A friend is another self


A friend is another self

Já passaram quase dois meses desde que o Shifter foi kind enough para partilhar o meu texto sobre um Hippie Geek no Japão.

Passaram 29 anos desde que nasci, e tanto os meus quase 30 como os praticamente dois meses de viagem são os números de uma verdade agridoce: já não vou para novo.

E a Hippie Geekness é uma coisa que cansa, mais no lado Hippie do que no lado Geek. Obviamente.

Estou talvez too old para andar de bicicleta tantos dias e dormir numa cama de rede tantas noites, pelo que o corpo vai-se ressentindo, arrastando com ele a alma e o ânimo. É aqui que o Geek entra em acção e o Hippie fica em standby, pois passo mais tempo a puxar pelo meu iPhone do que a puxar pelas pernas, coisa que me envergonha na maior parte do mundo, mas aqui no Shifter pode ser motivo de orgulho.

Ontem foi um dia especial no Japão. Ou pelo menos especial para mim, que nunca tinha estado numa situação assim. A natureza desta ilha é mais selvagem do que um hoolingan, e, last night, o clima parecia uma anedota de humor negro: havia alerta vermelho por causa das chuvas e dos trovões que rasgaram o céu da noite sem parar, como se não bastasse havia um alerta amarelo por causa do tsunami que veio desde o terramoto do Chile, com apenas meio metro de altura, mas hey, continua a ser um tsunami e eu não estou habituado a estas coisas e, para acabar, há 3 vulcões em risco de actividade a cerca de 200 quilómetros de onde me encontro agora.

Talvez seja o Geek quem se preocupa: fui à net para saber mais sobre estas possíveis catástrofes, e todos sabemos como a nossa mãe binária é um terreno fértil para a agricultura do medo. Talvez o Hippie não se tivesse apoquentado tanto, talvez o Hippie nem queira saber das coisas porque para ele ignorance is bliss. Mas o Hippie Geek é um todo um corpo, o eu, e esse eu-corpo passou uma noite complicada que deu numa manhã pouco fácil.

Por causa do medo e do lifestyle, estou meio doente. Espirros e arrepios, aquelas merdas chatas. Doem-me as pernas e as costas. É que os Geeks passam muito tempo em frente às máquinas e isso também emperra o organismo, mas ainda assim fiz-me à estrada e lá encontrei o que tinha de ser encontrado. Um amigo, um outro Hippie Geek, e como diz o negrito acima deste texto, a friend is another self.

Tinha 21 anos e estava a fazer o mesmo que eu. Andava de bicicleta com uma tenda, um smartPhone e um problema qualquer na hardrive, sim, porque isto de viajar é para quem não é bom da cabeça, mas não ser bom da tola é mesmo do melhor que há.

Cruzámo-nos no topo de uma montanha. Ele vinha a suar em bica e eu também, pois ali era o momento em que ambos deixávamos de subir para começar a descer. Mas em vez de baixar pelas ravinas, contentes como putos em escorregas, ficámos a conversar um com o outro, pois claro, às vezes quando viajamos encontramo-nos a nós mesmos, como se tirássemos uma selfie e apenas um like bastasse para nos encher o ego.

Bastante inspirador, tanto que até me fiquei a sentir melhor: 21 anos, sozinho no Japão, ele que é Chinês mas vive em Paris, tipo de segunda geração emigrante, filho de donos de um restaurante. Gajo fixe e eu disse-lhe para ter cuidado com as costas, com a idade dele elas também não me doíam. Disse-me que até gostava da chuva, que por ele o tempo até podia ficar mais marado, e ainda por cima ele era tão Geek que usava óculos e estudava Física numa universidade qualquer lá da frança.

E antes de continuarmos, eu para sul e o meu puto para norte, eu a descer o que ele acabara de subir e vice-versa, combinámos viajar em conjunto para o ano que vem. Cada um na sua bicicleta, cada um com o seu telefone ou o seu mundo no bolso, ele com 22 e eu com 30 anos de vida, em part time passada na web.

Trocámos contactos: passei-lhe o meu iPhone, ele fez o search do seu próprio email e lá apareceu o seu perfil de Facebook, acompanhado das doces palavras “add as friend”. Na minha net, mas com os seus dedos, o meu novo melhor amigo encontrou-se. He found himself e é para isso que alguém se põe a viajar.

Texto de Luís Brito