Foals – ‘What Went Down’


Foals What Went Down capa
 
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Há discos que nos atravessam o corpo, que nos arrepiam a pele e que nos viciam como uma espécie de droga a que os ouvidos se habituam sem esforço. Há discos de Inverno, de Verão, discos que nos fazem sentir em casa. Sabemos, quando os ouvimos, que o coração acelera, os punhos cerram e os movimentos involuntários com os pés, as pernas e a cabeça são um fenómeno expectável.

Nesses discos há músicas. Poemas. Cartas de amor, cartas de raiva, mensagens para a cara metade, para nós próprios. Um universo impermeável a todo o mundo exterior. Uma caixa tão perfeita que nos conseguimos ouvir a pensar em pequenos episódios nossos por cima das letras, enquanto o sangue, supersónico, percorre as veias.

Os Foals sabem fazer discos. Sabem fazer músicas, poemas. E as cartas de amor que escrevem são remendos maiores do que aqueles que o Pedro Chagas Freitas alguma vez conseguirá fazer. Os britânicos, encabeçados pelo grego Yannis Philipakis são um caso sério de boa música. Se em Antidotes, o primeiro álbum, fomos surpreendidos pela frescura de faixas como “Cassius” ou “Olympic Airways”, Total Life Forever, o segundo, foi o jaw cracking punch que nos deixou durante semanas a cantar “Blue Blood”, “This Orient” e “Spanish Sahara”.

Recuperados e convencidos, em 2013, Holy Fire disparou sobre nós como uma metralhadora num duelo de pistolas. Fomos ao chão. Na cabeça ecoavam “Bad Habit” e My Number”. Atordoados mas vivos, “Inhaler” ressuscitou-nos e fomo-nos arrastando dali para fora, com dificuldade, na esperança que o que viesse a seguir fosse o melhor álbum de sempre do colectivo de Oxford.

E ele chegou. A 28 de Agosto multiplicou-se pelas prateleiras físicas e virtuais, depois de nos terem apresentado “What Went Down”, com toda a garra que um primeiro single exige. Nada neste tema é suave. Absolutamente nada. E não tem que ser. “I buried my heart in a hole in the ground” é um começo que chega para perceber que o caminho aqui mudou. Isto é, até levantarmos voo e ficarmos colados ao monitor quando a 21 de Julho, o segundo single, “Mountain At My Gates” (lançado antes da saída do disco) fez história visual. Alimentada por uma bassline consistente e uma bateria que sabe marcar passo, foi uma faixa bem encaixada para nos ajudar a digerir a tempestade do primeiro som.

Já com o álbum em escuta e depois dos contrastes, avançámos por “Birch Tree”, “Give It All” e “Albatross” sem nunca sentirmos um buraco ou lomba. Começamos a perceber que este não é um álbum extraordinário mas sim um álbum de alguém que já tem o seu som e está confortável em fazê-lo aparecer sem floreados. “Give It All” é a quarta faixa e o seu único propósito é fazer-nos sonhar. Um grito apertado de solidão e desejo traduzido na perfeição por Philipakis, enquanto a “Perth” dos Bon Iver nos vem à cabeça, sem saber bem porquê.

“Snake Oil” deixa-nos a pensar saber o que se segue no disco pela frase “It’s a wild wait to wait and it leads to no surprises / No surprise”. Mas não. “Night Swimmers” mergulha-nos logo em “Olympic Airways”. Não é brilhante, nem arriscado, mas também se pode jogar à defesa e ganhar.

Agora sim, estamos a chegar ao fim e só temos dois caminhos. Ou estamos a gostar de tudo e já não há volta a dar, ou estamos a pensar que alguém precisa de uma injecção de adrenalina na guitarra. E no peito. “London Thunder” é a paragem mais afastada do primeiro single. Mas que paragem esta. Não há chuva nem tempestade que nos faça levantar e sair. A balada do álbum não pede nada emprestado a outras como “Spanish Sahara” e é consistente q.b para não entrarmos em comparações.

A melhor faixa vem logo de seguida. “Lonely Hunter” é o hino de resistência e rebeldia dos britânicos no álbum. Nem muito forte nem muito macia. Tem a combinação perfeita entre risco e recompensa. Uma melodia perfeita, uma letra brilhante. Todas as discussões, toda a raiva acumulada, a impotência, tudo o que queremos dizer e fazer numa relação que está condenada, fechado numa metáfora de quatro minutos e meio.

“It’s a new day just in time for me to say I’m sorry
For all the things I said I didn’t mean
(…) In the deep blue see the whitecaps from the shore
But I can’t swim, and it keep me wanting more
Just remember love is a gun in your hand
Will I see you? I’ve got lost in in foreign lands
Tried to make it back, oh, I hoped you understand
Wait forever for love is a gun in your hand.”

Resta-nos “A Knife In The Ocean”, o fecho do álbum. Mais uma vez não há o factor surpresa, nem o choque, nem o que quer que seja. Mas é natural que não consigamos prestar atenção aos quase sete minutos que fazem a faixa. Seria preciso algo arriscado, alguma mudança repentina no registo, que ficamos à espera e nunca vem. Talvez uma tentativa majestosa de terminar, mas só nos apercebemos da presença de muita voz, bateria e guitarra que nos soam a um grande amontoado.

“What Went Down” é um álbum seguro. Puro e simples. Um álbum para ouvir mas nunca para discutir sobre hiperactividade. Um álbum que apesar de tudo funciona. Há discos assim. E os Foals, apesar de terem abandonado o pop e atirado o som para dentro dum polidor, continuam a soar a algo extraordinário. Este não é um álbum experimental, estranho, desviado. É sim um exemplo de como uma banda pode amadurecer e continuar a soar bem, sem estragos, sem espalhafato.

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