“Chelas é o sítio” e em Setembro vai ser o berço do Festival Zona Não Vigiada


Quando em 1998 Leonel Vieira mostrou ao público português o filme Zona J, o país ficou a conhecer Chelas. Um bairro com uma realidade diferente, heterogénea. Um ano depois, em 1999, Sam The Kid lançou o seu primeiro álbum, Entre(tanto), e Chelas já não era só mais um bairro de Lisboa. Era “aquele bairro do filme”, o bairro onde tudo acontecia.

Agora já não temos Cosmo, Filomena, Tó, Ulisses ou Pica-Pau para nos aproximar da (um pouco exagerada) realidade do bairro. Não. Agora temos rimas e batidas do quarto mágico, no 7º céu, que nos transportavam os ouvidos e a cabeça até lá. Aos poucos fomos compreendendo o que era Chelas, e fomos decorando exaustivamente aquele álbum.

Mas a ideia não mudava. Era impossível imaginar Chelas sem o “crime, droga e violência” como dizia o Snake na faixa “Negociantes” do Pratica(mente) de Sam The Kid. A verdade é que o país mudou e, com ele, também as mentalidades se foram alterando. O inimaginável que seria organizar um festival no coração do bairro passou a realidade e, 17 anos depois do filme, vai finalmente acontecer.

A história? É simples: há cerca de dois anos, a encenadora Mónica Calle deixou o Cais do Sodré, em Lisboa, e rumou até à zona J para lá estabelecer a sua companhia Casa Conveniente/Zona Não Vigiada. O objectivo principal da mudança era trazer, através de espectáculos teatrais e outras actividades, um novo rumo ao bairro, captando moradores e proporcionando-lhes experiências que de outra forma não teriam acesso.

Estas experiências tinham também outra missão: trazer públicos diferentes à zona, públicos que de outra forma ali não iriam.

Com esta ideia base formada e com a noção da importância da música no quotidiano do bairro, a companhia contactou a associação Filho Único que, juntamente com a editora Príncipe – que tem realizado actividades de carácter semelhante – fez mover as engrenagens necessárias ao avanço do Zona Não Vigiada.

O festival acontece a 26 de Setembro numa ampla parte da zona J, junto às torres de habitação, entre as 15h30 e as 21h, tem entrada gratuita e uma confirmação de peso, Skepta, o pioneiro e figura central do estilo grime.

Para representar a música electrónica estão confirmados Dj Firmeza e Dj Makobou, pela mão da editora Príncipe. Na vertente rock encaixam as Pega Monstro que acabaram de lançar Alfarroba, sucessor do homónimo de 2012, e os Iguanas, que trazem o toque blues. A última confirmação fica para Norberto Lobo, o lisboeta que já colaborou com Chullage, Lula Pena e que partilhou o palco com outros nomes, por exemplo, Devendra Banhart.