Diário da fronteira IV


João Porfírio Diário da fronteira IV
 
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O Diário da Fronteira do fotojornalista João Porfírio, em directo da fronteira croata, continua. A página que hoje se escreve diz respeito a esta segunda-feira, dia 21.

Hoje tinha uma grande viagem para fazer. Queria ir até à fronteira da Croácia com a Hungria, porque sabia que tinha começado a ser construída uma barreira física com arame farpado. Além de ser um marco importante, queria registar a chegada dos refugiados e assistir àquele cenário. Quando cheguei ao local, fui informado pela polícia que os refugiados iam chegar de autocarro e seriam deixados na fronteira com a Hungria (depois de uma viagem de 5 horas).

Foram altamente revistados, até bebés de dois meses passavam no detector de metais. Depois, já no lado húngaro, voltavam a serem “enfiados” noutros autocarros em direção à fronteira da Áustria. Ou seja, a Hungria foi, como até aqui, só mais uma ponte para o seu destino final. A viagem de que falo até à Áustria fica a 8 horas da fronteira mais próxima.

Depois de 4 horas cheguei onde queria. Por volta das 16 horas começaram a chegar os 10 autocarros oriundos de Opatovac (Croácia), cheios de sírios e iraquianos. Um autocarro de cada vez chegava perto da fronteira para os descarregar e os restantes esperavam, altamente cercados por polícia, bem ao fundo. Quando chegou a vez do 10º autocarro ser descarregado, depois de 2h30 de ter chegado, contei 23 crianças ao colo…

O dia de hoje em relação aos restantes foi o mais calmo até agora, mas a situação mais marcante foi sem dúvida a construção do “muro” de arame farpado. Foi horrível assistir pessoalmente àquilo, parecia um filme… De terror.

Amanhã vou para a estação de comboios de Tovarnik, local obrigatório deste ciclo migratório.

Hoje enquanto falava com um senhor que acabara de sair do seu autocarro e soube da notícia que o exército que estava à sua frente, a montar um muro de arame farpado para o impedir de entrar naquele país, tinha autorização para disparar sobre os refugiados, disse-me: “saí de uma guerra para entrar noutra guerra, só quero ser feliz.”

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