Pedro Boucherie Mendes: “Em Portugal nunca se pode falar da realidade”


Pedro Boucherie entrevista shifter

O que são paixões e embirrações à portuguesa? Quem melhor o pode explicar é Pedro Boucherie Mendes, diretor dos canais temáticos da SIC a tempo inteiro e escritor nas horas vagas. Por Um Lado Sim, Por Outro Lado Não…, editado em Agosto, é o segundo livro de crónicas sobre as manias e costumes dos portugueses, resultado de semanas e meses de observação e compilação rigorosa dos pormenores que nos tornam especiais e, no limite, irritantes.

De visita a Carnaxide, onde combinamos conversar com o autor depois de conhecida a obra, esbarramos em dezenas de pivôs engravatados. O trajeto até ao ponto de encontro é intuitivo, mas distraímo-nos de segundo a segundo com o número de estagiários que por nós passa (pobres jovens, parecem fotocopiar a velocidade cruzeiro, como se a sua vida dependesse disso). Pouco depois, encontramos Boucherie. Aprumado e bem humorado, recebe-nos no seu gabinete – o mesmo onde se decidiu comprar Shark Tank e dar luz verde ao humor corrosivo de Rui Sinel de Cordes – e põe-nos à vontade. “Querem uma pastilha?”, pergunta enquanto se distrai com uma varinha mágica que jura ter recebido com o Correio da Manhã. De gravadores ligados segue o resto do protocolo. Entrevistar e ser entrevistado é com ele, está visto.

 

Este é o segundo livro que escreves de crónicas sobre os portugueses e as suas manias. O “tuga” continua a ser a maior das tuas neuroses?

Sim, mas evoluí ao longo do tempo. Agora acabo por falar mais do que me rodeia do que propriamente dos portugueses ou de Portugal. Como estou rodeado por portugueses e por Portugal, falo sobre eles. A minha neurose na verdade sou eu.

No Cemitério dos Prazeres aproveitavas as últimas linhas de cada crónica para salientar uma portugalidade. Este livro é uma versão ampliada dessas portugalidades?

O plano inicial era falar mais na linguagem, mas acabei por não ter vagar — que é diferente de tempo ou paciência — para levar o projeto em diante. Em Portugal, como em tantos outros tantos países, atribuímos um poder mágico à linguagem, e era essa alquimia que queria retratar neste livro. Depois percebi que o Por Um Lado Sim, Por Outro Lado Não… era uma espécie de segundo volume do que já tinha lançado; até queria que fosse o Cemitério dos Prazeres II, mas a editora achou que não era boa ideia.

Como é que chegas à compilação das taras e manias dos portugueses? Vais observando as pessoas nas finanças ou no café e depois registas no telemóvel? Ou sentas-te ao computador para relembrar o que vais vendo?

Vou enviando emails a mim próprio. Ainda ontem registei uma ideia nova, no caso de haver um terceiro volume. É sobre o “eu já desconfiava”— que nem sei de onde surgiu — e diz respeito à ideia de que nada surpreende as pessoas em Portugal. Nada nos surpreende. Nada! — “Ah eu já desconfiava que o «Lotopegui» ia jogar com três guarda-redes”; “eu já desconfiava que ias trazer uma fotógrafa para a entrevista assim que me mandaste a mensagem”. Tudo isto são frases que não significam rigorosamente nada mas que causam imensa frustração em quem quer partilhar coisas novas e fixes.

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Por que é que usamos tantas artimanhas linguísticas para nos salvaguardar quando falamos uns com os outros?

Porque temos pavor da realidade. Daí as redes sociais fazerem um match tão imediato connosco. A maior parte das nossas reações insanas tem a ver com situações reais; como agora no caso dos refugiados. Temos um receio imenso do que nos possa vir a acontecer no futuro.

Não deixa de ser estranho protegermo-nos tanto e depois sermos ultra verbais nas nossas opiniões…

Que são sempre opiniões salvaguardadas. Há sempre um plano de recuo; nunca estás verdadeiramente entre a espada e a parede, porque é sempre “só a tua opinião”.

E essa opinião é válida e verdadeira?

O que é que acaba por ser uma “opinião verdadeira”? Uma das grandes mudanças da minha vida foi ter percebido que escusava de ter opinião sobre as coisas, e tenho aliás cada vez menos opinião sobre elas. Às vezes tenho até de fingir que a tenho.

Acabas por ser então uma carta fora do baralho num país que tem opinião sobre tudo.

