Diário da fronteira III


 
O Shifter precisa de dinheiro para sobreviver.
Se achas importante o que fazemos, contribui aqui.

O nosso fotojornalista João Porfírio prossegue a sua aventura junto dos refugiados que atravessam as fronteiras da Croácia em busca de uma vida melhor. Este é o terceiro diário da fronteira.

Saí do hotel pouco passava das 7h da manhã. A caminho de Bergana, a fronteira com a Eslovénia, a expectativa de encontrar algo catastrófico aumentava. Teria chovido torrencialmente a noite toda e ontem à tarde não havia tendas suficientes para as 1000 pessoas que estavam lá e estava marcada para durante a madrugada a chegada de mais 3000. Não há toldos, palas, tendas suficientes. O tecto para aquelas cerca de 4.000 pessoas foi o céu.

Cheguei ao campo (improvisado) de refugiados e o cenário era o pior possível. Fomos os primeiros jornalistas a chegar ao local. Choveu, como disse, torrencialmente na noite anterior e havia poças de água, lama, comida estragada, roupa ensopada… Mesmo com a quantidade de tendas que os voluntários lhes entregaram, ainda houve bastantes pessoas a dormir completamente à mercê da chuva torrencial e do frio.

Voltei a encontrar-me com Mged Shehabi, o rapaz que ontem me acompanhou no fim do dia de trabalho. Tem 9 anos, é sírio e tem mais dois irmãos, os dois mais novos que ele e estava com o pai e com a mãe! Uma família relativamente numerosa mas nada comparado com uma família que encontrei de 28 pessoas, que se juntou para vir  à procura do “sonho europeu”.

7h56 e algumas movimentações faziam os refugiados correrem rapidamente para as grades que separam a Croácia da Eslovénia. Havia autocarros. Dois autocarros. Quase 4000 refugiados. Ordens da polícia eslovena ditavam que a prioridade eram crianças, mulheres e famílias pequenas e saltavam as grades um a um. Um a um. A confusão instalou-se. Quando começaram a entrar nos autocarros os primeiros refugiados começou-se a ouvir “please, my family, please” e choro de desespero porque estavam a separar-se famílias ali. Mais em baixo é possível ver um desses casos – uma família de 5 pessoas: pai, mãe e 3 irmãos. No meio da confusão, passou a ser apenas a mãe, o pai, o irmão mais novo e o do meio. O mais velho ficou (entenda-se mais velho como tendo 20 anos). Só posso descrever a situação como: desumano.

A situação acalmou e aos poucos e poucos iam chegando mais autocarros e as pessoas iam saindo. Mas para onde? Todos os refugiados vão ser transportados da Croácia (onde me encontro) até a um campo de refugiados em Brezice, na Eslovénia. Nesse campo, eles não vão dormir. Vão unicamente ser registados e esse processo pode demorar cerca de 10 horas a ficar concluído. Sairão desse local e serão deixados (leia-se: deixados) na fronteira com a Hungria, onde vão ficar à espera até que o governo húngaro tome uma decisão. Recordo que a maior parte destes refugiados já passaram pela Hungria antes da Croácia, o que torna isto num “jogo do passa a culpa”.

Fui à Eslovénia esta tarde e não tive autorização de entrar no campo de refugiados.

A situação em Zagreb está mais calma e amanhã vou seguir para a fronteira com a Hungria, em direcção a Tovarnik.

diariodafronteiraiii_02

diariodafronteiraiii_03

diariodafronteiraiii_04

diariodafronteiraiii_05

diariodafronteiraiii_06

diariodafronteiraiii_07

diariodafronteiraiii_08

diariodafronteiraiii_09

diariodafronteiraiii_10

diariodafronteiraiii_11

diariodafronteiraiii_12

diariodafronteiraiii_13

diariodafronteiraiii_14

diariodafronteiraiii_15

diariodafronteiraiii_16

diariodafronteiraiii_17

diariodafronteiraiii_18

diariodafronteiraiii_19

diariodafronteiraiii_20

diariodafronteiraiii_21

diariodafronteiraiii_22

diariodafronteiraiii_23

diariodafronteiraiii_24

diariodafronteiraiii_25

diariodafronteiraiii_26

diariodafronteiraiii_27

diariodafronteiraiii_28

diariodafronteiraiii_29

diariodafronteiraiii_30

O Shifter precisa de cerca de 1600 euros em contribuições mensais recorrentes para assegurar o salário aos seus 2 editores. O teu apoio é fundamental!