Bons Sons 2015: bem-vindo ao mundo encantado da Aldeia


Cheguei à aldeia de Cem Soldos precisamente às 5h da tarde de segunda-feira, dia 10. Com o início do Festival Bons Sons marcado para dali a três dias, os cerca de 70 aceites no programa de voluntariado do festival receberam a indicação para se reunirem àquela hora na sede do SCOCS, associação da aldeia que é a grande responsável pela organização do evento. Assim o fiz, carregado com malas e saco de cama sob um calor abrasador, mas com um sorriso suspeito no rosto, resultante de um misto de saudade, ansiedade e expectativa. Como quem já sabe ao que vai e mal pode esperar por voltar a vivê-lo, afinal, esta não foi a minha primeira vez no Bons Sons.

Assisti a um ou dois concertos em 2008, passei dois dias na aldeia em 2010, fui “festivaleiro” na verdadeira essência da palavra em 2012 e participei no programa de voluntariado – ou como se diz em Cem Soldos, fui “voluntário externo” – pela primeira vez em 2014. Penso que foi neste ano que realmente me inteirei da verdadeira dimensão do projeto cultural e recreativo que nasceu e que se afirmava na aldeia que, afinal de contas, sempre esteve ali ao lado da minha cidade natal de Tomar. Por agora, direi o seguinte – não é por acaso que o Festival Bons Sons recebeu, recebe e acredito que continuará a receber tão boas críticas por parte de praticamente todos os media por esse país fora. Acreditem, este festival, feito com amor, dedicação e muito suor pelos cem soldenses e restante equipa de voluntários, é mesmo qualquer coisa de especial. Este artigo, escrito de uma perspetiva mais pessoal – e que por isso possa talvez ser entendido como algo tendencioso – serve precisamente para partilhar um testemunho mais próximo do Festival Bons Sons, que não se limite meramente a falar dos concertos mas que passe também por todos aqueles pequenos momentos, experiências e pormenores que, juntos, constroem a experiência sem igual que é viver e trabalhar na aldeia de Cem Soldos nesta semana de enorme festividade.

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Não foi preciso muito tempo para me lembrar porque voltei. De forma algo efusiva fui cumprimentando caras já conhecidas, algumas mesmo amigas, que recebi com fortes abraços e sorrisos de orelha a orelha. “Bom, cá estamos nós para mais um ano, não é verdade?”. Os novos voluntários, visivelmente entusiasmados, depressa se aperceberam de que não havia motivos para timidez ou desconforto na aldeia, e logo ali, naquele que foi o primeiríssimo contacto com o Bons Sons para muitos deles, julgo que se formaram elos de amizade e companheirismo que, ou muito me engano, não só se mantiveram durante toda a semana de festival como suspeito que perdurarão muito mais para além disso. É algo francamente fascinante esta coisa do voluntariado. Ou será da aldeia? Fiquemo-nos pelo empate técnico.

Não fomos os primeiros a chegar a Cem Soldos, longe disso. Os ditos voluntários internos, jovens e adultos nascidos na aldeia, já haviam iniciado os trabalhos há mais de uma semana, e a equipa da direção do festival, aqueles que viriam a ser os nossos coordenadores durante os dias do Bons Sons, já tinham meses de preparações e planeamentos nos ombros. Nos dias que se seguiram, os voluntários tiveram a oportunidade de conhecer melhor a aldeia e as suas pessoas, à medida que contribuíam para a transformação física da aldeia de Cem Soldos, que se preparava para receber o festival. Por entre tarefas simples de execução como dobrar folhetos ou colocar autocolantes em copos e outras um pouco mais puxadas – que o diga a equipa dos palcos, que merecia uma ovação em pé por todo o árduo trabalho realizado – não demorou muito até que os voluntários novatos começassem a entrar no espírito do Bons Sons à medida que se apercebiam que o festival, tão acarinhado e estimado pelos locais, era, afinal, também deles. Ser da equipa Bons Sons é um bocado como aquele dilema do super-herói aracnídeo – ao mesmo tempo que tens o privilégio de participar e pertencer ao festival, acabas por te sentir responsável pelo seu sucesso.

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No Café da Tonita, paragem quase obrigatória para qualquer um que estivesse na aldeia durante esta semana, só se falava do Festival. Por entre os cafés matinais e as refrescantes minis que combatiam o calor, trocavam-se estórias e rumores, prognósticos e expectativas. Esta era uma edição crucial para o futuro do Bons Sons, já que rompia com a periodicidade bianual imposta desde o começo do Festival em 2006, e sentia-se uma compreensível ansiedade nas vozes de locais e voluntários à medida que o grande dia se aproximava. Lembro-me de alguns voluntários amigos me perguntarem se não estava preocupado com o facto de algumas equipas ainda não estarem definidas ou por haver ainda tanto para fazer e com o Festival já aí à porta. Tentei reconfortá-los, dizer-lhes que era sempre assim, que tudo isto era normal. Em toda a verdade, seria algo descabido esperar que tudo fosse rápido, superorganizado e eficiente num festival que se faz totalmente com trabalho voluntário e que se monta no espaço de semanas. Afinal de contas, estamos na aldeia. Por entre os muitos que acabam por trabalhar praticamente de sol a sol, treinadores de bancada e peritos na arte do levantamento do copo não faltam. Pode ser algo injusto para alguns, mas todos acabam por o compreender, e faz parte do encanto da terra – não se preocupem, não é defeito, é feitio, disse-lhes. Ajudem quando vos pedirem e com o que puderem, que, de uma forma ou outra, tudo acabará por se fazer. E assim foi.