Sim, se quiseres pôr as coisas nesses termos, sou um pouco isso. Eu nem sequer digo — em minha defesa — que é errado ter opinião sobre tudo. Limito-me sim a constatar que temos opinião sobre tudo; sobre os Mirós, se devem ser expostos, se o Miró é um bom ou mau pintor…

Foram plataformas como o Facebook ou o Twitter que amplificaram esse fenómeno?

As redes sociais permitem-te estar em permanente jogo de ping-pong com outras pessoas. Há sempre de aparecer um tipo que acha que o Miró é muito bom, depois vem outro que diz que o Dalí é melhor e por último chega aquele que acha que os pintores portugueses é que são bons e que ninguém lhes liga nenhuma…

No teu caso, usas o Twitter de forma puramente recreativa?

Gosto muito do Twitter como fonte de informação, sobretudo porque não tem anúncios. Eu, que adoro Fórmula 1, sigo uns 120 sites de notícias só sobre a modalidade. Gosto mais dessa parte do que propriamente da interação e bate-boca com outras pessoas. Se tivesse de escolher entre o debate e as notícias, ficava só com as notícias.

O que é que achas que leva tanta gente a seguir-te? São as pessoas que ouvem as tuas críticas ácidas na televisão e vão à procura de mais?

Não sei bem. Acho que as pessoas que aparecem em televisão em principio despertam curiosidade. Há quem considere a minha opinião e me queira ler, há quem me deteste mas mesmo assim me queira ler. Sou como as farmácias, tenho um pouco de tudo.

Usas a crónica como um desabafo?

Não. A crónica é um tipo de texto que por norma tem um ponto e eu vou atrás dele. Aliás, só em Portugal é que há crónicas feitas por escritores que ninguém consegue ler…

Afastas-te desse estilo?

Sim. Acho que até podes odiar as minhas crónicas, mas consegues perceber sempre onde quero chegar. Vivemos num país em que os diretores de jornais acham que esses textos são importantes para as suas publicações. Se há alguém que está errado não são de certeza os cronistas.

Falando em cronistas, quem é que mais gostas de ler na imprensa nacional?

Gosto, por exemplo, do Alberto Gonçalves do Diário de Notícias e da Sábado. Na verdade, acho que a maior parte das pessoas que escreve em jornais com a fotografiazinha ao lado é francamente má. É muito fácil escrever em jornais portugueses, porque não há filtro nem exigência. Hoje em dia é tudo mais instantâneo, vivemos outro tempo. Os cronistas que acabam por maturar mais os textos têm estilos de que não gosto, por isso não há muitos que me interessem.

Depois de 4 obras publicadas, já te sentes de algum modo escritor?

Não, claro que não. Nem posso.

Mas estás a trabalhar para isso?

De modo algum. Para além de não ter tempo para me dedicar apenas e só à escrita, não tenho algo definido para dizer ao mundo. Os livros que publiquei até agora são exercícios, são cenas. No “Agora”, queria, por exemplo, que não houvesse nem sexo nem jornalistas. Logo aí, foi uma autolimitação que impus, e é nesse sentido que o considero um exercício. Queria também que tivesse referências socioculturais de uma geração, porque é algo que falta à literatura portuguesa. Pode ser, por mais absurdo que pareça, que daqui a 50 anos alguém pegue nele e pense: “Expo 98? O que é que foi isto?” e depois acabe por investigar e perceber que foi um momento importante para a cidade de Lisboa e para Portugal. A nossa literatura tem uma enorme ausência de contemporaneidade.

Por isso é que falas em autores como o Miguel Esteves Cardoso?

Sim, por exemplo. Se leres o último do Houellebecq, ele fala imenso da Frente Nacional e da política francesa. Cá, ninguém escreve sobre o PSD, o Portas ou o Passos. Em Portugal nunca se pode falar da realidade. Muito do que sabemos sobre os séculos XVII, XVIII ou XIX veio dos livros e isso agora é quase impossível de replicar. Nos livros do Dickens as personagens andavam mesmo pelas ruas de Londres, não por paisagens inventadas…

Pouco antes da chegada da Troika dizias que Portugal era um “país falhado”. Continuas a achar o mesmo?

Sim, claro. E não sou o único a dizê-lo. Com o tempo fui percebendo que Portugal ganha sempre, e que por isso ficamos iguais aos outros. Quem é pontual vai ficando mais desleixado com a idade… Se bem que hoje em dia as pessoas estejam mais pontuais do que já foram. Mas não tenho a certeza de que os defeitos do nosso país não sejam uma demonstração de sabedoria, por exemplo.

