A cultura da lotaria: desvendando o lado negro das start-ups


 
O Shifter precisa de dinheiro para sobreviver.
Se achas importante o que fazemos, contribui aqui.

O primeiro ponto a se pensar bem quando se fala de startups brasileiras é que, até agora, ninguém sabe ao certo como ganhar dinheiro com elas“, escreve Pedro Schaffa, sócio-fundador da SBAC Advogados, empresa que no Brasil fornece soluções jurídicas para startups.

O Brasil não é específico: as observações de Schaffa aplicam-se a todas as latitudes que sofrem de startupismo agudo. Desvendar o lado negro desta forma de fazer as coisas é complicado: quem procure fazê-lo suscita imediatamente a ira de um grupo de entusiastas cujos argumentos se confundem com os discursos de fanáticos religiosos, distanciando-se das virtudes do debate expectáveis em pessoas educadas e com graus académicos, como são a maioria deles.

Sim: há casos de sucesso, há casos excelentes. Mas o movimento das startups não difere de outros movimentos anteriores na produção de um mar de insucessos. Pelo contrário: até ver, é das maiores produtoras de insucessos.

As histórias de insucesso “são varridas para debaixo do tapete como se fosse essencial fazê-los esquecer (e cujos responsáveis, curiosamente, agora são coach e palestrantes de auto ajuda)

Há milhares de investidores de primeira viagem que ganhariam muito mais aplicando seu dinheiro na poupança do que na lotaria das startups, adianta Schaffa.

Sim: as startups são um instrumento da cultura da lotaria que se está a tornar na nova norma social com a cumplicidade dos governantes e líderes económicos. Não deixa de ser curiosa a instituição da lotaria — a consagração dos mecanismos da sorte — a seguir a uma época em que valorizámos o mérito individual.

E por último, muito se ouve nesse mundo de startups que todos falham e que isso não é problema, que você não só pode, como deve quebrar uma, duas, três vezes até alcançar o sucesso. Só que é importante saber que nem sempre o fracasso é um degrau na escalada para o sucesso, às vezes ele é só mais uma passo em direção ao abismo. • Paulo Querido

Aprofundar

Choque de realidade: o lado negro das startups (Pedro Schaffa/Computer World): Como uma reação tardia à feroz (e por vezes cega) difusão das startups, cada vez mais se pergunta: qual o verdadeiro significado desse movimento? Por trás de tantos ganhos e vantagens que essas empresas sustentam em seus discursos, onde é que estão as perdas? Elas prosperam em um ambiente verdadeiramente sustentável? Será que lá na frente vamos poder dizer que entre mortos e feridos, salvaram-se todos?

 

O Shifter precisa de cerca de 1600 euros em contribuições mensais recorrentes para assegurar o salário aos seus 2 editores. O teu apoio é fundamental!