Kurt Vile – ‘B’lieve I’m Goin Down’


Kurt Vile Blieve Im Goin Down
 
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Talvez. Talvez seja este o melhor álbum de Vile até à data. Talvez seja este o trabalho definitivo, agora que o corpo bateu nos 35 e o som refinou. Ou talvez sejamos nós, que embalados por uma acústica suavíssima, sonhamos fazer-nos à estrada pelos Estados Unidos dentro, enquanto rodamos os quase 60 minutos de música.

Não há kevlar suficiente para nos proteger daquilo que o norte americano trouxe. A escrita potencialmente autobiográfica, a guitarra como uma magnum .44 a sussurrar ao peito, o banjo como munição alternativa e um piano, oportuno, que nos embebeda sem demora. É Vile quem nos leva no carro, deserto fora, enquanto os olhos vão fugindo incessantemente para o banco de trás.

Smoke Ring For My Halo e Wakin On A Pretty Daze são tremendos companheiros de viagem mas, desta feita, os três lugares que restam na traseira são ocupados pelas inegáveis influências de Johnny Cash, Bob Dylan ou Bruce Springsteen.

Não há muito mais a comparar aqui, isto é rock. Soft rock. Folk, que seja. Uma cura que oscila entre o medo e o querer mais. Não deixa, contudo, de ser um pedaço estranho de revivalismo, alienação e auto-consciência que nos incendeia inexplicavelmente o coração. Simples. Agora é arrancar disco fora até à porta de entrada na mente de Vile, que acontece logo no começo do álbum:

I woke up this morning
Didn’t recognize the man in the mirror
Then I laughed and I said, “Oh silly me, that’s just me” “Pretty Pimpin”.

Preparados mas ainda a flutuar na primeira melodia, embatemos em “I’m An Outlaw”, para ficarmos a conhecer o lado socialmente desconfortável do músico. Aquele que prefere a solidão, mesmo quando o risco de implodir o vai desfazendo silenciosamente.

Daqui aceleramos por “Dust Bunnies” e “That’s Life, tho (almost hate to say)”, dois pedaços complementares onde couberam a saudade, o amor e as consequências inevitáveis de estar vivo. “Wheelhouse” e “Life Like This” são uma mistura diferente. A primeira, uma visão empática sobre aqueles que procuram desesperadamente o conforto, a segunda, um retalho biográfico de Vile acompanhado a piano no fundo e um ritmo suave q.b.

Segue-se “All In A Daze Work”, a primeira de duas faixas totalmente embebidas na “Redemption Day” de Johnny Cash, apesar da diferença de conteúdo. Mais uma vez, simples. Guitarra e voz para remendar o que for preciso. “Lost My Head there” chega de seguida, vestida de bateria, piano e uma ideia sobre o quanto, por vezes, perder a cabeça nos pode fazer bem.

Por esta altura é-nos claro: B’lieve I’m Goin Down é uma aproximação distorcida ao mundo de Kurt Vile. Uma ode moderadamente melancólica. A sua própria versão de “Being John Malkovich” que nos arrasta pelas suas experiências, enquanto nos ensina a sobreviver.

Descansados e sem sobressaltos arrancamos em direcção a “Stand Inside”, a segunda faixa com o suave carimbo de Cash. Talvez a mais hipnotizante de todo o disco. Um dedilhar macio que nos embala relutantemente até “Bad Omens”, a música mais curta do álbum e a única sem voz.

Por último, “Kidding Around” e “Wild Imagination” fecham oficialmente o capítulo. Sem drama, seguras, no estilo habitual do homem de Filadélfia.

Talvez seja demasiado precipitado considerar B’lieve I’m Goin Down o melhor álbum de Vile até hoje. É impossível esquecer tudo o que Wakin On A Pretty Daze nos deu e nada aqui se aproximou do genial pedaço de música que é “Wakin On A Pretty Day“. Mas, é também impossível afastá-lo já desse patamar.

Vile criou um álbum que requer maturação e ouvidos atentos. A música é diferente, sim, mas também ele está diferente. Mais experimental, melhor na escrita, mais introspectivo. A estranheza deu lugar ao conforto, aqui. Assim, talvez seja este, então, o melhor álbum de Vile até à data. E é por isso que talvez é a melhor palavra para descrever o disco. Um disco que nos rasga de incertezas mas que, com o tempo, poderá entranhar-se nas veias como poucos, dentro do género, o têm feito.

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