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Na altura previste que nos íamos “safar” sem grandes consequências.

E é verdade ou não? As taxas de juro baixaram, o preço do petróleo baixou e a prestação da casa é menor. As coisas melhoraram. Já sei que depois de dizer isto vão aparecer 20 e tal pessoas a desejar que morra, mas aí já me poupo. Cada um sabe de si e Deus sabe de todos, apesar de não acreditar Nele.

É possível amar um país falhado?

Tenho a certeza absoluta de que sim. Uma forma de notar que Portugal é um país falhado é perceber que estamos constantemente à procura de um culpado; precisamos sempre de um bode expiatório para tudo, mas é normal, até vinha na bíblia, não é? Só que os nossos problemas não se resolvem assim que se encontra o culpado. Normalmente há o culpado de “qualquer coisa”, mas assim que o encontramos, esquece-se essa “qualquer coisa”. O telhado está a pingar e a culpa é tua? O que é que acontece? Dou-te uma tareia e a coisa fica resolvida, mas entretanto continua a água a entrar em casa.

Não temes ser mal interpretado e ver as crónicas tomadas por crítica em vez de retrato, uma vez que os portugueses pouco gostam de ser catalogados?

Os portugueses não gostam de rótulos, a menos que sejam coisas boas. Se disseres que recebem bem, que são cordiais, aí já gostam de ser catalogados. E essa é uma das nossas características mais interessantes: por um lado sim, não gostamos de ser catalogados, por outro não, não nos importamos de ser catalogados quando é para dizer que somos acolhedores e nice. Qualquer passo que dês está num terreno movediço ou sólido, dependendo do ponto em que te encontras.

Mas têm percebido que é um retrato?

Sim, mas pensam sempre que é um retrato do vizinho do tio, da madrinha e nunca deles próprios.

E não se ofendem?

Não. O que mais me disseram depois de ler os livros foram coisas como: ” pois é, nunca há pasta de dentes nos hóteis”. Mas isso não tem nada a ver com eles, a culpa é sempre dos hóteis. Quem me lê e gosta pensa sempre que o mal são os outros. Nunca ninguém discordou do que escrevi.

Uma das subcategorias de que falas neste livro são os millennials. Vês as novas gerações a perpetuar os defeitos do português-tipo?

Acho que as novas gerações têm qualidades que as anteriores não tinham, mas têm também alguns defeitos, como a falta de paciência para o status quo, por exemplo. Mas também não sei se isso é bom ou se é mau.

Mas sentes a mudança?

Sinto, claro, mas acho que as novas gerações vão acabar mais parecidas às anteriores do que se pensa. Às tantas os millennials hão-de se fartar das visitas aos amigos que estão em Budapeste a fazer Erasmus. Quando tiverem filhos hão-de os levar para o Algarve ou para Tróia, tal como nós fazemos.

É mais fácil estudar os Millenials e perceber as tendências de consumo? Como é que se programa para eles?

Eu não programo, eu tento apanhar eyeballs que possam ser medidas, o que é muito diferente de programar — e serei o único gajo que diz a verdade sobre este assunto. O que eu faço é trabalhar para uma empresa que tem de remunerar o acionista, tal como faz o gajo da EDP ou da Galp. É-me indiferente se são millennials ou generation X’s, eu preciso é de eyeballs, porque não há nenhum media que funcione só para um target específico, a menos que seja um target broad, tipo as mulheres. Não há nenhuma marca de media global para jovens no mundo inteiro.

Estás a falar de media de grandes dimensões?

De todas as dimensões. Não há no Brasil, não há em França, não há em lado nenhum. Por duas razões: em primeiro lugar, os jovens não são sempre jovens e em segundo, os jovens não gostam de ser tratados como jovens. Há partes do dia em que os jovens têm 70 anos e há partes do dia em que têm 7, como quando a nossa mãe faz aquela sobremesa que nos lembra a infância ou nos apetece ver o Dragon Ball. Esta coisa do targeting tem implícita a ideia de que as mulheres são sempre femininas, de que os velhos são sempre velhos e de que os jovens são sempre jovens, e isso não é verdade. Foi um problema que tive com a FHM, e que em nada tem que ver com as gajas. Era preciso chegar ao tom certo, e nós chegámos. Tínhamos muito humor e suscitávamos o efeito “ei, ‘cum caraças!”. O que é que é este efeito? É quando tu vais ao Shifter, ou ao Observador ou à FHM e pensas para ti mesmo: “ei, ‘cum caraças, os gajos fizeram isto?”. E quando tu consegues gerar sempre esse efeito no teu consumidor, vais tê-lo sempre do teu lado. Esta é uma das razões pelas quais a revista Cristina funciona tão bem.

