Teremos sempre Coura


Nas últimas semanas temos ouvido de tudo um pouco sobre o Vodafone Paredes de Coura. Os courenses da velha guarda continuam a dizer que o festival perdeu a essência; queixam-se da sobrelotação do espaço, das tendas deitadas ao rio e do cartaz desta edição — “um dos mais fracos de sempre”. No entanto, vemo-los de volta ao Minho, de Campingaz e Quechua na mão, arrastando-se pela infame rampa de acesso ao campismo. Pode parecer incoerente, mas o amor é isto mesmo: volta-se sempre a quem ofereceu o mundo e o primeiro sorriso, mesmo que nos prometa uma pedrada na nuca no regresso.

Enquanto Coura não deixar de ser Coura, continuaremos a voltar de cabeça aberta. Ano atrás de ano. Ratatat atrás de Ratatat.

Ambiente

Ambiente

Percebe-se que a coisa mudou assim que se põe pé junto à zona das tendas; são óbvias as marcas das noites mal dormidas nos rostos da interminável fila para os carregadores de telemóvel, e ainda mais óbvia é a falta de paciência para responder aos inúmeros apelos por um esfregão de aço, mesmo vindos da morena giraça — ainda que de idade dúbia — que pousa junto aos lavatórios. Felizmente, à noite a coisa descomplica-se. Ainda levamos com um ou outro adolescente ébrio, mas facilmente se finta a situação e se ganha melhor lugar no anfiteatro natural, até durante o concerto dos TV On The Radio — responsáveis pela grande enchente da primeira noite.

Mas o que são dores de cabeça matutinas e almoços de terceiro mundo quando se leva um tareão físico e psicológico dos Slowdive logo à chegada? Quarentões e em melhor forma do que o preso 44 quando fazia jogging, os shoegazers trouxeram o habitual arsenal de guitarras e ainda o técnico de frente dos The Cure e My Bloody Valentine para fazer tremer a terra, limpando qualquer memória do concerto sem cor dos Blood Red Shoes ou do som desastroso dos TV On The Radio (que até se esforçaram e mostraram garra capaz de incendiar a noite). Com a noite caída e “Dagger” a juntar-se ao alinhamento que havia sido apresentado no ano anterior, a envolvência dos festivaleiros é total. Gazeados por completo, milhares seguiram como puderam os braços do imparável Simon Scott na avalanche final que foi “Golden Hair”. Impossível não ficar boquiaberto. Mais tarde falamos com João Carvalho e ele próprio confirma a eficiência dos monstros britânicos: “isto foi ainda melhor do que no Primavera”.

Blood Red Shoes

Slowdive

TV On The Radio

Mantendo a tradição e a parceria com a Vodafone (que se estenderá à próxima edição), as tardes livres continuaram divididas entre o palco Jazz na Relva e as Music Sessions —  de onde se levam três concertos inolvidáveis: Peixe no calor da relva, Waxahatchee no monte do Crasto e Woods num quartel de bombeiros —, com a Tinta da China a estrear-se no certame à hora de almoço, ocupando o tempo morto entre banhos no ainda não aquecido Taboão. Se já gostávamos da editora, então agora abraçamo-la de corpo inteiro: as palavras de Matilde Campilho, Pedro Mexia, Carlos Vaz Marques e Rui Cardoso Martins assentam como uma luva sobre todo aquele verde da relva junto à encosta, ganhando um novo sentido quando intercaladas com a narração dos episódios que lhes deram origem, partam eles de uma fila para o festival Super Bock Super Rock ou de uma sala de tribunal na terriola. Uma ideia que importa transitar para o ano que vem.

