Os retiros de Jean-Michel Basquiat no Hawaii


Cathay Che é uma jornalista e escritora que durante o seu percurso profissional escreveu sobre todo o tipo de temas, desde artigos sobre personalidades do panorama musical até longas contribuições para roteiros turísticos especializados na zona Este do Hawaii. Foi precisamente a sua ligação ao Hawaii, de onde é natural, que a levou à descoberta das histórias sobre as visitas de um dos seus artistas favoritos a uma terra que lhe diz tanto. Jean-Michel Basquiat, uma eterna referência para os jovens artistas e interessados em arte de todo mundo, escolheu Hana, uma pequena cidade da costa Este da ilha de Maui, como escapatória aos loucos tempos que se viviam nos anos 80 em Nova Iorque. Num artigo publicado na Amuse, conta a história da pequena investigação que conduziu e mostra os resultados desse trabalho.

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Jean-Michel Basquiat a cavalo, no Hawaii, por Paige Powell

 

A próspera onda artística e musical que dominava downtown NY exigia demasiado de todos os que se envolviam nessa nuvem com demasiadas partículas de heroína. Talvez por isso Basquiat tenha visto naquela pequena cidade adormecida um potencial revitalizante capaz de purificar até a alma mais urbana. Graças à investigação de Cathay Che e às partilhas de Paige Powell, namorada de Jean-Michel por altura da sua primeira visita à ilha, ou de Mike Cappadona, um vendedor de chapéus (e não só) local, podemos espreitar alguns momentos e conhecer alguns hábitos do artista durante as visitas à cidade de Hana.

Paige conta que, em 1984, o primeiro contacto com a ilha não podia ter sido melhor. Numa viagem feita com Basquiat mas também com o pai, a madrasta e a irmã deste, a chegada à ilha foi feita de helicóptero. Conduzir durante 60 milhas por lá podia demorar até 3 horas por isso acabaram por optar pelo “atalho milionário”, até aterrarem no jardim da casa onde ficariam. Uma casa que Paige acreditava pertencer a alguns coleccionadores de arte do Texas. Perks of being with Jean-Michel Basquiat, right?JMBpolaroid

Retrato de Basquiat, por Paige Powell

 

mana da ilha não deixa ninguém indiferente. Paige lembra Basquiat como estando “feliz e livre” naquele ambiente. Os seus dias eram ocupados a jogar ténis, montar a cavalo, a fazer longas caminhadas e noites a cozinhar. Outro dos passatempos favoritos de Basquiat era partir e comer cocos com as próprias mãos. Este era aliás um dos exemplos dados por Paige para defender que, apesar do seu espírito urbano, Basquiat sentia-se na ilha de Maui como se estivesse em casa. Uma casa com um ambiente mais saudável, longe da heroína e de outras drogas pesadas, mas sempre com alguma erva à mistura.

Pode até dizer-se que a erva foi o que “juntou” Basquiat e Mike Cappadona. Mike, um vendedor de chapéus da ilha, conheceu Jean-Michel quando este o procurou não para comprar chapéus mas para comprar algumas gramas de marijuana, numa pequena barraca junto à estrada. Segundo Mike, as estadias de Basquiat na ilha eram calmas, mas com particularidades diferentes da versão apresentada por Paige. Mike conta que os momentos partilhados com Jean-Michel eram passados “a fumar erva e a filosofar”. Não faziam grandes planos juntos, mas acabavam sempre por se encontrar perto do local onde Mike vendia os seus chapéus. O grito de “Hey, bag man!” vinha normalmente de um Basquiat descalço e pronto para fumar uma boa erva enquanto dissertava sobre o que lhe passasse pela cabeça naquela altura, rabiscando cartas, livros, bocados de papel ou o que tivesse mais à mão. Mike diz ainda que nunca viu o artista a andar de mota ou a ir à praia e, segundo o que sabia, durante os seus tempos na ilha estava hospedado numa barraca ao ar livre onde havia pouco mais que um colchão no chão. Tudo bem diferente do que contava Paige Powell sobre a primeira visita do então casal e prova de que Mike não fazia ideia de quem era ou do impacto mediático que já naquela altura tinha Jean-Michel Basquiat.

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Mike Cappadona, com uma das peças deixadas por Jean-Michel Basquiat

 

Os tempos passados com o radiant child deixaram mais do que apenas boas recordações para Mike. Alguns desenhos, 2 quadros e uma imensidão de rascunhos foram mais tarde capitalizados, já depois da morte de Basquiat, quando Mike percebeu finalmente o que tinha em mãos. As vendas no Ebay e a alguns amigos de amigos renderam algo como 7000 dólares, que usou para viajar um pouco por todo o mundo. Mas uma das últimas recordações que guarda de Basquiat é uma fotografia tirada com o artista, por altura da sua última visita a Maui, mais ou menos um mês antes da sua morte.

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Mike Cappadona e Jean-Michel Basquiat

 

Um Basquiat menos jovial, com mais sinais de que precisava realmente que o mana da ilha o ajudasse a enfrentar o que não conseguia digerir na sociedade que engolia tudo à sua volta. Talvez à procura de reviver as suas primeiras visitas a Hana – uma cidade que, à semelhança do que Basquiat parecia procurar, se mantinha intacta, com uma essência inviolada, como se tivesse ficado imaculadamente suspensa no tempo.