John Oliver fala sobre a crise de refugiados


John Oliver crise de refugiados

As notícias têm sido dominadas pela crise de refugiados na Europa – o continente que John Oliver classifica como “aquela coisa onde está a Bélgica”. Centenas de milhares de pessoas entram na Europa e outros 4 milhões já foram recebidos em países como a Turquia, Líbano e Jordânia.

Ao falarmos de tantas pessoas, é preciso pensar bem em como as descrevemos. David Cameron, actual primeiro-ministro do Reino Unido, descreve a situação como “um enxame de pessoas atravessa o mediterrâneo”. Oliver explica: “se eu ouvir que estão muitos gatinhos a vir na minha direcção, fico encantado. Mas se eu ouvir que um enxame de gatos se aproxima, vou agarrar uma shotgun e subir para um terreno elevado, porque não vou deixar que esses filhos da p*ta peludos me levem vivo”.

Alguns media americanos decidiram reduzir a população migrante a um estereótipo apenas: terroristas. Oliver mostra um clip da FOX News onde se lê no rodapé “Entrada de terroristas?” mas a jornalista afirma que não estão a dizer que estas pessoas são terroristas, mas que muitos podem ser muçulmanos. “Não podes afirmar que não estás a chamar terroristas a estas pessoas quando o rodapé diz ‘entrada de terroristas’. Se não estás a dizer que são terroristas, talvez devas mudar para algo mais fiel como ‘pessoas andam de comboio’ ou ‘alguns usam chapéus, outros nem por isso’”, brinca, acrescentando que,no processo de investigação, Oliver descobriu uma versão deste mesmo vídeo, datada de 2010, muito anterior à crise de refugiados. “Se se vai usar vídeos velhos e enganosos para tentar que as pessoas tenham medo de muçulmanos, porquê parar aí? Vai até ao fim e usa um clip de True Lies”, o que acabaria por ser apenas ligeiramente mais racista do que o clip original, conclui John Oliver.

A Europa ainda não estabeleceu um sistema eficiente para processar este fluxo de pessoas. Cada país tem um processo de inscrição diferente. Oliver mostra dois exemplos de formulários entregues a refugiados. Um é respectivo a um refugiado sírio na Grécia, que chegou a 5 de Setembro. É-lhe pedido que volte a 21 de Dezembro para se registar. Nestes meses de espera, não lhe é permitido trabalhar. Mas tal espera de meses não parece nada quando comparado com outro formulário, entregue a um refugiado iraquiano na Turquia, a quem é pedido que regresse a 19 de Fevereiro de 2020. São cinco anos de espera, sem trabalhar, mas, como diz John Oliver, “estas pessoas não podem estar 5 anos sem trabalhar; são refugiados, não a Renée Zellweger”.

Muitos estão a dirigir-se para a Alemanha, que os recebe de braços abertos. Ao contrário da Dinamarca e da Hungria. O presidente da câmara de Ásotthalom, na Hungria, divulgou um vídeo que se assemelha a um filme de acção com má produção. Com uma música trágica e homens de postura rígida, vemos uma carrinha branca a atravessar estradas de terra batida. Mas a Hungria faz questão de deixar a sua posição bem clara, para além deste vídeo, houve uma polémica com uma camerawoman húngara que pontapeou refugiados à medida que estes tentam entrar.

Também há casos como a Eslováquia, que se diz disponível para receber apenas cristãos, pois não têm nenhuma mesquita para receber muçulmanos. “Sabem que se podem construir mesquitas, certo? As mesquitas não ocorrem naturalmente devido à erosão ou a castores particularmente devotos. Os muçulmanos podem viver em qualquer outro sítio onde outros humanos podem viver”, afirma o comediante britânico.

Mas quando os refugiados não são excluídos com base nas suas crenças religiosas, são acusados de ser parasitas preguiçosos. Assistimos a um eurodeputado polaco que afirma que “se abolirmos todos os benefícios, as pessoas que não querem trabalhar e querem viver de benefícios, não vêm para a Polónia e para o resto da Europa. Pessoas que querem trabalhar são preciosas mas são enviadas de volta e só aceitamos aqueles que não querem trabalhar. É uma política ridícula que leva a uma invasão de lixo humano. Deixem-nos ser claros: lixo humano, que não quer trabalhar”. As expressões de agressividade e despeito são várias.

Mas a sua opinião, para além de ofensiva, está errada, pois estudos mostram que, eventualmente, o fluxo de imigrantes com salários mais baixos tende a aumentar os salários de toda a gente. E um paper publicado o ano passado por quatro economistas conclui que a imigração beneficia a população local em 19 dos 20 países industrializados que estudaram.

O termo “preguiçoso’’ por si só não se pode aplicar a refugiados, considerando a dificuldade desta travessia. “Eu sou um migrante preguiçoso: deixei o país de avião e as únicas coisas de que estava a fugir eram: nevoeiro, indiferença pública e um futuro quase certo como a tartaruga da entourage do príncipe Harry”, afirmou Oliver.

Mas a Europa nem precisa de acolher refugiados pelas boas razões, pode fazê-lo por motivos egoístas: está desesperadamente necessitada de cidadões novos. De acordo com as Nações Unidas, a mulher média precisa de ter 2,1 filhos para manter a população de um pais desenvolvido, mas na União Europeia todos os países estão abaixo da média. Em 2050, países como Portugal, Grécia e Alemanha, vão sofrer quedas acima dos 10% na sua população.

Nem todos os refugiados vão ser o impulso demográfico que o continente precisa, mas ao contrário de os países se preocuparem com as consequências de os receber, devem preocupar-se com as consequências de não os receber. No entanto, muita gente ainda tem medo: medo de que os migrantes levem o sistema social à falência, que muitos estudos mostram que não acontecerá; medo de que tenham um membro do ISIS entre eles, o que ainda não aconteceu…

Estas pessoas fogem de guerras civis e estagnação económica, cada história é única e muitas delas são comoventes. É o caso de Noujain Mustaffa, de 16 anos, que não consegue andar desde que nasceu e veio da Síria, numa travessia perigosa, à procura de uma vida melhor.

Noujain aprendeu a falar inglês sozinha através da telenovela americana Days Of Our Lives, e é um privilégio para qualquer país recebê-la. Em especial para Noujain Mustaffa, John Oliver reuniu personagens de Days of our Lives, dando-lhes um final mais feliz enquanto falam da situação da crise de refugiados.

A situação não é fácil, mas isso não é motivo para fazer menos mas sim para fazer mais. Desde  uma agilização nos processos de inscrição à fundação da Agência de Refugiados das Nações Unidas (The UN Refugee Agency).