Disclosure – ‘Caracal’


Disclosure Caracal

Frescura, arrojo, qualidade. Se em 2013 nos perguntassem por Disclosure, estas seriam três qualidades inegáveis no duo. Não era sequer possível compará-los com outros nomes, ainda que quiséssemos. À data de Settle, os britânicos foram os Daft Punk de uma geração que apenas conheceu a versão plastificada dos franceses.

Howard e Guy Lawrence brotaram do enorme tremor subterrâneo do UK Garage, em 2010, e catapultaram-se muito para além daquilo que o movimento permitiu a si mesmo. Agora, com 21 e 24, conseguiram em cinco anos o tipo de fama estratosférica a que poucos chegam. E que ainda menos conseguem manter.

Se fecharmos um olho encontramos, a título de exemplo, nomes como Crookers, The Bloody Beetroots ou Duck Sauce lá longe, no cemitério dos duos electrónicos. Mas os Disclosure nunca foram cometas musicais. Não fazia parte da génese. E a razão era simples, o talento vai muito para além de encaixar samples e rodar discos.

Contudo, se estivermos atentos e soubermos ler os sinais, eles começam a aparecer. Os crowd pleasers vazios, as faixas com as novas coqueluches da música. Weeknd, Lorde, Miguel. Tudo o que em Settle tinha resultado, aqui soa a necessidade. Obrigação. “Nocturnal“, “Magnets” ou “Good Intentions” podem convencer o grande público, podem até apelar à transcendência do estilo, mas são três faixas desastrosas. Porque, pela primeira vez, os Lawrence deixaram-se eclipsar pelas participações.

Então Caracal é um mau disco? Não. Mas os britânicos soam a qualquer coisa como uma caricatura definhante daquilo que já foram.

Eis o primeiro problema do álbum: a procura de sangue novo para incluir nas músicas. Ao contrário do que tinha acontecido antes, com as participações dos até então desconhecidos Sam Smith, Jessie Ware ou Jamie Woon, em Caracal há uma adaptação clara do som às necessidades do estrelato. Não há química. Há apenas um torcer do som para encaixar melhor aos ouvidos dos convidados.

Ainda assim, há excepções. Em “Superego“, “Holding On” ou “Masterpiece” existe uma simbiose perfeita, e isso traduz-se imediatamente na liberdade que precisam para aplicar o ‘toque Disclosure’ à música. Nao, Gregory Porter e Jordan Rakei complementam o trabalho com vocals irrepreensíveis, deixando os Lawrence encarregues apenas de criar ritmo.

Seguiram-se faixas verdadeiramente brilhantes como “Echoes”, “Hourglass” ou “Molecules” (ainda que nesta última sintamos a falta de um acelerar de BPM’s). Já as duas primeiras são – apesar da falta de novidade na estrutura – extraordinárias. “Hourglass” surge como a única versão trashy/lo-fi dos irmãos no álbum, com o uso estrondoso do bass. Mas, estranhamente, resulta. Não seria preciso Shazam para percebermos de onde vinham. Isto é Disclosure.

Agora, a meio caminho de Caracal, começa a ficar claro que estamos muitíssimo longe de um álbum revivalista. Os Lawrence não trouxeram nada de outro planeta, nem de outra década. Actualidade é a palavra de ordem. Claro que a estrutura mudou, o som ganhou outros contornos, e, naturalmente, perderam o efeito “surpresa” de Settle. Mas percebe-se o esforço em trazer qualquer coisa nova.

Prestes a terminar estão “Moving Mountains” e “Afterthought“. Duas faixas unicamente de passagem, nada de extraordinário. “Omen“, “Jaded” e “Willing & Able” sim, são uma boa combinação. Pouco rotineiras no cardápio dos britânicos mas funcionais. Sam Smith é e será sempre a terceira peça da equação. Já Kwabs, em “Willing & Able” cumpre, num registo que lhe é familiar.

Chegados ao fim do disco, há algumas perguntas a fazer. A mais importante será certamente ‘e agora?’. Essa é uma questão que os Lawrence não conseguem ainda responder. Settle foi uma injecção demasiado injusta nas veias. A suavidade, a surpresa, o aperto que sentimos quando faixas como “When a Fire Starts To Burn”, “Voices” ou “January” começavam a ecoar nas colunas.

E por isso, Caracal será sempre o filho bastardo. Não é mau e não é bom. É, talvez, muito pouco para segurar os britânicos no patamar a que tiveram acesso com o primeiro trabalhoAquele em que rasgaram o peito e os ouvidos de gerações. Aquele em que nos lembraram que a música electrónica é feita por mais do que som cru.

Os Disclosure nunca serão os Daft Punk, os Modjo ou os Boards Of Canada. Nunca poderiam ser os Stardust, nem os Basement Jaxx ou os Chemical Brothers. Mas, por momentos, carregaram às costas a responsabilidade de serem o mais próximo que as novas gerações têm de tudo isso. E, agora que Caracal já se estabeleceu, talvez venhamos a perceber que o peso foi demasiado para ser suportado.