10 projectos de hip hop que captaram a nossa atenção


 
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A Internet trouxe-nos mais oferta, mas também uma maior dispersão, e as playlists do nosso news feed nem sempre nos mostram os projectos mais interessantes. O pouco tempo que passamos entre Bandcamp, SoundCloud e YouTube não chega, nem de perto nem de longe, para acompanhar tudo o que se passa neste grande momento do hip hop fresco e emergente.

De nomes já conhecidos, (e de grandes regressos) até aos maiores fenómenos da era digital, estes são 10 projectos que captaram a nossa atenção e que queremos partilhar contigo.

Oddisee

Apesar do single “That’s Love” do último álbum The Good Fight de Oddisee já rodar em algumas rádios nacionais, há muito por desvendar da carreira de Oddisee. Um self made man no mundo do rap e que há muitos anos tem vindo a dar cartas como MC, mas sobretudo como produtor. Da lista de pérolas, destaque para o EP Odd Renditions em que reinterpreta temas de nomes como Metronomy e Bon Iver.

Sempre low-profile, preferiu a vida normal ao jogo do rap. Com eloquência e um olhar sóbrio sobre o mundo, expõe vários dilemas casuais sobre construções rítmicas elaboradas. The Good Fight é o álbum mais maduro e deixa-nos com curiosidade para os próximos passos do norte-americano de ascedência sudanesa, que já provou ter muito para dar ao hip hop.

Erick Arc Elliot

É possível traçar algumas parecenças entre a história de Erick Arc Elliot e a de Sam the Kid. Tal como a história que bem conhecemos do português, a do norte-americano começa e centra-se no quarto mágico onde escreve e compõe as suas produções. É 1/3 dos Flatbush Zombies (os outros 2/3 são Meech e Juice), mas não só. Acrescentando o seu percurso a solo é que percebemos a carreira que Architect tem construído. Às referências típicas de rapper junta diferentes nomes de outros estilos, e o resultado é um misto de delicadeza e assertividade que não nos deixa indiferentes.

Apesar da sua juventude, tem mostrado muito e muito bom trabalho. Desde a participação no supergrupo Clockwork Indigo, às mixtapes D.R.U.G.SBetter Off Dead dos Flatbush Zombies. Do seu trabalho em nome próprio, como produtor e MC, resultam mixtapes como Noir, Almost Remembered e Demos. Ou as inúmeras participações com rappers como Action Bronson, Joey Bada$$, etc.

É visto como um dos pilares actuais do movimento beast coast e até no vídeo se estreou com uma experiência pessoal e, atrevemo-nos a dizer, emocionante.

Keith Ape

Lembram-se do Gangnam Style? A história deste fenómeno não é muito diferente. Vem reforçar a ideia de que a música nos tempos da internet pode ser universal, que o idioma não tem de ser uma barreira e que mesmo só entendendo 30% do que se diz numa música de rap é possível sentir o feeling. É o próprio Keith Ape quem o diz em entrevista à Complex, “60% das visualizações do single “It G Ma” são de americanos” – do outro lado do mundo. 

Nem a acusação de plágio por parte de OG Maco, pela semelhança do refrão com o de “U Guessed It” foi barreira para que, no passado mês de Julho, a Complex tenha lançado um remix do “It G Ma”, com participação de Waka Flocka Flame, Dumbfoundead, Father e A$ap Ferg. E se por um lado é um ponto contra esta premissa do rap global, por outro lado permite-nos comparar e perceber que o idioma não faz assim tanta diferença. 

Pela força da primeira aparição e até pela diferença o rapper sul coreano é sem dúvida um nome que vale a pena acompanhar.

Isaiah Rashad

Se considerarmos a Top Dawg Entertainment como uma academia de formação de rappers de excelência, Isaiah Rashad terá de ser visto como próximo a dar o grande salto. Em 2013 assina pela TDE juntando-se assim aos Black Hippy (Kendrick Lamar, Schoolboy Q, Jay Rock e Ab-Soul) e SZA, e, no ano seguinte, lança o EP Cilvia Demo. Uma viagem pelo mundo de Isaiah num modo muito introspectivo e marcado pela constante apelação à nostalgia, recorrendo e recordando episódios marcantes na sua vida, não só importantes na sua “construção” como rapper mas essencialmente como pessoa. O aguardado álbum estará para breve.

Boogie

Ainda não há muito para dizer sobre Boogie, mas a sua ascensão meteórica faz com que seja presença obrigatória nesta lista. No espaço de um ano, e apenas com duas mixtapes, Thirst 48 e The Reach (entre mixtapes, ainda colaborou com SBKRTK, nome bem conhecido por estas bandas). O rapper vindo de Compton parece estar a conquistar o público norte-americano, tendo assinado neste mês de Agosto com a Interscope Records, editora que tem em portofólio nomes como Dr. Dre, Kendrick Lamar e Madonna. 

The Underachievers (Issa Gold & AK)

Com o primeiro single, “So Devilish”, lançado em Maio de 2012, este duo de Brooklyn rapidamente despertou a atenção da comunidade hip hop, tendo assinado no mesmo ano pela Brainfeeder, editora chefiada pelo aclamado Flying Lotus. Desde então já contam com duas mixtapes lançadas, Indigoism e Lords of Flatbush, para além do álbum Cella Door: Terminus at Exordium e do EP Clockwork Indigo, em conjunto com outro grupo de Brooklyn, os Flatbush Zombies.

