“Se há Bons Sons é porque a aldeia o quer”


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O Festival Bons Sons 2015 começa na próxima quinta-feira, dia 13, mas já há muito que a aldeia de Cem Soldos trata das preparações do festival que é quase como um filho da terra. Esta será a sexta edição do Bons Sons, sendo a primeira realizada sob um regime de periodicidade anual.

Num clima de trabalho frenético e de enorme entusiasmo por toda a aldeia, mas também com algum nervoso miudinho à mistura, aproveitámos a ocasião para falar com Luís Ferreira, presidente da direção do SCOCS (Sport Club Operário de Cem Soldos) e diretor artístico daquele que é o maior festival de música portuguesa.

 

Esta é a primeira edição do Bons Sons que quebra com o modelo bienal do festival, depois de um ciclo de 5 Festivais que começou em 2006. Qual é o balanço que fazes do percurso do festival até este momento?

O balanço é bastante positivo. Eu acho que o primeiro trunfo do Bons Sons até agora foi conseguir criar um discurso sobre a música portuguesa. Foi o primeiro projeto de escala onde a música portuguesa foi encarada como um foco, e que se tornou uma verdadeira plataforma para a música portuguesa. Depois disso já vieram mais festivais e mais projetos de recolha e de apoio à música portuguesa, mas consideramos, sem falsas modéstias, que não só fazemos parte como somos um dos responsáveis por este movimento em prol da música portuguesa. O segundo trunfo nestes primeiros anos foi termos conseguido pôr Cem Soldos no mapa. E pôr Cem Soldos no mapa é pôr a sua mensagem, a sua filosofia, que é contagiante e disseminadora de boas práticas. Isso está a acontecer, e é bom no sentido em que acabamos também por legitimar a associação (SCOCS), fazendo por isso arrancar vários projetos sociais com efeitos pragmáticos para à aldeia.

Foi um ciclo mais lento do que pensámos – fazer um festival é muito mais complexo e dá muito menos dinheiro do que se pensa – mas acredito que hoje já não conseguimos imaginar Cem Soldos sem o Bons Sons. Toda a equipa cresceu e aprendeu muito com as várias edições, pelo que o balanço deste primeiro ciclo só pode ser muito positivo. Tivemos 38 mil pessoas no último festival, 138 mil no total das 5 edições, e gerou-se entre 750 mil e um milhão de euros para a região só em 2010. Tudo isto alcançado por um projeto de voluntários, que vai ao encontro de todos os estereótipos que as pessoas possam ter sobre a aldeia, o espaço rural e a música portuguesa, mas acima de tudo por esta mensagem do acreditar – nós somos uma aldeia que acredita e que por isso faz. Depois de um arranque algo dificultado, em particular na comunicação desta mensagem e da filosofia do festival, acredito que hoje a marca Bons Sons já tem um grande valor, e que acarreta em si vários valores, sejam eles ecológicos, sustentáveis e acima de tudo culturais e sociais.

Por tudo isto, e, claro, pelos grandes momentos que criámos ao longo das várias edições do festival, sinto que fechámos em grande este primeiro ciclo do Festival.

O anúncio de que o Bons Sons iria deixar de ser de 2 em 2 anos, contando com uma nova edição já este ano, foi dado no seguimento do Dia Aberto do SCOCS, que celebrou o 33º aniversário da associação, perante grande parte da comunidade local. Como é que a terra recebeu a notícia, certamente inesperada para a maioria?

Confesso que estava com algum receio da reação, principalmente porque que a passagem do Festival para este modelo implica várias mudanças para a aldeia, desde o reajustar da programação local até à forma como os habitantes contribuem para o festival. É muito importante para o Bons Sons que a aldeia também possa usufruir do festival, que haja uma lógica de envolvimento que permita às pessoas de Cem Soldos – que dedicam grande parte do seu tempo livre e de férias a todo o trabalho pré e pós festival – viverem também a aldeia com os visitantes. O grande desafio para este novo ciclo do Bons Sons passa exatamente por tentar aliviar toda a carga da aldeia, que é muita, através da formação de novas parcerias e da reorganização dos vários serviços do Festival.