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A manhã de quinta-feira dia 13 marcou o tão aguardado início do Festival, e em poucas horas já dava para perceber o que aí vinha. Entre os campistas, a grande maioria dos quais havia chegado no dia anterior, viam-se festivaleiros veteranos, famílias e grupos de amigos, estrangeiros e conterrâneos, pequenos e graúdos. Por todos os cantos da aldeia viam-se pessoas muito diferentes, quase opostas diria, mas que partilhavam os mesmos espaços em paz e harmonia com os habitantes locais. Para nós, organização, foi possivelmente o dia mais atribulado de todo o festival. À boa maneira portuguesa, montou-se tudo o que faltava montar, arrumou-se tudo o que tinha de ser arrumado e recebeu-se quem faltava chegar. Com os voluntários externos já distribuídos por turnos e equipas, tive a sorte de ser destacado para a equipa de comunicação pelo segundo ano consecutivo, onde me cabia a função de auxiliar a assessoria de imprensa do festival. Trocado por miúdos, o meu trabalho consistia em receber os membros dos vários órgãos de comunicação social que vinham cobrir o festival às quatro entradas da aldeia.

Por entre as várias “piscinas” que fiz por Cem Soldos nesse dia, aproveitei as paragens para assistir aos primeiros concertos do Festival. No Palco Giacometti, que este ano foi transformado num simpático coreto, ouvi Benjamim, uma agradável surpresa, e Júlio Resende, que sentado ao leme do seu monstruoso piano encantou todos os presentes com uma abordagem feita de improviso aos maiores clássicos do fado português. Pelo meio, passei pelo Palco Outonalidades, situado em frente à igreja da terra, e assisti por breves momentos a uma modesta mas animada multidão que ora saltava ora cantarolava ao som da poesia repleta de asneiredo dos Penicos de Prata. Coube aos Riding Pânico abrir as hostes do Palco Eira, e não o fizeram por menos. O super-grupo de rock instrumental, composto por elementos de Paus, Quelle Dead Gazelle e Marvel Lima, demonstrou uma perícia madura e invejável à medida que desbravava os caminhos sujos mas sentidos do rock progressivo por entre sorrisos cúmplices e solos desconcertantes, naquele que, pessoalmente, considerei um dos melhores concertos de todo o Festival. Mas a primeira noite de Bons Sons, que contou ainda com Enraizarte e Xaral’s Dixie no Palco Lopes-Graça, pertencia a Manel Cruz, e o público sabia-o. Perante uma plateia composta e visivelmente ansiosa, o guru de Ornatos Violeta e Supernada não desapontou, provando que tem tanto de músico e de performer como de poeta e trovador. Saiu de palco sob uma estrondosa ovação, que falhou em conseguir abafar os gritos histéricos das fãs mais extasiadas.

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Sexta-feira foi o dia de bandas como Minta & The Brook Trout, Hitchpop, Oco e Criatura demonstrarem algo muito simples sobre o cartaz do Bons Sons – não é preciso ser-se cabeça de cartaz ou ter um mar de devotos fãs na plateia para cativar o público e criar excelentes momentos musicais. Uma vez dispensado do trabalho diário, admito que fui para o concerto de Carlão sem grandes expectativas, mas depressa me apercebi o porquê de tanto burburinho pela aparição do homem forte de 5-30 e Da Weasel. Mesmo não sendo apreciador do género, tenho de reconhecer que esse tal de Carlos Nobre sabe bem o que faz. A fortíssima presença em palco do cantor, complementada com muita interação com o público e o apoio de músicos competentes, resultou num espetáculo de hip-hop maduro mas rejuvenescido, que teve num dos seus momentos altos a música “Colarinho Branco”, amavelmente dedicada a todos os Armando Vara e José Sócrates deste país. Seguiu-se lhe os Clã, que celebraram o seu estatuto de conceituado conjunto português em clima de festa e dança, com muitas palmas e vozes esganiçadas à mistura. Para fechar o dia houve Salto em dose dupla, que juntaram uma performance de rock conseguida a um dj-set recheado de hits atuais que se fez ecoar no largo de São Pedro até às tantas da madrugada.

