Como António Ferreira aprendeu a ‘Respirar (Debaixo D’Água)’


António Ferreira Respirar (Debaixo D’Água)
 
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Recentemente fizemos-vos chegar a curta-metragem Respirar (Debaixo D’Água), realizada em 2000 por António Ferreira e que conquistou prémios quer lá fora quer cá dentro.

Dono da produtora Persona Non Grata Pictures, António Ferreira sentiu uma necessidade de facilitar o acesso das pessoas aos filmes e documentários realizados pela sua produtora tendo essa necessidade culminado num canal de YouTube no qual disponibiliza vários trabalhos na integra.

De mãos dadas pelo objectivo em comum que é o de promover uma aproximação entre as pessoas e as mais variadas formas de cultura, neste caso o cinema, o realizador de Coimbra acedeu ao nosso pedido para uma pequena entrevista em que quisemos saber um pouco mais sobre o filme que nos levou até ele e outros trabalhos realizados pelo mesmo.

 

Queríamos começar obviamente por saber um pouco sobre o seu percurso inicial para as pessoas que possam não conhecer tão bem o seu trabalho e, assim, perguntar-lhe como surgiu a oportunidade que o levaram a estrear-se com a curta Gel Fatal.

O Gel Fatal é um filme curricular de quando ainda estudava na ESTC. Como foi o meu trabalho de 2º ano que coincidiu com a minha ida para estudar em Berlim na DFFB, levei o negativo deste filme no bolso comigo e acabei por termina-lo já na escola em Berlim. Na altura, os filmes realizados na ESTC nem sequer chegavam a ser terminados.

Normalmente o material filmado em exercícios como este, passavam para os alunos de montagem que editavam o filme sem presença do realizador. Como consegui uma bolsa para ir estudar fora, tive este pretexto para levar o filme comigo e termina-lo.

É um filme simples, feito com todas as imposições que a ESTC tinha (por exemplo o argumento não era meu, era obrigado a escolher um argumento de um aluno dessa cadeira), tínhamos 2 latas de película 16mm para gastar e 2 dias de filmagem. Foi também uma oportunidade para conhecer pessoalmente o Adolfo Luxúria Canibal que eu admirava.

Já agora, tem a particularidade de ter como diretor de fotografia o músico David Fonseca, na altura meu colega de curso.

Depois de Gel Fatal em 1996, realizou ainda W.C. até chegarmos a este Respirar (Debaixo D’Água). Que mensagem queria passar com o filme? Um retrato da adolescência como nós gostamos de pensar que foi, ou algo mais?

O acto de criação é sempre difícil de explicar. Considero de alguma forma o Respirar o meu primeiro filme, pois pela primeira vez tive um orçamento e total liberdade para fazer o que quis. Não me lembro bem como surgiu a ideia.

Lembro-me que morava em Berlim na altura em que escrevi e creio que acabei por pescar nas minha memórias de adolescência alguns dos rituais que tínhamos – as saídas para o rio, os charros, os namoros, não que seja um filme auto-biográfico (que não é), mas tem muito ali da minha experiência, extrapolado para a narrativa que queria contar.

Talvez os dois temas que intencionalmente quis abordar foram a questão da violência familiar e o ritual de fumar ganzas, que na altura em que o filme saiu (2000) ainda não era um tema tabu.

O filme foi praticamente filmado na íntegra no bairro onde cresci e na escola onde estudei em Coimbra. Tive a felicidade de ser selecionado em Cannes o que abriu as portas dos festivais mundiais ao filme. Sorte de principiante, costumo dizer.

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Está “ao leme” da Persona Non Grata Pictures, produtora que disponibiliza alguns dos seus trabalhos no seu canal de YouTube para livre visionamento dos interessados. Sentiu que, face aos dias de hoje, esta é uma ferramenta ideal para chegar a uma maior proximidade com o público e criar o interesse, pelo visionamento de obras nacionais? Qual a importância das redes sociais e sites como o YouTube para fomentar essa tal proximidade pretendida, na sua opinião?

Nos últimos anos tudo mudou. A nova geração que ai vem tem hábitos de consumo completamente diferentes, vê um filme no telemóvel ou no iPad, sobretudo sente que tem um milhão de opções e é altamente seletiva. Vejo a minha filha de 8 anos que já nem liga a TV e fica-se pelo Netflix e YouTube, escolhendo os programas que quer assistir e quando entender.

Hoje a Internet permite-nos literalmente distribuir instantaneamente o nosso filme a nível mundial e isto é muito relevante, podendo ter um efeito democratizador na distribuição que é hoje muito concentrada. Claro que é preciso pensar como se tem receitas a partir disto, senão corremos o risco de trabalhar só por amor à camisola e não conseguir viver desta profissão, o que é grave, pois não teremos cinema (ou audiovisual) de qualidade se não tivermos profissionais totalmente dedicados ao metier.

