‘Irrational Man’, de Woody Allen, é um ensaio sobre o existencialismo


Irrational Man de Woody Allen ensaio sobre o existencialismo
 
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Foi numa sala vagamente despida mas com fãs de longa data dos trabalhos de Woody Allen que assistimos ao seu mais recente filme, Irrational Man, excepcionalmente interpretado por Joaquin Phoenix e a nova musa do realizador (e do cinema americano), a bela Emma Stone. Um filme como há muito Woody Allen não nos trazia, mas ainda assim longe da estética e elegância de uma comparação óbvia com Crimes and Misdemeanors, uma das melhores obras de Woody. Com as diferenças salientadas, Irrational Man é, ainda assim, rico em substância como há muito não se via no realizador e um dos melhores filmes do mesmo nos últimos anos.

Neste ensaio sobre o existencialismo (começando pelo próprio nome do filme, Irrational Man é um livro de 1958 do filósofo William Barrett sobre a temática), Joaquin Phoenix interpreta o papel de Abe Lucas, um autodestrutivo e sedutor professor de Filosofia. Phoenix sabe transportar como poucos o peso de uma actuação que se exige como tal, carregada de existência demonstrada pelo mesmo quando decide fazer um jogo da “roleta russa” em homenagem à “aleatoriedade da vida” romanceando assim a morte. Pelo meio de referências a Kant e Kierkegaard chega-nos o ponto de descoberta e Abe descobre um novo significado para a vida na possibilidade de, ao assassinar alguém, tornar o mundo melhor. Com isto o professor Abe Lucas livra-se do peso que carregava, encontra novo estímulo, reencontra-se sexualmente tendo um caso com Rita Richards (Parker Posey rouba todas as cenas onde entra) e aceita finalmente Jill (Emma Stone) na sua vida como mais do que amiga, Jill que até então tinha lutado pelo coração do seu professor de Filosofia sem sucesso.

Vivendo posteriormente com as consequências dos seus actos, da sua escolha e livre arbítrio, a segunda parte do filme traz-nos as reacções (Newton não podia estar mais em voga: “a toda acção há sempre uma reação oposta e de igual intensidade”) e maior ênfase à personagem de Emma Stone (em contraposição com a primeira parte onde Phoenix tinha monopolizado o ecrã com o seu “insustentável peso do ser”).

Numa oposição constante da “massa verbal” vs acção e sobretudo teoria vs prática o filme traz-nos um retrato da “banalidade do mal” numa referência a uma expressão de Hannah Arendt sobre um Adolf Eichmann (julgado por genocídio após a II Guerra Mundial), um indivíduo sem histórico de acções maldosas que age e as acaba por fazer por achar que é uma obrigação sua havendo portanto desvalorização dos princípios morais sobre um “dever ser”.

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Não deixam de ser inevitáveis também no final as comparações com o próprio realizador nova-iorquino que ao ter encontrado um novo significado para a vida procurou também ele, tal como a personagem de Joaquin procurava, um recomeço na Europa (“Vamos para Roma, Espanha… ou Londres” como é referido no filme; To Rome with Love, Vicky Cristina Barcelona e Cassandra’s Dream, respectivamente, realizados nessas cidades pelo realizador nos últimos anos.).

A vida não vem nos livros, nem no cinema, mas há mestres, como Fyodor Dostoievsky (é sobejamente conhecido o amor do realizador por literatura russa que recebe ao longo do filme várias referências também) e Woody Allen, que a relatam de forma inigualável. Dois analistas de excelência do que é a personalidade humana.

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