Da segunda e terceira noites leva-se sem grandes dúvidas o melhor do festival. Como esperado, Father John Misty chegou ao primeiro serão lotado prontíssimo a quebrar corações e a irritar os que não o suportam. Atirou guitarras, soltou singles, mergulhou público adentro e mostrou (como já havia feito em Vila do Conde, no distante ano de 2012) porque é considerado um dos nomes mais importantes da música alternativa: quem compõe, escreve e atua assim só pode ser muito especial e digno merecedor de lugar cativo no Olimpo dos barbudos talentosos, onde se ouve Fleet Foxes já bem ao longe. Uma mensagem claramente endereçada aos que não visitaram Coura pelo “fraco cartaz”, enviada no mesmo dia pelos Pond e os Tame Impala. Onde os primeiros — aparentemente respeitados por ainda não passarem nas playlists dos Maristas e Salesianos —, mostraram genica e frescura (“Elvis’ Flaming Star” e “You Broke My Cool” deixam-nos atónitos e pedem concerto em nome próprio), os segundos maravilharam com profissionalismo. Completamente distantes do fenómeno Arctic Monkeys ou Black Keys, em tanto que a postura como a música fugiram às origens, os australianos enfrentam multidões ainda com embaraço, como quem não compreende o que mudou no seu som para passar espontaneamente do slot da hora de jantar para o de headliner. Gratos pelo carinho luso, agradecem até com encore não planeado, passando a marca dos oitenta minutos inicialmente definida e lançando de rajada “Nothing That Has Happened So Far Has Been Anything That We Could Control”, título mais do que adequado para encerrar uma noite de emoções há muito aguardada por betos, hipsters e melómanos no geral. Acabada a festa, a certeza era a mesma entre todos — foi incrível o que os rapazes ali fizeram.

Pond

Father John Misty

Father John Misty

Tame Impala

Perto do incrível — ainda que previsível nas espargatas e tiques roubados ao pai do soul — esteve também o sexagenário Charles Bradley. Acompanhado pelos auto-descritivos Extraordinaires no momento mais parent friendly do festival, distribuiu os sempre necessários clichês da paz e amor — com direito a beijinho atrás da orelha no meio do público e na tenda vip— a uma multidão rendida e deslumbrada pela história de vida made in canal TLC. Teria até sido protagonista do glorioso “momento da noite”, ou não tivessem aparecido os The War On Drugs a mostrar de que matéria são feitos os verdadeiros artistas. Pouco importunados pelo estatuto de cabeças de cartaz, montam e desmontam o material à entrada e saída de cena, fazendo mais do que lhes compete dentro e fora do seu domínio. Sem piruetas, Adam Granduciel voa entre passagens complexas de voz para guitarra e vai aguentando com firmeza o barco sem que nunca lhe caia o chapéu de capitão; são tipos como ele que continuam a fazer do solo uma cena fixe, vinte anos volvidos desde o fim da última grande guitar band a sério. E que bom é tê-los ali tão perto a despejar leads sem pudor ou preconceito.

Charles Bradley

The War On Drugs

Pelo mesmo palco onde os Iceage deram um dos concertos mais estranhos do ano (ficámos mesmo sem perceber se foi bom, terrível ou genial) passaram sem desiludir as menos sisudas Hinds e os experientes Merchandise. Repetentes e quase peritas na arte de acampar a poucos quilómetros da fronteira, as espanholas aproveitaram o contacto criado fora do recinto para agarrar a falange do público que as desconhecia e mais tarde compareceria em massa. Sem a cagança do rótulo de meninas queridas dos Libertines, distribuem abraços, fotografias e cd’s assinados por quem passa. Ao longo dos quatro dias torna-se tão comum vê-las na vila como de guitarra em punho na tenda da Vodafone.Fm, mas nem por isso deixamos de lhes dar crédito. Quando chega a hora H, as miúdas sabem o que fazem, seja de saia curta ou hoodie lamaçento. E que bom é sentir essa verdade nos quatro ou cinco acordes que sacodem repetidamente. Bem mais técnicos mostrar-se-iam os seus camaradas americanos. Revigorados desde o miserável concerto no Primavera Sound de 2013, os Merchandise trouxeram na bagagem After The End, registo ultrasónico — e o mais interessante até agora — com guitarras endiabradas e linhas vocais à la Moz disparadas pelo cérebro e motor Carson Cox e bem sustentadas pela cúmplice dupla Vassalotti e Brady, seguríssima em temas como “Little Killer” ou “Enemy”. Uma surpresa total para quem esperava noite morna.

