Novo conto de F. Scott Fitzgerald esteve 80 anos à espera de ser descoberto


Quando Fitzgerald começou o seu conto Temperature, não fazia ideia de que não era preciso avisar os leitores de que as personagens não eram baseadas em pessoas reais. Afinal, nos quase cem anos que se passaram desde então, as semelhanças entre os personagens e a vida real ficaram claramente esbatidas.

Um ano antes de sofrer o ataque cardíaco pela qual faleceu, F. Scott Fitzgerald tinha completado um conto sobre um escritor alcoólico diagnosticado com uma doença cardíaca. A ficção imita a realidade? Claro que sim. E as 8 000 palavras que compõem a peça vão agora chegar aos leitores através da revista The Strand Magazine.

Supostamente perdido durante oito décadas, esta obra do autor norte-americano, conhecido por títulos icónicos como The Great Gatsby e Tender Is the Night, aconteceu quando a sua carreira no cinema já tinha falhado. A sua tentativa de virar argumentista nunca deu tão certo como queria, tendo o contrato com a MGM expirado em 1939, ano em que foi duas vezes internado por alcoolismo.

Isso justifica que avance com frases como “E neste momento, a Câmera Vai Entrar na Casa”. Com dificuldade em encontrar um tom escrito que não parecesse acabado de sair da era do Jazz, Temperature é passado em Los Angeles e conta uma história de falhanço, doença e declínio; temas recorrentes na obra de Fitzgerald. A própria linguagem é quase forçosamente noir, falando da “notável fotogenia” do protagonista, assim como da sua “beleza e elegância negra”. À volta deste personagem encontramos o universo hollywoodesco das assistentes, das actrizes e das amantes que desvanecem quando mais falta fazem.

O editor da revista The Strand deu de caras com o manuscrito este ano, quando procurava livros raros e material acessório de Fitzgerald na universidade de Princeton, alma mater do autor. Garante que a sobranceria e arrogância do autor se mantém, criticando médicas, estrelas de cinema e as normas da sociedade californiana. Diz que a obra vem provar a aptidão e à vontade do escritor no registo de contista.

As suas histórias já tinham saído na Collier’s, no Saturday Evening Post e noutras revistas, mas em 1939 a sua fama e o seu público já tinha diminuído muito. A carta que escreveu ao seu agente, que no passado o tinha ajudado financeiramente, tinha a data de Agosto de 1939 e queixava-se do seguinte: “Ser eu a mandar directamente a história pode ser uma má política, mas ando a viver de um Ford que empenhei. Eu não tenho de explicar de que apesar de salvares um homem uma vez, ele vai querer ajuda quando a voltar a esticar. Como estava a afogar-me, tive de agir rápido”.

Este conto, rapidamente aclamado como uma grande descoberta, acaba por dar uma nova visão da Hollywood de Fitzgerald, um lugar tortuoso e onde demasiada aspiração acabava por não dar frutos. Trabalho num romance, também passado na cidade de Los Angeles, até falecer. O nome póstumo da obra foi The Love of the Last Tycoon.

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