Mas a reação foi muito boa. Houve uma gargalhada geral e bateram-se muitas palmas. É claro que há algumas pessoas que ficaram um pouco assustadas, não por esta edição propriamente dita mas por passar a ser anual, isto é, as pessoas pensam “okay, este ano faz-se, mas como é que vai ser a seguir?”. Contudo, ao nível de sede da associação a proposta passou com quatro abstenções e o resto de votos positivos, e penso que é quase unânime a vontade de Cem Soldos de continuar com o Bons Sons. Aliás, apesar da maior parte das pessoas saberem em contrário, fica por vezes a ideia de que o festival é um elemento externo que vem a aldeia, mas não, é a aldeia que o trabalha e sem esta não haveria festival, logo se há Bons Sons é porque a aldeia o quer.

Falando agora ao nível da programação, quais são as maiores alterações que se vão fazer sentir no festival relativamente à edição passada?

Luís Ferreira – No que diz respeito aos concertos achámos por bem regressar aos 40, que depois de várias experiências consideramos que é o número ideal. Na edição anterior foram 52 mas era o fecho do ciclo de festivais bienal, e fazer algo dessa proporção todos os anos seria uma sobrecarga enorme para a aldeia. Até para o público achámos que por vezes existia alguma angústia de por um lado querer ver todos os concertos mas também querer ir beber um copo a dada tasca, ou descansar um bocado e aproveitar a estadia na aldeia. Por isso achámos mais interessante proporcionar uma experiência mais relaxada e mais aberta, com os 40 concertos nos 8 palcos, que vão ser sensivelmente os mesmos, mas com mais atividades e iniciativas paralelas.

A regra da organização de não repetir nomes de edições anteriores vai continuar a manter-se daqui para a frente?

Esta vai ser a última edição do Bons Sons em que vamos manter essa premissa. Com isto não quer dizer que vamos passar a repetir nomes todos os anos, longe disso, até porque o Festival faz uma forte aposta na diversidade de géneros e de artistas, mas há projetos que entretanto já são muito diferentes de quando visitaram a aldeia pela primeira vez. Não fazia sentido continuar a pôr vários artistas “de castigo” só porque vieram vieram tocar a Cem Soldos no passado, especialmente passando o festival a ser anual.

Olhando para uma perspetiva mais a longo prazo, quais são os objetivos da organização do Bons Sons para o Festival nos próximos anos?

Em primeiro lugar, o grande objetivo será manter intacta a genética do festival, que como disse se centra nestes dois dogmas – a aldeia e a música portuguesa. O Bons Sons é isto, e sem isto, não é Bons Sons, é outra coisa qualquer. Depois disto, temos vários objetivos para os próximos anos. A mudança para uma periodicidade anual vai permitir criar não só um discurso – algo que já atingimos com os últimos anos – mas uma prática continuada sobre a música portuguesa, dando-lhe mais espaço e destaque. Queremos – não será já nesta edição, mas nos próximos 5 anos – apoiar e pensar como é que a música portuguesa se pode internacionalizar, sendo o Bons Sons um showcase ideal para aqueles que querem ver o que de melhor se faz por cá.

No que diz respeito a Cem Soldos, a ideia é passar o projeto aldeia/cultura à prática. Começar a avançar com vários projetos que ainda estão muito na parte teórica, começar a retirar efeitos concretos para a aldeia e tornar Cem Soldos num espaço embrionário que seja um estímulo e um exemplo que ajude a estudar esta questão de como trabalhar a música portuguesa e o espaço rural. Com o aumentar das parcerias e com esta atividade regular do Bons Sons acho que nestes próximos 5 anos vai haver uma transformação física e real em Cem Soldos, tornando-se a aldeia um espaço de referência para a cultura e para a música portuguesa.

No ano passado o Bons Sons teve cerca de 38 mil pessoas numa aldeia que não chega a ter mil habitantes. Não há o receio de que o Festival se possa tornar vítima do seu próprio sucesso na medida em que se pode tornar demasiado grande para a aldeia, ou até que por isso perca o seu espírito e identidade?

