Lana Del Rey – ‘Honeymoon’


 
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Não deixa de ter piada que só depois de ter tido sucesso global com um tema chamado “Summertime Sadness” é que Lana Del Rey abraça definitivamente o estado de espírito que é a tristeza de verão ao longo de um disco inteiro. Sim, os discos de Lana Del Rey sempre foram cosmeticamente trabalhados até à tristeza, mas aqui há um genuíno estado de espírito que atravessa e humedece todo o disco.

Comecemos pelo tema título. Para além de ser uma frase feita numa só palavra, um chavão, “Honeymoon” capta um estado de espírito belo, mas sempre propenso a uma dúvida ou incógnita: a viagem que está prestes a começar. Este excerto da letra: “We could cruise to the blues, Wilshire Boulevard if you choose, or whatever you want to do”, mostra que a fragilidade é uma musa na vontade de viver. E Lana convence-nos que a conhece bem.

Felizmente, este limbo emocional entre o que está para vir e a tristeza do presente é o melhor que já nos aconteceu na carreira de Lana Del Rey. O feeling aparece e reaparece ao longo do disco, com especial intensidade nos temas fortes: “High By The Beach”, como se uma estrela já não vivesse um sonho; “Music to Watch Boys To”, como se uma estrela tivesse de ver tudo à distância.

O disco cola na ideia de Los Angeles tristonha, anoitecida, cinzenta. Como se fosse um disco noir, as baladas (todos os temas, menos o último) aparecem repletas de orquestrações que relembram a era dourada do cinema norte-americano, sempre com espaço para a sombra a preto e branco que se esconde atrás de cada dia de sol.

A nível sónico, pequenos detalhes jazz enriquecem os temas pela forma perfeitamente embrulhada como se misturam nos sintetizadores mais contemporâneos e na voz de Lana. O registo vocal está repleto de harmonias e melodias que parecem soltas face a registos anteriores, mas muito mais encaixadas no que a sua música pode e deve ser.

Para acabar em grande, temos “Don’t Let Me Be Misunderstood”, a música mais pop e mais rádio do disco inteiro, que traz com ela um sentimento de grand finale. O que também é uma prova da viragem, ou de estabelecimento, que este disco traz à carreira de Lana Del Rey. Pelos vistos ela só não quer ser toda a tristeza que a vida glamorosa lhe trouxe, se calhar só não quer ser incompreendida.

Na capa podemos ver Lana sentada num autocarro que diz Starline Tours, quase como se o disco fosse um convite a conhecermos todos estes seus segredos que está disposta a mostrar.

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