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Com a chegada do fim-de-semana, o número de visitantes na aldeia subiu a olhos vistos, como de resto já começa a ser habitual no Bons Sons. Nas várias voltas e voltinhas que ia fazendo pelas ruas da aldeia vi de tudo um pouco, desde habitantes já de idade a travar amizade com jovens desconhecidos, famílias que passeavam descansadamente com carrinhos de bebé em punho até vários festivaleiros que se perdiam na vasta oferta das bancas de marroquinarias espalhadas pelo recinto do festival. Passei pelo Palco Garagem para assistir ao concerto dos LODO, banda amiga com membros da terra que ainda conseguiu juntar um admirável grupo de pessoas para ouvir o seu talentoso rock alternativo. Como eles, muitos outros foram mostrar o que valiam neste espaço de inscrição livre dedicado a bandas recentes e de reportório ainda breve.

Num dia que contou com nomes como D’Alva, Trêporcento e Nice Weather for Ducks, há que destacar o concerto de Bruno Pernadas, artista de raízes jazz que acompanhado por cerca de uma dezena de músicos embalou o público numa autêntica viagem musical cheia, requintada e complexa. A aclamadíssima Ana Moura, responsável por possivelmente a maior enchente de todo o festival, deu um concerto ao nível que todos lhe reconhecem, deixando no final rasgados elogios ao Festival e às suas gentes, prática que de resto foi frequente por parte dos cerca de 250 músicos que compuseram o cartaz deste ano. Dirigi-me de seguida à tasca do Miguel, outra paragem cem soldense quase obrigatória em dias de festival, para um serão de copos e conversas com amigos e conhecidos. Encontrámos um grupo de cantores amadores, alguns naturais da terra, no que depressa se transformou numa sessão conjunta de cantoria desgarrada. Desde cantares alentejanos aos melhores êxitos da banda sonora portuguesa do filme do Rei Leão, ainda hoje não sei como é que a velha tasca não cedeu com todos aqueles bateres de pés e falsetes desajeitados mas cheios de pujança, que em tudo contrastavam com o trio de Djs de kizomba e eletrónica que tocavam lá fora. O álcool – digo, a aldeia – tem destas coisas.

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O sol, que até então tinha andado meio escondido, decidiu juntar-se à festa no Domingo, último dia do Bons Sons, para enorme prazer dos festivaleiros mais pequenos que se envolveram em espalhafatosas guerras de água no largo da aldeia, sem dó nem piedade para com todos os que quisessem entrar na brincadeira. Mais tarde, Tó Trips confirmou o seu estatuto de mago das guitarras com uma prestação deveras entusiasmante acompanhada de forma sublime pela percussão de João Doce. Como não se podia sair do Bons Sons sem voltar a dar mais um pezinho de dança, eis que surgem os percussionistas Retimbrar com ritmos alucinantes e batuques para todos os gostos. Entre o rock melódico dos Peixe:Avião e dos Long Way to Alaska no Palco Eira, Camané veio a Cem Soldos marcar presença com os seus arranjos mais tradicionais e o vozeirão a que já nos habituou. Depois de um concerto que deu para quase tudo, inclusive para cantar uma versão – algo estranha diga-se – da Ouvi Dizer dos Ornatos Violeta, o encerrar do festival coube a DJ Tenreiro, que surpreendeu com um set de música jazz e blues. Lembro-me de olhar para o lado, nos derradeiros momentos finais do Bons Sons, e ver vários amigos e membros da organização que, tal como eu, estavam visivelmente esgotados de tanto cansaço, mas felizes. A missão tinha sido cumprida, e o Festival tinha sido um sucesso. Em 4 dias de festa a aldeia conseguiu acolher novamente mais de 35 mil pessoas, e não tive conhecimento de que tivesse existido qualquer confusão ou desacato durante todo o Festival. “O nosso pequeno Woodstock!”, diziam alguns dos voluntários no dia seguinte, por entre despedidas sentidas e juras de reencontros futuros. É uma comparação e tanto, mas não sei até que ponto estará assim tão desfasada da realidade.

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O testemunho que deixei será certamente influenciado pela proximidade, estima e – admito – carinho que nutro pelo Festival, mas todos os momentos que aqui escrevi foram passados com muitas outras pessoas neste clima de confraternidade e partilha, de palmas e de danças, de risos e de muitos sorrisos. No Bons Sons há quase a impressão de que a música é um elemento secundário. Não por falta de variedade, qualidade no cartaz, ou excelentes concertos, porque se há coisa que se retira do Festival em todas edições, e esta não foi exceção, é que a música portuguesa está viva e recomenda-se. Mas há tanto, tanto mais para descobrir e vivenciar pelas ruas e largos desta aldeia que acredita em si e nos seus, e que por isso faz.

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Quanto a mim, sei o seguinte – enquanto houver festival, seja como media, voluntário ou festivaleiro, tenho a certeza que de tudo farei para dar um saltinho à aldeia nestes dias, e deixar-me levar pelo verdadeiro mundo encantado da Aldeia. Felizmente, sei que não estarei sozinho. Esta pacata aldeia portuguesa pode bem ser a terra natal dos quase mil habitantes que aqui vivem, mas durante esta semana de Bons Sons, Cem Soldos é casa para muitos, muitos mais.

(fotos: Mariana Valle Lima / Shifter)