Miguel Januário: “Certas coisas só devem ser ditas se forem ilegais”


Miguel Januário
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Miguel Januário é o artista português por detrás da balaclava no projecto ±MAISMENOS±, um fenómeno especial na arte portuguesa, tanto pelo seu contexto urbano, como pela sua posição politizada e sempre muito interventiva. Depois de ter deixado uma série de verdades à vista de todos, volta para uma nova exposição individual, de novo na galeria Underdogs.

O que começou como um culto às suas frases, algumas delas repetidas até ao infinito pelo Instagram, culminou numa exposição em nome próprio na galeria Underdogs. Agora, Miguel Januário prepara-se para seu o difícil segundo show.

Felizmente, para ele e para nós, parece estar cada vez mais seguro do caminho que decidiu percorrer. Um artista na sua própria direcção e que tem feito implodir muitas das nossas desolações acerca do mundo moderno no seu corpo de trabalho. Fez tudo isso de uma forma crítica, satírica e mordaz, à sua maneira e sem medo das consequências.

E se isso bastaria para estarmos muito entusiasmados para esta exposição ±O PRINCÍPIO DO FIM±, agora esperamos tudo isso e ainda mais génio. Como tem sido habitual. Vejam o teaser e fiquem com a nossa entrevista exclusiva ao artista, onde descobrimos o que pensa da street art e dos seus dilemas, da viralidade da arte e do espetáculo que é o mercado.

 

Começaste no graffiti, tal como outros portugueses desta nova geração. Que importância teve no teu trabalho? 

Teve a importância que deve ter para qualquer pessoa que começa no graffiti. A relação que cria com a rua, a forma como permite ver a rua como um suporte. É o espaço público e a forma como começas a reclamá-lo de uma forma quase inconsciente.

Voltaste para o Porto, de onde és natural. Achas que a relação da tua obra com a tua cidade justifica desde cedo algum do caráter interventivo e popular a que assistimos? 

Neste projecto o Porto importa mais por ter sido o sítio onde o projecto nasceu, do que por eu ter nascido lá. Acho que a relação com a cidade de Lisboa, foi, e é, muito relevante, porque é o centro de decisão, é onde as coisas acontecem no nosso país. O Porto serve mais como uma base do que só como um suporte.

Até as tuas intervenções pessoais são politizadas. Sentes que deves cultivar esta característica na tua obra? 

Faz sentido no projecto que assim seja. É um projecto que sempre se posicionou como um observador dos moldes políticos, sociais, económicos, portanto sim. Faz parte da minha pessoa e é uma grande base para o meu projecto.

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A tua primeira exposição a solo na Underdogs foi um sucesso. Quais são os teus desafios na conceptualização e criação de um novo show em nome próprio? 

Que tenha mais maturidade, esse é o principal objectivo. Gostava que cumprisse com a experiência que pretendo dar ao público, de as fazer refletir sobre o meu trabalho, o que tento sempre, quer seja na rua ou na galeria. Apesar de tudo, o objectivo é ganhar maturidade, um crescimento.

Os preços ficam maiores, as galerias também. Qual é a tua opinião acerca da importância da Street Art no mercado da arte contemporânea?

Há trabalho que é da rua, nasce na rua e vive ali. Mas há uma alternativa natural. Primeiro que tudo, a Street Art é um dos maiores movimentos artísticos contemporâneos e apesar de nascer na rua, deve ter uma continuidade e isso não cabe no mercado, mas sim no registo. É importante que se preserve o trabalho e para isso são precisas as instituições. Dou-te um exemplo prático, o caixão que eu fiz foi para uma performance e depois disso teve dois anos arrumado. Houve oportunidade de o expor na Underdogs e um museu comprou-o. Senão estava no armazém. O registo dessa peça está feito num vídeo, mas parte disso só pode ser preservado se as peças foram bem tratadas. Será que se deve preservar? Será que se deve guardar o momento? Não é o propósito da Street Art fugir desse sistema pela sua efemeridade e fuga ao mercado? Eu não vejo tanto isso, penso que deve haver uma continuidade natural e consequente. A rua pode ser o suporte, mas deve trazer uma nova lógica com ela. E eu nem vou pela questão do mercado, só pelo valor histórico que se deve conservar.

Queres falar sobre o mercado? 

Acho que na arte contemporânea, hoje em dia, há muito caso para especulação. O mercado é mercado porque é como uma bolsa. Aleatório, possível de manipular, etc. Para lavar dinheiro vai continuar a ser um dos melhores negócios, qualquer pessoa que possua capitais tóxicos sabe que a arte lhe garante tanto uma troca de bens, como um prestígio completamente novo. É um mercado tão desiquilibrado como os verdadeiros mercados e levanta muitas outras questões, sobretudo acerca de valor artístico. O mercado é um espetáculo.

Curiosamente, em Portugal, pintar paredes ou perfurá-las, foi repensado para vandalismo. Achas que ainda falta sensibilidade para a Street Art

É uma discussão em aberto. Aquilo que passa para o aspecto decorativo, acaba por ser sempre defendido, mas o trabalho que provoca deve continuar a incitar a este debate. Acho que seria tão genuíno se assim não fosse. E eu já tive dos dois lados com o meu trabalho, já pintei paredes de forma legal e, a grande maioria, de forma ilegal. Mas também acho que se estou a fazer algo não autorizado, faz mais sentido. É intervenção. E é diferente dos caminhos mais figurativos e decorativos. Tu não podes tornar tudo legal, de repente, senão estás a desvirtuar grande parte da essência desta cultura. Certas coisas só devem ser ditas se forem ilegais. O resto é domesticação face à reivindicação.

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O teu trabalho sempre suscitou reações imediatas. Pensas ser possível capturar esta nova viralidade da arte? 

Sim, mas às vezes está mais relacionada com factores externos do que internos, mais virais. As coisas que tu não estás à espera que se tornem podem ter mais sucesso do que as que tu crias com essa função. É um campo incerto, mas gosto de pensar que são as coisas que fazes sem pensar nisso que têm ainda mais esse poder. Pela maior naturalidade. Hoje em dia não é preciso fazer 100 stencils para o teu trabalho ser reconhecido, há um formato novo, há uma série plataformas novas. É normal que as intervenções sejam mais partilhadas.

O teu projecto é completamente think global, act local. Achas que isto tem ajudado na sua internacionalização? 

Sim, ajuda. Por todas estas ligações que se foram criando e por todas estas novas redes que se criam entre as pessoas. Acabamos por usar todas estas plataformas como se fossem uma nova rua, novas avenidas e alamedas onde colocarmos o nosso trabalho.

Quando um polícia foi exonerado pela sua intervenção no Enterro de Portugal, sentiste o lado negro da força? 

Foi uma daquelas consequências que tu nunca vais sequer imaginar. E aí percebes que as coisas que tu fazes mexem muito mais com o que está à sua volta do que nós imaginamos. Acho que isso é muito interessante. Acho que é um caso de estudo.

±O PRINCÍPIO DO FIM± é uma defesa dos valores na cara do caos. Ou é mesmo o princípio do fim? 

Não, acho que é apenas um reminder. O posicionamento do que vai estar na galeria é distópico e até com um certo exagero, mas é premeditado. A minha intenção é que o espectador se posicione num possível futuro próximo. Que olhe e pense que aquilo em 2030 poderá ser real, porque pode. É criar uma oportunidade de olhar para o presente como a possibilidade que este presente é. Gostava que houvesse uma reflexão sobre o que é uma possibilidade do nosso futuro. Será assim tão distópico ou está só concentrado?

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