Futebol em realidade virtual? Afinal não é assim tão bom


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Um jogo de futebol pede minis, tremoços e a melhor televisão com a melhor qualidade de imagem. A SPORT TV faz um bom trabalho neste aspecto, permitindo-nos assistir à partida em HD e de diferentes ângulos do estádio, no conforto do nosso sofá. Isto se abdicarmos de viver o jogo no estádio, como qualquer fã que se preze, claro.

Caso decidamos ficar por casa ou partilhar o momento com um grupo de amigos em frente a uma televisão, não precisamos de escolher que parte do jogo queremos ver. O realizador SPORT TV decide por nós. Ora temos uma câmara a acompanhar todo o campo, ora um destaque no jogador que tem a bola, ora um pormenor das bancadas eufóricas. Um evento de futebol é algo demasiado rápido e frenético e sermos nós a criar a nossa própria transmissão televisiva pode tornar-se numa experiência muito pouco agradável.

Porque estamos com esta conversa? Este domingo, o clássico entre o Benfica e o FC Porto foi o primeiro jogo a nível mundial a ser transmitido em realidade virtual. Tratou-se de uma parceria entre a Samsung, a NOS, a SPORT TV e a Liga Portuguesa de Futebol Profissional, quatro entidades que já estão juntas há muito. O encontro entre os dois clubes, que decorreu no Estádio do Dragão, pôde ser visto através de óculos Samsung Gear VR que provavelmente não tinhas em casa ou experienciado, por convite, nos Cinemas NOS do Colombo ou no próprio estádio (sem convite, apenas na loja Samsung do Fórum Almada).

Ou seja, o Benfica-Porto em realidade virtual chegou a muito pouca gente. Longe de ser uma experiência aberta a todo o público.

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A Samsung associou-se à Immersive Media, uma empresa norte-americana que instalou 5 câmaras no Dragão, possibilitando ao utilizador a escolha diversos ângulos de transmissão do jogo, usufruindo da experiência imersiva 360º que a realidade virtual permite. Por outro lado, a NOS equipou o estádio com uma rede de fibra óptica resiliente de 1 Gbps e de uma rede 4G com 300 Mbps.

Mas afinal, como é a experiência?

O convite das meninas equipadas a rigor não era difícil de aceitar. Afinal, estávamos ali para viver essa “experiência única” de sentir o jogo como se estivéssemos no Estádio do Dragão. Por isso, todo aquele aparato montado num cantinho do espaço dos Cinemas NOS do Colombo acabaria por se esfumar quando estivéssemos imersos na experiência. Ou pelo menos isso era o que seria suposto. No meio de tamanha confusão, com câmaras, repórteres, famosos, crianças e (não sei se já vos falei) promotoras vestidas a rigor, era bom que isso fosse mesmo verdade.

Sentámo-nos e, de óculos postos, tentámos entrar no espírito. As indicações dadas não foram muito mais do que “podes olhar à tua volta e rodar a cadeira”. Estávamos atrás de uma das balizas, a mais próxima das claques portistas, e a verdade é que aquele é um ponto de vista a que dificilmente teríamos sem recorrer a esta tecnologia. Alguns segundos a olhar em redor aproveitando os 360º que a experiência oferece e, entretanto, já estávamos aborrecidos. Sentimos o ambiente de uma forma diferente, podemos rodar o nosso ângulo de visão, mas o efeito novidade dura pouco tempo.

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Explorando as restantes câmaras através de um botão que nos leva até ao menu de escolha, percebemos que a câmara que estaria por detrás da outra baliza não estava a funcionar. Restava a câmara da bancada e as câmaras posicionadas junto aos 2 bancos de suplentes. Engraçado acompanhar as movimentações nos bancos e sentir o ambiente na bancada. Mas se nesta altura estás a pensar que tudo isto acontece durante o jogo e ainda não se tocou nesse assunto, há uma razão para isso. É que esta brincadeira é muito bonita, mas se o que queres mesmo é ver o jogo esta não é, de todo, a melhor opção.

Na câmara da bancada é praticamente impossível distinguir a bola da mancha verde do relvado. Nas restantes, o campo de visão (leia-se visão da acção de jogo) é reduzido, por isso só podemos acompanhar o que se passar relativamente perto daquela zona. Podemos acompanhar um canto, no caso das câmaras atrás da baliza, ou qualquer outra acção que aconteça perto dos bancos, através das câmaras presentes nessa zona. Tudo o que se passar a mais de 5 ou 10 metros dali, torna-se impossível de acompanhar por falta de definição e alcance das câmaras. O atraso na transmissão é um problema mais ou menos comum tendo em conta que tudo isto se processa via streaming, por isso não vamos exigir demais da fibra óptica instalada para o efeito. Ou devemos? É que esta seria supostamente uma experiência única. E é-o, de facto. Só não consegue ser uma experiência fantástica nem aproximar-se disso. Ainda que não tenha estado disponível para toda a gente, e assumindo que todos gostaríamos de experimentar, apostaríamos que depois da experimentação poucos seriam os que trocavam uma cerveja fresca por mais uns minutos com os Gear VR na cabeça.

A Samsung não tem previsto fazer mais nenhuma transmissão de um jogo em realidade virtual, mas está empenhada em criar conteúdo noutras áreas como a moda e a música para justificar perante o consumidor a utilidade dos Gear VR. Este equipamento custa 220 euros, sendo que acresce o custo do telemóvel Galaxy S6 – cerca de 700 euros ou mais –, necessário para o uso dos óculos.

Relato da experiência: Miguel Mestre
Foto: Estela Silva/LUSA

Editado: 19h20 às 22 de Setembro de 2015

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