.