Assumindo um estilo de rap psicandélico, constroem o seu espaço na fronteira entre o estilo mais festivo e mais “consciente”. Apesar de muito influenciados pelo consumo de drogas, a abordagem peculiar torna toda a experiência mais rica.

Para 25 de Setembro está preparado o lançamento do Evermoree: The Art Duality, um álbum dividido em “conscious” e “bangers”, num assumir da dualidade enquanto identidade. (Que não surpreende pela negativa quem já os acompanha).

Nerve

Este sacana nervoso é um dos maiores mistérios do hip hop português. Vindo de parte incerta, mostrou-se ao mundo em 2006 com o EP Promoção Barata, lançado pela Matarroa, com quem participou na mixtape Bota Sentido. As atenções foram-se centrando até ao lançamento do aguardado álbum Eu Não Das Palavras Troco A Ordem, em 2008. A legião de seguidores juntou-se, mas desde então todas as aparições de Nerve têm sabido a muito pouco.

Foi colaborando com alguns rappers enquanto durante alguns anos foi prometendo aos outros e a si mesmo lançar um novo álbum. Em 2014 lançou Palha, Paus e Pérolas, onde reuniu toda a produção entre 2005 e 2012 e voltou a acender a chama nos mais atentos. No mesmo ano lançou o EP de Água de Bongo e tornou sério o seu regresso. ‘Trabalho & Conhaque’ ou ‘A Vida Não Presta & Ninguém Merece a Tua Confiança’ é o nome do próximo álbum e o lançamento está marcado já para dia 28 de Setembro.

Com uma postura muito própria no game e uma abordagem muito própria ao rap, Nerve tem-nos habituado a  jogos de palavras complexos, num registo único, que se tem tornado cada vez carregado com o passar dos anos. Para o próximo álbum as expectativas estão altas, não que se possa exigir alguma coisa, mas porque é sempre entusiasmante poder ouvir um trabalho por que se esperou tanto tempo. 

SP Deville

Este mc/produtor é seguramente um dos nomes com mais história no hip hop português a figurar nesta lista. Em 2002 já fazia parte da banda sonora do filme O Crime do Padre Amaro, com Sam the Kid e Carlão e quem não se lembra daquele refrão? Depois seguiram-se os projectos Sp & Wilson e Makongo que lhe deram maior visibilidade no panorama nacional mas sem foco num género especifico. Saltitou entre hip hop, electrónica, kuduro, afro house e dancehall, sempre com um dos melhores flows e “feeling mais puro”. Desde 2010 que está a solo sob o nome de Deville, e em 2014 editou o primeiro trabalho com essa assinatura. IAMDEVILLE, um álbum de instrumentais e remisturas.

Esta entusiasmante metamorfose tornou-o num artista musicalmente muito rico e a idade amadureceu-lhe a escrita, como podemos comprovar no YouTube ou SoundCloud. O próprio assume que está mais velho e diferente, e que esta caminhada, apesar dos altos e baixos, deu-lhe a oportunidade de criar o novo mundo de SP Deville.

Depois de ter marcado gerações há uns anos atrás, está a chegar o momento do seu aguardado álbum a solo, SouQuemSou, que se espera, possa vir a sair até ao final do ano.

Alcool Club (Praso, Montana e Harte)

“Trabalho sujo alguém tem de o fazer”. Após alguns anos de presença dispersa no underground português, entre trabalhos a solo e colaborações do club ocasionais, Praso, Montana e Harte juntaram-se a sério no ano passado e a comunidade portuguesa não ficou indiferente. Vindos do sul do país, são a representação da pluralidade do hip hop em Portugal.

Num estilo naive, com beats carregados de groove e letras que valem pela naturalidade e pelo descomprometimento. Cospem muito daquilo que é o seu quotidiano, sem filtros, e com uma identidade que o título drunkstyle vai ficando curto para descrever. Foi no último álbum que assumiram uma postura mais séria mas que nem por isso descura a crueza que lhes é característica. 

Monsta

Considerado como parte do futuro dos Força Suprema, (se o Prodigio é o filho do rei, Monsta terá de ser o filho bastardo) com apenas 22 anos já é visto como um dos rappers com maior legião de fãs do rap luso. Contando com três mixtapes lançadas em nome próprio, Feito na Linha, D.O.P.E. e Problema, para além dos trabalhos lançados pela Dope Musik (juntamente com os restantes membros da família FS), já deixou a sua marca não só em território nacional mas também além fronteiras, nomeadamente nos PALOP. Sangue angolano corre-lhe nas veias e o seu “sotak” aliado às rimas fonéticas e duplos sentidos nas palavras, trazem consigo um sick flow, único no panorama hip hop nacional.

É uma lufada de ar fresco no rap cantando em português, sendo motivação, trabalho e ambição, as palavras chave na ascensão deste artista.

Texto: João Ribeiro, Marco Brandão e Alexandre Couto
Foto: Infamous Infanint/Tumblr

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