True Detective segunda temporada: ser mediano não chega


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Desde a sua estreia, a segunda temporada de True Detective tem sido um verdadeiro saco de pancada para os media de todo o mundo. Diria mesmo que 80% das críticas escritas sobre o final da série estavam prontas ainda antes do último episódio. E ainda que isto pudesse perfeitamente ser o início de um texto escrito em defesa das virtudes desta temporada, a verdade é que não o é. Com muita pena minha.

“Pena” é talvez a palavra que melhor ilustra o que penso sobre estes 8 episódios. Tenho mesmo pena. Já tínhamos falado do peso da herança que esta segunda temporada teria que carregar, mas foram 8 episódios em que os dedos de uma mão chegam para contar as vezes em podemos dizer que a série entusiasmou verdadeiramente o público. E isso é manifestamente pouco. Com a quantidade de conteúdo que existe à nossa disposição hoje em dia, torna-se difícil gostar de coisas tão medianas como esta tentativa de Nic Pizzolatto.

Mas vamos lá tentar ser mais simpáticos com a série. Guess what? Vince Vaughn não foi tão mau como se esperava. O problema é que houve alturas em que chegou a ser das coisas mais positivas e isso nunca pode ser um bom sinal. Também é verdade que toda a produção esteve outra vez à altura do que se exigia e não ficou a dever nada à primeira temporada. O que esta temporada deve (e muito) à primeira é conteúdo. Sim, porque pontas soltas e nomes dos quais se fala uma ou duas vezes não são sinónimos de uma boa trama. Só nos deixam com a sensação de que nos escapou qualquer coisa quando na verdade não havia nada de importante relacionado com aquilo. É como aquele amigo parvo que te pergunta todo entusiasmado “Epá, lembras-te daquela cena?” e tu respondes, recorrendo com esforço à memória “Hum, acho que sim. Porquê?”. No momento em que estás à espera de uma grandiosa revelação, o teu amigo responde “Por nada. Lembrei-me agora, por acaso”. A cara com que ficamos no final é mais ou menos a mesma.

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Mas retomemos o propósito do início do parágrafo anterior. O genérico desta temporada foi outra das coisas que escapou ao nível mediano de quase tudo o resto. Se formos justos, teremos que admitir que não houve, nos últimos anos, muitas séries com genéricos melhores que esta segunda temporada de True Detective. E mesmo o tão criticado elenco acabou por não ser das piores coisas. Rachel McAdams conseguiu quase sempre controlar a sua personagem, tirando um ou outro momento de overacting, quando tentava vestir demasiado o fato de “fucked up girl”. Colin Farrell não desiludiu os seus críticos. Ou seja, safou-se mas provou o que muitos lhe apontaram quando foi revelado o cast desta nova temporada. Está ainda muito longe de conseguir oferecer a uma personagem o suficiente para que esta se torne uma referência. E numa série como True Detective, isso é quase o mínimo exigido. Principalmente quando o argumento se baseia em 4 personagens mentalmente desequilibradas pelos seus passados problemáticos (“Procura-se originalidade”). Quanto a Taylor Kitsch, não podemos queixar-nos muito. Como terceira peça do puzzle policial, conseguiu a espaços ter o seu protagonismo, sem oscilar muito na sua interpretação de um personagem que podia ter sido explorado de forma diferente. E como já foi dito, temos que admitir que Vince Vaughn se superou. Muitos (guilty as charged) pensaram que o “grandão das comédias” ia borrar a pintura mas o que é certo é que até nem se safou nada mal. Terá sido suficiente para o que a sua personagem precisava? Pois. Também não. E como se tudo isso não bastasse, ainda foi tramado por um qualquer génio argumentista que pensou que era fixe ter uma cena inteira em que os fantasmas do passado o atormentam enquanto luta pela vida. Nunca visto.

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Ora, se um elenco fantástico com performances acima da média é capaz de esconder as falhas e a falta de sumo de um argumento, um elenco que corresponde ao que é pedido torna-se curto para uma série que exigia um bocadinho mais de tudo. A ideia não era má, mas não houve algo que conseguisse alavancar todo o seu potencial e por isso mesmo essa ideia não cresceu. Não passou disso mesmo. Uma ideia com uma execução suficiente, sem capacidade para agarrar devidamente quem deu oportunidade a esta nova temporada. Não nos deu tusa (em nenhuma das formas possíveis) e não hei-de ter sido o único que sentiu saudades até daquela nude scene da Alexandra Daddario.

Os nomes McConaughey e Harrelson foram propositadamente evitados até agora. É verdade que apareciam no genérico, com o título de produtores executivos, mas isso não chega. Acabam por personificar tudo o que não houve nesta segunda temporada. E que não pareça que estamos aqui a idolatrar a primeira. Até porque muitos dirão que o final dessa nos deu algumas razões de queixa. Podemos dizer que foi pretensioso, filosófico ou o que de pior que lhe queiramos chamar. A diferença é que tudo o que nos levou até ali valeu a pena. Mas, voltando a esta temporada, o que é que valeu a pena até este bom final? Porque este até foi um bom final. Atou (algumas) pontas soltas, resolveu alguns mistérios, clarificou uma ou outra coisa. Antes disso tivemos um tiroteio e uma orgia mas… E então?

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Correndo o risco que isto se torne repetitivo, sabíamos perfeitamente que a herança era pesada. Mesmo que Pizzolatto tentasse fazer qualquer coisa diferente, as comparações seriam inevitáveis. É a mesma série, com o mesmo nome, o mesmo criador. Mas, entre muitas outras coisas, mudou o realizador. Primeiro Justin Lin, depois outros. Um depois do outro, foram provando que Pizzolatto já tinha abdicado de demasiadas coisas e que não devia, de forma nenhuma, ter abdicado de Fukunaga (outro que aparecia como “produtor executivo”). Porquê? Porque se esta temporada não teve nada que a fizesse valer verdadeiramente a pena, ao quarto episódio da primeira temporada, Fukunaga convenceu-nos com isto.

Viesse o que viesse depois desta cena de 6 minutos sem cortes, teria que ser muito mau para que a série caísse do patamar onde se instalou confortavelmente.

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O que faltou a esta segunda temporada foi genialidade. Um, dois, três, quatro rasgos que nos fizessem soltar um “wow”. Roçou algo próximo disso com o tiroteio do episódio 4, mas por aí se ficou. Tentou que uma orgia trouxesse algo interessante, mas até isso ficou aquém. Os diálogos tiveram um ou dois bons momentos mas também tiveram uns quantos deslizes. As conversas no bar, ao som do tom melódico e introspectivo de Lera Lynn, tinham tudo para se tornar icónicas. Mas também não foi o caso. Pouco ou nada de muito relevante aconteceu naquela mesa. E o potencial estava lá. Havia material para isso. Mas o que fez falta, e que também nunca houve, foi um rumo. Esta segunda temporada de True Detective levou-nos demasiadas vezes para becos sem saída. Nem sempre é mau quando uma série nos faz sentir perdidos, mas convém que eventualmente nos traga de volta ao caminho certo ou que justifique essa viagem pelo desconhecido. E nesta viagem acabámos por perder demasiadas coisas pelo caminho. Haverá quem diga que uma dessas coisas foi tempo mas, pelo menos por uma última vez, vamos lá tentar ser simpáticos.

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