Um Hippie Geek no Japão


 

Eu sou do tempo em que…

Não, eu não sou do tempo de coisa nenhuma. Nós não somos do tempo, nem o tempo é nosso, o tempo é uma coisa e nós somos outra. Ou nós somos apenas tempo e nada mais.

Não sei. Isto é conversa de frito, de hippie, de geek, de hippie geek, de um maluco.

E talvez eu esteja mesmo a dar em louco, até porque estou perdido no Japão, lost in translation, lost in time e sem dúvida alguma perdido neste texto que acabei de começar.

Valha-me a tecnologia.

Valham-me os 95% de território Japonês coberto por 3G ou 4G, pontos G por todo o lado, o paraíso na terra.

A verdade é que os tempos mudam e as minhas forças também. Nas minhas outras viagens, tinha mais power para estar perdido no meio do nada, sem contactos com a minha casa, os meus amigos, a minha namorada.

Mas agora a história é diferente. Estou no Japão e tudo me é ainda mais estranho do que era na Argentina, em Moçambique ou até na Índia, pelo que de vez em quando tenho que parar para descansar e recarregar tanto as minhas baterias como as dos meus aparatos.

É que aqui, além de cada retrete ter 10 botões para escolhermos como melhor queremos limpar o traseiro, ninguém fala a minha língua ou sequer o Inglês. E estou a viajar de bicicleta (hippie), a dormir numa cama de rede (hippie), com pouco dinheiro (hippie), mas acompanhado por um iPhone e o computador no qual martelo estas palavras (geek).

E sou um hippie geek, mais do que um hippie chic ou um membro da hippieleaks.

Porque tudo é tão diferente por aqui, posso dizer que a relação dos Japoneses com a tecnologia é só a ponta do Monte Fuji no que toca às especificidades culturais. E para não me perder ou entrar em desespero, vou deixando as minhas impressões digitais, fazendo posts no Facebook, usando o Whatsapp para falar com os meus amigos, tirando fotografias e escrevendo textos que deixo no segredo dos deuses da DropBox, ouvindo música e até fazendo aquela coisa de acordar a meio da noite, eu na minha cama de rede social, a ser comido por mosquitos, sedento de mensagens e notificações.

O que seria de mim sem o Google Maps? Estaria ainda mais perdido do que estou.

O que seria de mim sem o Google Translate? Percebia ainda menos do que percebo e acreditem que é possível perceber menos do que nada.

Mas eu sou um hippie geek e com muito orgulho, ainda do tempo em que se dizia que as redes sociais matam as amizades, os iPhones estragam os momentos e outros clichés que tais.

Balelas, bullshit, Control Alt Delete.

A tecnologia é minha amiga e aquilo que mais me alegra é isto: quem manda nela sou eu e não o contrário. Chama-se a isso a serenidade: usar o que quer que seja até ao ponto que nós decidimos que queremos, assim me ensinou um filósofo no Chile há mais de 3 anos.

Por tudo isto e por muito mais surpresas que vos esperam, façam como eu e façam-se à estrada. Durmam em redes ou na rua, andem de bicicleta, levem pouco dinheiro, não tenham medo de ser felizes e muito menos de fazer os outros felizes, nem que seja durante o micro-segundo que eles irão dedicar aos conteúdos que vocês deixarão no grande esgoto que é a net. Arranjem um SIM card do país que escolherem. SIM! YES! YES YOU CAN!, e naveguem à vontade.

Até porque “viver não é preciso, navegar é preciso” e, no final de contas, como dizia o meu guru do Twitter, na vida como na net, somos todos zeros e uns.

 

Se gostaste deste texto do Luis Brito, dá uma vista de olhos no seu livro Alcatrão. 

Texto de Luís Brito

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