E isso aconteceu sempre com a FHM?

Aconteceu, mas como faço as coisas com grande naturalidade — isto sem puxar a brasa à minha sardinha — torna-se tudo óbvio para o resto das pessoas. Foi o que aconteceu com o Shark Tank na SIC Radical. “Então, as pessoas agora são mais empreendedoras, é óbvio que vai funcionar”. [ironiza] E eu sei que aquilo não era nada óbvio, porque fui eu que fiz. Fui eu que andei a foçar até descobrir aquele programa. E quem é que me dá os parabéns pelo meu trabalho? Ninguém. A minha vida profissional é como a anedota do aquário e do paneleiro, é tudo lógico no final, mas já depois de feito, claro.

Distancias-te em parte do trendy quando falas no Belcanto, no Gin ou no iPhone. É fácil não cair na tentação de experimentar as novas paixões dos portugueses?

Não, de todo. Não sou vulnerável a modas, não vou a sunsets, não bebo gin em copos gigantescos. Não é que seja contra, gosto é da minha cerveja, não preciso de um gin gigante para nada. E só tenho o novo iPhone porque mo ofereceram.

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Qual é a melhor invenção portuguesa de sempre?

Talvez o não se levar as coisas a sério. Nunca me vi confrontado com uma situação para a qual não houvesse solução. E acho que isso é comum a todos nós. Nunca acreditei a 100% que o prazo para as inscrições já tivesse acabado ou que o avião já estivesse lotado. Em Portugal há sempre um modo de dar a volta às coisas. E apesar de já ter achado que essa filosofia de vida estava errada, agora acho que é uma maneira acertada de se estar na vida. É como a história de nos definirmos como católicos não praticantes. Achamos que Deus salva, mas depois podemos andar a comer a mulher do vizinho e a faltar à missa…

E isso dá mais jeito do que o Multibanco ou a Via Verde?

Ou do que a lobotomia. Às vezes essa mania acaba por ser exasperante, mas a verdade é que consegue ser bastante útil.

É injusto quando nos descrevem lá fora como “Red Wine, Ronaldo and Sunshine”?

Eu acho mesmo que não somos vistos assim; palavra de honra que acho que não somos vistos assim.

Como é que somos vistos, então?

Acho que depende dos sítios, não é? Obviamente que há portugueses maus e portugueses bons, mas acho que a generalidade dos portugueses tem, aos olhos dos outros, uma nota positiva.

De 0 a 20 seríamos um…

Um 12, para aí. Nunca me senti diminuído ou aumentado por ser português. Nunca precisei de dizer que era espanhol ou mexicano…

Gostavas que os teus filhos tirassem o curso cá?

Gostava que os meus filhos ficassem em Portugal, sim. Gostava mesmo que contribuíssem para que Portugal venha a ser um país melhor.

E tens esperança que encontrem aqui emprego?

Sim, claro que sim. Acho que isto de ir lá para fora diz muito sobre os portugueses, que é “Portugal não é suficientemente bom para mim enquanto português, por isso vou para o estrangeiro”, mas depois gajos como o Boucherie não podem falar mal de Portugal. Há uma contradição total de ideias nas nossas cabeças. Por exemplo, eu fazia o ídolos e as pessoas criticavam-me imenso, mas nunca me conseguiram dizer — embora eu também nunca tenha perguntado — qual é que foi o gajo que avaliei mal. Só conseguiram dizer que era uma merda, mas nunca conseguiram dizer porque é que eu fui uma merda. É isto, Portugal é assim: não interessa o que é que um gajo fez de mal, há sempre de ser uma merda.

Essa é a embirração de que falas no Por Um Lado Sim?

Sim, e ainda um bocadinho mais do que isso, uma espécie de pacificação total com o facto de se viver com contradições no cérebro.

Continuas a ser o tipo que só gosta dos filhos, de cerejas, de fórmula 1, de tempo ameno e chocolate? 

Sim. Daí não retirava nada, mas também acho que não adicionava. Não há gostos recentes. [pensa] Ah, gosto também de dormir…

E é isso que levamos da vida?

As perguntas que tu me fazes… Não sei bem o que levamos da vida, mas se for só isso já não é mau, não é? [risos]

Fotos: Inês Monteiro/Shifter