A greve de fome de Luaty Beirão persiste, Amnistia Internacional promove movimento #LiberdadeJá


greve de fome de Luaty Beirão

Luaty Beirão, um dos 15 activistas angolanos presos há 116 dias, está a completar hoje o 24º dia de greve de fome. A Amnistia Internacional lançou um movimento online de sensibilização para a grave situação de Luaty, através da hashtag #LiberdadeJá.

Luaty foi detido em Junho em Angola, juntamente com mais 14 activistas políticos, na sequência de uma acusação do Ministério Público de estarem a preparar um golpe de Estado contra o Presidente da República, José Eduardo dos Santos. Conhecido pelo seu nome artístico de Ikonoklasta, Luaty é activista no rap, mas também fora dele. É filho de João Beirão, falecido em 2006, uma figura do regime e um amigo muito próximo de Eduardo dos Santos. Com dupla nacionalidade angolana e portuguesa, Luaty Beirão tornou-se nos últimos anos numa das figuras mais marcantes da oposição social em Angola.

Os activistas presos negam a acusação do Ministério Público e reclamam pelo seu direito de esperar pelo julgamento em liberdade. Na verdade, a prisão de Luaty Beirão e dos restantes activistas é mesmo descrita como ilegal, agora que foi ultrapassado o prazo de três meses de prisão preventiva previstos para os crimes de que são acusados. Como sinal de protesto, Luaty iniciou uma greve de fome há 24 dias, colocando em risco a sua própria vida.

Situação muito grave

Como consequência, o estado de saúde do activista agravou-se. Luaty ficou desidratado, não conseguindo ingerir líquidos facilmente; perdeu pelo menos 10 quilos ao longo das últimas semanas; e a comunicação começa a ser um esforço. Face à gravidade do seu estado, foi transferido na última sexta-feira para o Hospital-Prisão de São Paulo. No sábado seguinte, vários familiares dirigiram-se para a porta do hospital-prisão, mas sem que lhes tenha sido permitida a entrada, como se conta na página do Facebook dedicada ao activista.

No entanto, após 4 horas de espera, a mãe e esposa conseguiram finalmente ver Luaty Beirão. “O Luaty está mais magro do que na quinta-feira, mas está lúcido e com uma melhor aparência do que há 2 dias atrás. Fala com maior firmeza e que não pretende parar com a greve de fome, se as autoridades não respeitarem o seu direito de aguardar o julgamento em liberdade”, comentaram os familiares, conforme reporta a mesma página de Facebook.

“Luaty está a receber acompanhamento médico no Hospital Prisão São Paulo em Luanda, mas recusa-se ser medicado enquanto estiver lúcido, afirmou ainda que as condições do estabelecimento são boas, assim como toda a equipa que o tem acompanhado”, lê-se na página. Todas as soluções que os médicos apresentarem terão de passar pela continuação da greve de fome. “O que Luaty Beirão quer é que ele e todos os activistas presos sejam libertados e fiquem a aguardar em casa o julgamento, seja ele justo ou injusto. A prisão foi ilícita e passou a ilegal, quando foram ultrapassados os 90 dias de prisão preventiva”, esclareceu Pedro Coquenão, músico e amigo de infância de Luaty, ao jornal Público.

#LiberdadeJá

Estas prisões e principalmente o estado crítico de Luaty desencadearam um amplo movimento de solidariedade, dentro e fora de Angola. Várias vigilias têm sido feitas, em Luanda, Lisboa e outros locais. Em Portugal, a Amnistia Internacional lançou o movimento #LiberdadeJá, que já colocou vários músicos e figuras públicas portuguesas a usarem os seus canais online para sensibilizarem os seus fãs para a gravidade da situação de Luaty e dos restantes activistas em Angola.

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“O Luaty tem a seu favor os sinais da mudança. O seu sonho por uma Angola sem a procuradoria do Presidente, mas ao invés com um sistema de justiça ao serviço de todos os angolanos, pode estar mais perto do que pensamos ou queremos admitir. O Luaty tem também a seu favor as redes sociais, a juventude cada vez mais consciente, mas sobretudo a sua extraordinária convicção. Eu sou mais estratégico, o Luaty é puro na sua forma de pensar e agir. Agora peço-te, Luaty, meu amigo, irmão e meu puto (porque tratas-me sempre por kota e este é o meu troco): lê esta mensagem e, lentamente, volta a comer…”, escreveu recentemente o jornalista e activista angolano Rafael Marques, no seu site. Rafael Marques, ele próprio, passou 14 dias sem comer quando esteve preso em 1999, por ter chamado ‘corrupto’ e ‘ditador’ a Eduardo dos Santos.

Fraca resposta do Governo português

Entretanto, o Ministério dos Negócios Estrangeiros português divulgou neste domingo um comunicado em que diz estar a acompanhar “com muita atenção” o caso de Luaty. Uma reacção que motivou uma nota editorial do jornal Público:

“O MNE português está a acompanhar o assunto ‘com muita atenção’, e só lhe fica bem dizê-lo, mas o agravamento do estado de saúde de Luaty Beirão exige alertas maiores. Ele é, como todos sabem, um dos 15 presos políticos que continuam encarcerados desde 20 de Junho por determinação do regime de Luanda. A acusação, que soará bizarra aos ouvidos mais desatentos, é a de intentarem um golpe de Estado contra o Presidente José Eduardo dos Santos, golpe esse que fariam com ‘barricadas’ e ‘desobediência civil’. A isto já várias personalidades, angolanas e outras, reagiram, exigindo a sua libertação. Mas como a detenção continua, Luaty Beirão (um conhecido rapper angolano) iniciou uma greve de fome e mantém-se firme em levá-la até ao fim. Se ele morrer, e esperemos que não, haverá um crime em Angola e não é golpe de Estado, mas um golpe do Estado contra um inocente. E os governantes terão as mãos manchadas com o seu sangue.”

Luaty Beirão vai manter a greve de fome. “Esta greve de fome tem uma razão: excesso de prisão preventiva. Eles podem aguardar pelo julgamento em casa, mas as autoridades não permitem violando mais uma vez a constituição”, alerta a página de Facebook que serve para acompanhar o caso do rapper angolano e que é seguida por quase 50 mil pessoas.