As nossas 5 músicas favoritas de ‘Late Registration’ no seu 10º aniversário


 

Kanye West não é uma figura consensual, mas a sua música costuma ser. Sobretudo este segundo álbum que o levou de promessa do rap para talento afirmado e confirmado. Vencedor do Grammy de melhor disco de rap, é conhecido sobretudo pelos seus singles, que o tornaram um fenómeno de vendas, e pela peça importante que representa na reviravolta que o estilo hip hop teve nos últimos 10 anos – sobretudo no corte que fez com a persona gangster que tantos rappers representavam.

Late Registration era o segundo álbum de Kanye West que se ia focar na educação. Antecedido por College Dropout e rapidamente sucedido por Graduation, a educação perdeu-se em 808s & Heartbreak e não voltou a ser recuperada no belíssimo disco que é My Beautiful Dark Twisted Fantasy. Com uma musicalidade única trazida por um Kanye produtor – que estava no topo do seu jogo de soul samples, que só ele parecia saber como descobrir e acelerar –, o disco está repleto de temas memoráveis.

A ajuda de Jon Brion, que Kanye descobriu na incrível banda sonora de Eternal Sunshine of a Spotless Mind, revelou-se na produção de cada um dos temas que compõem o disco. Afinal, o disco estava 80% completo e o rapper ainda não gostava dele. Foi com Brion que traçou cada música como uma cena de um filme, até atingir o estado de espírito do disco.

Este é um albúm de críticas e acusações. Atira farpas ao sistema de ensino norte-americano, mas também as prisões, a pobreza, a falta de consciência social, questões raciais e a guerra às drogas nos bairros norte-americanos. E claro, aos acordos pré-nupciais.

Vendeu cerca de quatro milhões de cópias até agora.

“Gold Digger”

Uma música que foi um sucesso tremendo a nível global, mas que é totalmente suportada pelo talento de Kanye West. O storytelling que coloca ao longo da música, para nos contar acerca desta personagem que parecia aproveitar a conta bancária de todos os rappers, só pode ser comparável com as punchlines icónicas que ficaram imortalizadas no temaQuem esteve na edição de 2006 do Cool Jazz Fest, em Oeiras, ainda não deve ter esquecido-se da forma como todos gritámos: “WE WANT PRENUP, WE WANT PRENUP”.

Numa barra:

“18 years, 18 years
She got one of your kids, got you for 18 years”

“Drive Slow” 

Sem a noção que tem da sociedade e dos movimentos sociais que a compunham, Kanye West não teria tido a carreira que teve. E é este é capaz de ser o álbum em que ainda vemos um Kanye mais conscious do que wealth conscious. Esta é uma música para se ter calma na estrada, para não dar demasiado nas vistas (a sério Kanye?) e, no geral, para levarmos a vida de uma forma descontraída. É o tema mais carpe diem da carreira de Kanye West.

Numa barra:

“Down the street from Calumet, a school for the Stones
He nicknamed me K-Rock so they would leave me alone”

“Crack Music”

Uma temática que era actual, e que infelizmente continua a ser, é aqui apresentada numa das metáforas mais inteligentes do disco. Kanye compara o vício da crack cocaine na América à obsessão cada vez maior com a música hip hop. Aproveita para lançar mais uma farpas políticas e conspirativas (sem se esquecer de referir George W. Bush, claro), num dos temas com mais energia do disco. A versão com o verso de The Game, que Kanye achou não se enquadrar no resto do disco por ter beef com 50 Cent e Suge Knight, está disponível algures online.

Numa barra:

“Who gave Saddam anthrax?
George Bush got the answers”

“Hey Mama”

Esta música é um dos casos mais singulares da megalomania que Kanye West sempre teve na sua carreira. Apesar de ter este tema escrito desde o ano 2000, guardou-a na gaveta até ao dia em que a pudesse estrear na Oprah Winfrey, porque sabia que isso ia ser um dos maiores motivos de orgulho da sua mãe. Uma história acerca de como foi criado e de todo o apoio que teve da sua mãe, não voltou a apresentá-la ao vivo desde que quebrou em lágrimas no palco (Donda West morreu em 2007 depois de complicações pós-cirurgia cosmética).

Numa barra: 

“Forrest Gump mama said, life is like a box of chocolates
My mama told me go to school, get your doctorate
Somethin to fall back on, you could profit with
But still supported me when I did the opposite”

“Gone”

Quando Marina Shifrin se tornou viral, foi ao som deste tema de Kanye West. O que comprova muitas coisas, nomeadamente, que Kanye West conseguiu arranjar uma poção certeira para fazer pessoas brancas sentirem-se cheias de pinta a ouvirem samples que estavam reservados aos mais conhecedores de soul R’n’B. Parte dessa mistura complexa foi conseguida através da orquestração dos temas, mais uma vez com os dedos mágicos de Jon Brion. A evolução dos instrumentos de corda ao longo desta música é tanto uma vitória para Kanye West, como para o hip hop.

Numa barra:

“Damn Ye it’d be stupid to diss you
Even your superficial raps is super-official”

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