Tame Impala – ‘Currents’


 
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Os Tame Impala são um caso único de popularidade. Numa altura em que os revivals estão na moda, a banda australiana conseguiu pegar no rock psicadélico dos anos 60 e 70 e trazer este estilo para níveis de popularidade que não atingia desde que os Pink Floyd invadiram Pompeia ou desde que os Beatles deixaram crescer o cabelo e o bigode e lançaram o mítico Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band.

Assim, Kevin Parker conseguiu tornar-se um ídolo para uma geração que, mesmo não tendo vivido o nascer do rock mergulhado em cogumelos mágicos, arco-íris e caleidoscópios, abraçou-o como se este fosse seu. E a prova disso foram as inúmeras bandas que se seguiram a Tame Impala e que apareceram com uma sonoridade semelhante, bem como os inúmeros concertos e festivais que estas passaram a encher.

Mesmo antes de qualquer single, Currents já era um dos discos mais esperados do ano. Os primeiros oito minutos do álbum disponíveis na Internet deram pelo nome de “Let It Happen”, e vieram mostrar logo à partida que o terceiro trabalho da banda australiana poderia seguir caminhos bem diferentes dos anteriores. Os sintetizadores deixam as guitarras encostadas, a voz expande-se ainda mais e a produção ganha contornos maioritariamente electrónicos. Tanto que a música, ao longo dos seus oito minutos, acaba por ser um remix dela própria — com loops de sintetizadores a assumirem a responsabilidade de segurar a batida e vocoders a fazer lembrar os clássicos de Daft Punk. “Cause I’m A Man” e “Eventually” foram os singles que se seguiram e mesmo depois de já todos nos termos apercebido de qual a direcção tomada por Kevin, o cantor vem-nos dizer que grande parte da inspiração do álbum surgiu durante uma trip de cogumelos, tida enquanto conduzia por Los Angeles a ouvir Bee Gees. Foi assim que nasceu a vontade de fazer músicas para as pistas de dança.

E Currents é, efectivamente, um álbum para as pistas de dança. E é esse o primeiro ponto forte do disco. Fugindo ao cliché que dita que a música psicadélica é feita viajar, Kevin Parker consegue fazer um álbum que soa psicadélico e hipnotizante, mas que é feito, ao mesmo tempo, para dançar. “The Moment”, “The Less I Know The Better” e “Same Person, Same Old Mistakes” são  os melhores exemplos disso, construídos à volta de batidas pesadas e baixos certeiros que têm uma influência na canção maior do que qualquer outro elemento. O segundo ponto forte é, como já se tornou habitual nos seus trabalhos, a produção. Ao terceiro disco, o músico australiano já conseguiu criar uma sonoridade de assinatura. Desde as baterias distorcidas, ao baixo dançável e presente, até à própria voz, que, não sendo brilhante, assenta como uma luva nos instrumentais por ele criados, muito devido a todo o reverb e delay, que quando aplicados também a todos os outros instrumentos, ajudam a tornar as músicas numa massa sónica homogénea onde todos os seus componentes só fazem sentido quando ouvidos em conjunto.

“Yes I’m Changing” é provavelmente a melhor balada do disco (e dos últimos tempos) e o exemplo mais concreto para percebermos como as letras deste disco estão repletas de referências ao recente fim do namoro entre Kevin e Melody Prochet, a mulher por trás de Melody’s Echo Chamber. “Yes I’m changing / Yes I’m gone /  Yes I’m older / Yes I’m moving on / And if you don’t think it’s a crime you can come along, with me” ouve-se num dos versos da canção e é uma das maiores provas disso. Em “Eventually”, Kevin canta ainda “I know that I’ll be happier / And I know you will too / Eventually”. E sabe bem ver o vocalista a aproximar-se tanto de quem o ouve. Num álbum tão pessoal quanto este, onde o músico australiano compôs, tocou, gravou e produziu todas as faixas sozinho, o carácter pessoal das letras é um dos factores que o torna tão especial. Ouvir todas as suas faixas de seguida é embarcar numa viagem à mente colorida de Kevin Parker e a um período específico da sua vida, que foi transformado em canção depois de muita introspecção e de uma procura pela sua total compreensão — note-se, ainda, a maturidade das letras. Feito num período de transição na vida de Parker, Currents é também um disco de transição em Tame Impala. Depois de atingir a excelência  dentro do rock psicadélico, o novo disco é a primeira paragem no caminho em busca de novas sonoridades e experiências. Um álbum único feito por uma banda que, felizmente, não o vai repetir nunca mais.

Estamos em Agosto, vamos a pouco mais de meio do ano, mas o Currents já é um dos álbuns do ano. Porque passámos a conhecer Kevin Parker (e o seu perfeccionismo) ainda melhor, porque ele nos ofereceu 13 canções pelas quais não estávamos à espera e que souberam tão bem, e porque veio tirar quaisquer dúvidas que haviam — se é que ainda haviam — em relação aos Tame Impala. O Innerspeaker e o Lonerism não foram rasgos de genialidade únicos. Kevin veio mesmo para ficar, e depois de Currents já acreditamos que seja capaz de qualquer coisa. A curiosidade é muita mas, por enquanto, ainda falta ouvir muitas mais vezes aquele que é, até à data, o melhor trabalho dos australianos.

Tracklist Currents:

1. Let It Happen
2. Nangs
3. The Moment
4. Yes I’m Changing
5. Eventually
6. Gossip
7. The Less I Know the Better
8. Past Life
9. Disciples
10. Cause I’m A Man
11. Reality In Motion
12. Love/Paranoia
13. New Person, Same Old Mistakes

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