A incrível crítica do New York Times ao novo livro de Patti Smith


Quem está interessado em literatura, já deve ter dado de caras com o nome de Michiko Kakutani. A crítica do New York Times consegue despertar rancores nos mais variados escritores, não pára por nada quando é altura de dizer tudo acerca de um livro. Salman Rushdie descreveu-a como “uma mulher estranha que sente necessidade de ir elogiando enquanto espanca” e Normal Mailer acusou-a de “lançar críticas duas semanas antes do lançamento de um livro só para destroçar as possíveis vendas”.

Esta curta introdução serve para mostrar que esta mulher digna de reparos tão ferozes como “ela só está no New York Times porque ninguém a consegue despedir”, deve ter mesmo gostado do novo livro de Patti Smith. É que a crítica escrita por “Michi” é um grande elogio tecido em forma de crítica.

Na primeira frase diz que M Train é dolorosamente bom. Sobretudo pelo quanto Patti já sofreu. O irmão faleceu um mês depois do marido, ambos de forma súbita. Isto depois de ter perdido o melhor amigo e companheiro de aventuras, Robert Mapplethorpe. Patti Smith escreve t0da a dor de forma belíssima: “the things I touched were living”.

Michiko parece ter-se apaixonado pelas metáforas e pelas descrições encantadoras da famosa cantora, a forma como segura a melancolia é enrolada na sua mão “as if it were a small planet, enquanto o seu gato é “the color of the pyramids. É fácil compreender porque alguém se apaixona por uma prosa assim. Elogia também os temas e tópicos recorrentes da obra como as cadeiras (as do seu pai, do escritor Roberto Bolaño ou de ornamentado plástico branco que encontra num vislumbre em Tânger), como os cafés (em Greenwich Village, em Berlim, em todo o lado que visita). Michiko faz-no sentir que é esta arrumação literária e respectiva carga sentimental que tornam este num grande livro.

É o saudosismo que preenche esta obra de uma energia negra. O casaco preferido? Perdido. O seu Murakami favorito? Esquecido numa casa de banho de aeroporto. A máquina fotográfica que mais gostava? Numa praia qualquer. E o seu café de bairro? Já fechou. Se o Just Kids (primeiro livro de Patti Smith e um tremendo sucesso) era sobre um artista em crescimento e a descoberta do mundo pelos seus olhos, M Train é um olhar para o passado.

“I’m going to remember everything”, pensa Patti, “and then I’m going to write it all down. An aria to a coat. A requiem for a cafe”. Um livro que Michiko considerou uma obra de arte. O livro foi lançado hoje internacionalmente. Vamos aguardar que chegue a Portugal. Ou nem esperamos pela tradução?