Já conheces Marlon James, o vencedor do Booker Prize 2015?


Marlon James
 
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Foi na terça-feira passada que Marlon James se tornou o primeiro jamaicano a vencer o prémio Booker, garantindo a distinção com um livro épico, que conta uma história muito dura de roer. Recheado de violência, uma característica recorrente na obra do autor, o livro conta a morte de Bob Marley em 1976. Só não a conta é de uma forma convencional.

Os mais de trinta narradores por onde vamos oscilando têm o poder de contar diferentes ângulos da mesma história, criando assim um organismo vivo onde percebemos que o maior símbolo da Jamaica continua por morrer, ou melhor, bem vivo. Os júris do Man Booker consideraram este título “extraordinário”, dizendo que é “muito excitante, violento e cheio de palavrões”. “Foi uma decisão unânime”, disseram.

A verdade é que mesmo a depender da violência, do gueto e da pobreza para maximizar o impacto da sua história, A Brief History of Seven Killings é um conjunto de intrigas sangrentas que se misturam com a política e a história recente da Jamaica. Esta forma crua de entrarmos na realidade é um traço de um jovem escritor que é capaz de nos retratar o que realmente se passa em Kingston.

Tudo isto nos mostrar como um escritor Jamaicano, principalmente este que saiu da ilha para ir viver na América e tentar a sua carreira literária, nos pode mostrar como certos assuntos ainda são um tabu tremendo. A homossexualidade do autor ainda seria muito polémica no seu país de origem, onde os battyboys – gíria patois para indivíduo gay – ainda são tratados com violência.

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Mas se tem este impacto fora das Caraíbas, esta é a prova que a literatura continua a ser uma forma de instaurar valores nacionais a um grande grupo de pessoas, contando uma história. A linguística genuína que a obra carrega, focando no patois das pessoas da terra, assim como o seu ritmo, mostra como não é preciso sacrificar quem somos para conseguirmos sucesso literário. A crítica aplaudiu a forma como usou a língua para definir com ainda mais clareza o livro.

Esta perspectiva trouxe-lhes muitos fãs. O The New York Times classificou o livro de “um remake do Tarantino, com uma banda sonora do Bob Marley e uma enredo escrito por Oliver Stone e William Faulkner”. Usou adjectivos felizes como “mítico, colossal, loucamente complexo”.

A verdade é que o Patois começou como uma língua de rua que agora tem uma conotação artística e de criação. É mais uma raíz da cultura jamaicana e mais uma forma de evidenciar o anti-colonialismo evidente de Marlon James. E isso é algo que a vitória de um prémio como o Man Booker torna claro.

Ainda por cima, duas das maiores livrarias da Jamaica, Sangster’s e a Kingston Bookshop, já estão a mudar os seus modelos de negócio para se focarem mais no kindle e nos tablets. Porquê? Porque numa economia onde não há liberdade financeira, os livros são uma das coisas que menos importam para as famílias.

Mas agora há um pouco de esperança. Porque só por nos ter feito pensar nisto, o trabalho de Marlon James valeu a pena. Contou-nos um lado violento, mas real, da Jamaica. Mostrou-nos que as melhores histórias do país até podem estar ligadas ao Bob Marley, mas continuam a acontecer pelos piores motivos. Mostrou-nos também que há uma verdade a ser contada para além das praias paradisíaca e dos cigarrinhos de marijuana.

Podem ler um excerto do livro aqui.

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