No nosso caso, resolvemos nós próprios publicar abertamente as nossas obras nas redes sociais. São os filmes que já fizeram o percurso de festivais e/ou exibições comerciais, que não tinham limitações de direitos que o impedissem e assim, toda a gente pode disfrutar do nosso trabalho. Lembrando que alguns desses filmes receberam apoios públicos para serem produzidos e como tal, parece-nos justo que o povo português que indiretamente pagou estas obras através de impostos, tenha acesso a elas.

Aliás, observamos algumas coisas interessantes, muitos desses filmes (sobretudo os mais recentes) quando foram publicados na net, começamos a receber mais convites para exibições em mostras e cineclubes, o que contraria a ideia de que uma vez publicado na web se matam outros circuitos.

A Internet é uma grande oportunidade, é preciso criar mecanismos que permitam a quem veja pagar pouco e de forma simples para assistir cinema, ressarcindo os criadores, permitindo que os criativos se dediquem exclusivamente à criação e aos espectadores, um acesso simples e barato aos conteúdos. Este é o melhor combate à pirataria.

A repressão não trará qualquer resultado como se tem visto e o nível de preço que se pratica hoje em dia para alugar um filme ou comprar online, ainda é na minha opinião muito alto.

António, gostámos especialmente – além da curta que nos trouxe a esta conversa – de um seu outro trabalho, Deus Não Quis, uma crítica subtil à sociedade portuguesa e leveza de espírito (ironizada pelo acompanhamento da música “Laurindinha”) quando envia as suas gentes para a guerra. Esta história surgiu pela sua opinião pessoal sobre a guerra e/ou por alguma experiência que o tenha moldado a tal? Como surgiu?

Esta curta surgiu do trabalho com o guionista Miguel Rosa que veio com esta proposta (ele também escreveu outras duas produções nossas: Hepicat e o Voo da Papoila, sendo este último uma espécie de sequência do Deus Não Quis, retratando Portugal 30 anos após o fim da guerra colonial).

Quando começámos a trabalhar no projeto em 2006, a questão da guerra era bem presente, com a invasão criminosa do Iraque e apoio vergonhoso do governo de Durão Barroso. Tentavam vender-nos a ideia da inevitabilidade da guerra e ainda por cima baseada em mentiras. Quisemos falar sobre isso, que nenhuma guerra se justifica, que todos perdem.

Esta canção popular da “Laurindinha” era o mote perfeito, música que em tom alegre e popular, falava de partir para a guerra como quem vai ali comprar pão e já volta, que ele “há-de voltar”, são e salvo “a tempo de arranjar mulher”, “se Deus quiser” claro, outra das fatalidades lusitanas que é esperar sempre que a Virgem resolva tudo num acto milagroso.

E nós em Portugal, cantamos com toda a leveza esta ode à guerra e, quisemos desmontar isso, mostrar o lado B da canção apenas com recurso à letra e música desta, sem explicações, diálogos ou moralidades. Quem vai para guerra, sofre e muitas vezes não volta inteiro – Deus Não Quis. É dos trabalhos em quem tenho mais orgulho, viajou literalmente o mundo todo e ganhou imensos prémios. Tive várias vezes testemunhos na audiência muito emocionados, homens que tinham estado na guerra colonial e vinham falar comigo em lágrimas.

Acho que conseguimos tocar no ponto central, seja qual for a justificação que o poder tente dar para a guerra, quem sofre são sempre os peões, os homens e mulheres que são obrigados a pegar numa arma e matar. Isso deixa marcas para toda a vida.

Investiguei bastante sobre a realidade portuguesa na altura da guerra colonial, como o regime mentalizava as pessoas para a necessidade de “defender Portugal”, homens que com orgulho diziam que já tinham enviado “dois filhos para a guerra”. Tudo isto está no filme em pequenos detalhes –  as cartas, a faixa de “Honra e Glória” no baile de despedida, o dia da raça, mesmo o desfecho final da história foi inspirado num caso real.

Sabemos do gosto que tem pela leitura, em particular por José Saramago. Daí resultou Embargo, uma das suas longas-metragens e projectos mais recentes. Podemos esperar mais alguma obra inspirada na escrita do Nobel da literatura? Quais são os seus projectos para o futuro?

Do Nobel para já não há planos de adaptação, mas estou a trabalhar na adaptação do romance da Rosa Lobato de Faria A Trança de Inês, que conta a história de D. Pedro e Inês de Castro ao longo de três épocas totalmente distintas – no século XIV (o tempo em que eles viveram de verdade), no presente e num futuro próximo imaginário, onde sempre existe um Pedro e uma Inês que se veem impedidos de viver o seu amor.

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