Precisa-se de nova versão do “sistema operativo” Capitalismo para gerir a abundância


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Perguntas rápidas. Quantas vezes tiveste um gasolineiro a encher-te o depósito no último ano? Já compraste Nespresso nos postos de venda automáticos? No supermercado usas as auto-caixas? O teu emprego tem cafetaria ou máquina de café? Quantas máquinas de venda automática de comida há nos teus percursos pedestres e quantas te lembras de ver há 1 ano? Há quanto tempo não estás numa fila do banco? E das finanças?

Muitos leitores nem reconhecerão operações do parágrafo anterior. Pessoas para nos encher os depósitos? Ir a um banco e esperar numa fila para levantar o meu dinheiro ou fazer uma transferência? A sério?

Caminhamos para uma economia suportada quase exclusivamente no trabalho mecânico, automatizado ou operado voluntariamente pelo consumidor. O passo é cada vez mais largo. E o resultado, uma benção: a abundância de produtos e serviços cada vez mais baratos.

Ao longo dos próximos 10 anos, a Uber substituirá a maioria dos seus condutores à medida que for mudando para veículos autónomos; robôs de todos os tipos invadirão as pequenas indústrias e fábricas, agora numa escala sem precedentes depois de terem aligeirado apenas as maiores linhas de montagem; as cadeias de fast-food instalarão sistemas de auto-preparação de refeições; sistemas dotados de inteligência artificial começarão a fazer o trabalho da maioria dos trabalhadores dos departamentos de contabilidade, financeiro e administrativo.

O mesmo sucederá nos paramédicos, farmacêuticos e —atenção Portugal — nos representantes de suporte a cliente, vulgo call-centers.

Mais e mais empresas de todos os ramos demandam as consultoras em busca de soluções de automação. Pegando só no universo de clientes de uma pequena consultora, a Khosla Ventures, a procura de soluções que substituam pessoas por algoritmos inclui trabalhadores agrários e de armazém, viradores de hamburgueres, juristas, intermediários financeiros e de investimento, algumas funcionalidades de cardiologistas, otorrinolaringologista, psiquiátras — e muitos outros.

Uma parte disto já está a acontecer em pequena escala. A escala vai aumentar. Pior: vai tudo acontecer ao mesmo tempo.

A simultaneidade das transformações radicais em centenas de ocupações é o grande diferenciador da atual para as anteriores revoluções que afetaram o emprego.

Atualmente economistas otimistas quanto à retoma do emprego e da continuidade do capitalismo, que se baseavam nos acontecimentos do passado para predizer que as forças que estão a causar a destruição massiva de emprego acabarão por criar novos trabalhos, começam a encarar a simultaneidade como uma variável capaz de comprometer o resultado da equação.

A economia da abundância é um paradoxo desconcertante. Mas não tem de ser necessariamente má. Mau é se não fabricarmos uma nova versão do “sistema operativo” Capitalismo que redistribua vantagens e ganhos em função da nova realidade.

Texto: Paulo Querido
Foto: Flickr

Aprofundar

We need a new version of capitalism for the jobless future (Vivek Wadhwa/The Washington Post): The impact of advancing technologies will be different in every country. China will be the biggest global loser because of the rapid disappearance of its manufacturing jobs. It has not created a safety net, and income disparity is already too great, so we can expect greater turmoil there. But developing economies will be big winners.

The Next Technology Revolution Will Drive Abundance And Income Disparity (Vinod Khosla/Forbes): There have been and will continue to be multiple big technology revolutions, but the most impactful on human society may be the one that finally builds systems with judgment and decision-making capability more sophisticated and nuanced than trained human judgment.

Today, 99 percent of all business processes can be automated (Uwe Weiss/Blue Yonder): Digital transformation of industry in Europe offers enormous opportunities. According to the study, Europe could thus have a growth in industrial gross value creation of 1.25 trillion euros by 2025 — or could lose 605 billion euros if things don’t go so well.

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