Esse é basicamente o medo que toda a gente tem desde a primeira edição (risos). Tem a sua piada porque nós inventamos um conceito e depois as pessoas têm medo que nós não percebamos o conceito que inventámos. Nós temos lotação máxima para 40 mil pessoas ao longo dos 4 dias do Festival, ponto. Não quer dizer que a aldeia não conseguisse receber mais pessoas, mas não o faria nas condições que desejamos, e isso acabaria por afetar a própria vida na aldeia. Desta forma o máximo que pode acontecer é que os bilhetes esgotem, e quem não conseguir ir este ano tem sempre o próximo.

Com a evolução do festival há quem critique a organização pela subida gradual dos preços, quer ao nível dos bilhetes quer na venda das bebidas e do merchandising. Como é que vês estas críticas?

Luís Ferreira – Acho que é normal este tipo de situações, primeiro porque as pessoas têm cada vez menos poder de compra e depois porque partimos de um horizonte em que a entrada no festival era grátis e a cerveja era a 50 cêntimos. Entretanto várias coisas mudaram, e as pessoas por vezes fazem contas de merceeiro e esquecem-se que um festival não se faz dessa forma. Nós temos um orçamento que é feito com apenas 15% de financiamento externo, o que significa que 85% dos custos do Festival são pagos com receitas próprias. Além disso, as pessoas também se esquecem que fazer um festival envolve sempre um enorme risco – basta chover, ou haver outro acontecimento alheio à organização, e de repente tudo muda. Não acho que um passe geral a 35 euros para 4 dias de festival seja caro, em particular se tivermos em conta todos os passatempos e promoções que vamos fazendo. Quanto ao resto dos preços, também não acho que sejam caros quando comparados a outros festivais, até porque há que ter em conta que o Bons Sons se trata de um projeto de voluntários e sem fins lucrativos, em que as pessoas estão a oferecer o seu trabalho e a sua mão-de-obra para o sucesso do festival, sem ganharam nada com isso.

Enquanto diretor artístico do Bons Sons nestas 5 edições, tens alguma história mais caricata que queiras partilhar relacionada com a aldeia ou com o festival?

Há muitas destas pequenas histórias, lembro-me de uma que por acaso é bastante cómica e acaba por simbolizar um pouco o processo de habituação das pessoas da aldeia ao festival e à sua crescente dimensão. Foi em 2010, quando mudámos a zona do campismo, e houve um senhor da aldeia que ficou muito preocupado porque o campismo ficava ao pé da sua horta, onde tinha tudo e mais alguma coisa. Vai daí, ele chega a associação e diz que se algum dos festivaleiros lhe fosse comer as uvas que ele ia lá e dava um tiro no presidente (risos). A piada veio a seguir, porque nessa mesma edição houve um grupo de Trofa que veio ao festival e que acabou por ficar ao pé da dita horta. O senhor fez a tropa na Trofa, e ficou admiradíssimo como é que tinha na sua terra um grupo vindo de tão longe. Travou amizade com o grupo e de repente instalou-os todos no seu terreno, instalou-lhes gambiarras para terem luz, pôs-lhes uma mangueira para terem acesso a água potável e disse-lhes: “estão à vontade, comam os figos, comam tudo – só não me toquem nas uvas” (risos). E assim foi, ninguém tocou nas uvas, o senhor basicamente acabou por fazer um campismo improvisado no seu terreno, e ainda hoje é voluntário no Bons Sons.

Queres deixar alguma mensagem para os mais indecisos ou mesmo para aqueles que nunca ouviram falar do Bons Sons?

A mensagem é um bocado isto – permita-se a ir. Vá a descoberta de um projeto positivo, com uma mensagem positiva, deixe-se contagiar e leve essa mensagem para a vida. Largue os estigmas que tem sobre o festival, que o façam pensar que não é para si, e vá. Há sempre alguma coisa que o vai agarrar, há sempre algum projeto musical que vai ficar e acho que de uma forma ou de outra Cem Soldos vai fazer história. Acredito que nós não devemos ser apenas espectadores da nossa história, e que por isso temos de ir e fazer parte dela. Em suma – Venha viver a aldeia!

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