Menos inspirada seria a participação portuguesa nesta edição do Vodafone Paredes de Coura; salvo o bálsamo chamado Holy Nothing, a trupe lusa caiu no erro crasso da repetição da matéria estudada: Tigerman serviu a mesma dose no Lux, os X-Wife fizeram o mesmo no Alive e os Peixe:Avião apareceram sem o mesmo brilho do que no festival Bons Sons. Numa paisagem musical cada vez mais democratizada e assente na premissa de rever o mesmo artista várias vezes por ano, os nossos grandes talentos não podem nem devem cair neste erro. Um tema trazido do baú ou um convidado menos óbvio — como Furtado trouxe na sua passagem pelo Meco no ano passado — fariam o número, mas nem disso se lembrou a nossa comitiva neste ano. Tuga em espírito, a Banda do Mar sofreu as consequências da sua própria ambição: às seis e meia da tarde seriam poucos os campistas dispostos a largar a sua tenda abrigada da chuva para rever uma banda que já havia rodado pelo menos dois dos cinco grandes festivais nacionais. O overbooking poderá funcionar do outro lado do atlântico, mas está visto que não resulta por estas bandas (a menos que se trate, claro, de uma digressão de pequenos clubes ou auditórios).

X-Wife

Com duas mil pessoas a abandonar mais cedo o recinto (terá sido a chuva ou o cartaz mediano da última noite? — aqui temos de dar crédito aos maledicentes do costume), parecia confirmar-se uma despedida morna. O trio Mallu, Marcelo e Fred partiu engessado e sem gás e não havia muito que Natalie Prass ou os Woods pudessem fazer com a doçura das guitarras surfadas. Desanimados, vamos como muitos confinando-nos à área de restauração ou zona de imprensa (onde passava o igualmente desmotivante Sporting- Paços de Ferreira) até que Sylvan Esso decidiu salvar o dia; caídos de pára-quedas num festival raramente virado para o synth-pop, Amelia Meath e Nicholas Sanborn são uma benção vinda não sabemos bem de onde — uma valente coça ao mau tempo; moves de anca sensuais e subs no máximo em “Coffee” são aspirina no seu estado mais puro. Temos de agradecer-lhes um dia destes. Ressuscitados chegamos a tempo de apanhar os amplificadores no prego em “Henry’s Cake”, novo tema dos Temples — competentes e iguais a si próprios, mas verdadeiros meninos de coro ao lado dos Fuzz, senhores da gigante hecatombe que se abateu sobre o palco secundário, fazendo lembrar a histórica passagem de And So I Watch You From Afar por Coura. Alimentada por bpm’s, a ficha tripla Segall, Moothart e Ubovich parece saída do Spinal Tap; os cabelos são longos, os volumes estão no onze e os solos de bateria gritam anos oitenta (mas com maior trapalhice pelo meio). Longe de prodigiosos, os Fuzz dão-nos o que precisamos: energia para um último mergulho sobre a multidão antes do encosto final às boxes, de onde veríamos ainda uma Lykke Li esforçada no português mas gélida na passagem pela maior parte dos temas e uns Ratatat escorregadios no próprio azeite a pedir bilhete de ida para o Sudoeste com os intragáveis solos bellamyzescos e teclados MIDI a fazer lembrar o Casio que temos guardado na arrecadação.

Woods

Temples

Lykke Li

Ratatat

Chutando para canto este desaire final, balançam-se as contas e o saldo acaba por ser inequivocamente igual ao do ano que passou: o rio, o crowdsurf, as pessoas bonitas e os concertos para contar aos netos continuam em Coura e é a Coura que se voltará em busca deles. O alinhamento pode já não ser o melhor entre os melhores do ano (sobretudo desde a chegada do Primavera Sound), mas o amor com que é preparado continua a ser o mesmo — e já lá vão vinte e três anos desta história. Não será certamente uma enchente que deitará por terra o que até aqui foi feito.

Quanto a nós, a premissa é e será sempre simples: enquanto Coura nos escolher ter, nós teremos sempre Coura.

Fotos: Nuno Diogo / Shifter