“O disco fala de deixar fantasmas, medos e paranóias. De amar só no presente”


medos e paranóias
 

Quem não se lembra d’O Cão da Morte? O pseudónimo musical de Luís Gravito pode ter mudado para Luís Severo, mas o seu talento para criar canções encantadoras parece continuar em altas. Com uma estreia em 2009 que marcou profundamente o indie português, passou 2014 unido a Coelho Radioactivo para nos apresentar belíssimos temas e concertos enquanto Flamingos. E agora está na altura de pegar em toda a sua queda para a cantautoria e apresentar-nos este disco que é um doce: Cara d’Anjo.

Produzido pelo próprio e com a ajuda preciosa de Filipe Sambado, este novo trabalho mostra-nos o quanto já está à vontade com as canções, percorrendo uma série de emoções e estados de espírito, sempre num registo delicado, delicioso. No entanto, é a sua queda para letras humanas, contemporâneas e fáceis de entender, que servem de cereja no topo do bolo deste disco.

Quisemos saber mais acerca das suas referências, como foi voltar a trabalhar a solo e quais as preocupações que tem com a sua música. As respostas ficam de seguida. Logo depois do primeiro single, que recomendamos:

 

Depois de meses mais dedicados aos Flamingos – banda que unia O Coelho Radioactivo ao Cão da Morte –, como foi focares-te num trabalho a solo? Já sentias vontade de processar a música à tua maneira?

As duas coisas aconteceram (e acontecem) ao mesmo tempo. São coisas diferentes e dá-me muito prazer fazer as duas. Em Flamingos tudo tem de ser aprovado pelos dois. A solo é diferente porque, apesar de ter outras forças criativas a trabalhar comigo (neste caso, a banda e o Filipe Sambado), as decisões finais são sempre minhas e não tenho de chegar a consensos com ninguém.

O novo disco tem a cantautoria como principal destaque. Achas que ainda é possível ser inovador num registo particularmente popular em Portugal?

Não sabia que a cantautoria era um estilo particularmente popular em Portugal. Além disso, calculo que essa questão da inovação também possa ser colocada a outros estilos musicais. Quanto ao meu caso, não faço discos a pensar que quero ser inovador. Apenas trabalho para que as coisas fiquem como eu gosto e experimentar todas as ideias malucas que possa ter. Eu sinto que as minhas canções são especiais, independentemente de poderem ser comparadas a outras coisas.

Notei uma atenção peculiar à evolução e ao irrequieto das melodias ao longo dos temas. Achas que a boa música não deve ser estática?

Nada disso, nunca na vida diria uma coisa dessas. Há imensas coisas estáticas que adoro, por exemplo Grouper. Apenas me apeteceu fazer este disco assim, o próximo não sei como será… até pode vir a ser mais estático.

 “Que esta noite é que vai ser uma beleza.” O disco tem uma mensagem positiva a espreitar da melancolia. És um optimista? Isso reflecte-se na tua música?

A canção de que falas, a Ainda é Cedo, é sem dúvida uma canção de esperança. Escolhi-a para abrir o disco porque acho que o introduz bastante bem. O disco fala muito disso: deixar fantasmas, medos e paranóias, para amar só no presente.

Ao ouvir o disco lembrei-me de B Fachada, mas também de Nick Moon [peço desculpa pelo lapso, mas a piada do Luís Severo faz com que valha a pena]. Quem são as tuas grandes referências?

Nunca ouvi falar de Nick Moon, só de Pink Drake. A música do B Fachada conheço e gosto. Nos últimos tempos, as coisas que mais ouvi foram Leonard Cohen e Beach Boys. Sem me querer comparar a nenhum desses nomes, talvez eles sejam os que mais me influenciaram na produção deste álbum. Também gosto muito do Ariel Pink.

“É melhor amar do que estar sozinho.” Se tivesses de embalizar este disco numa temática, qual seria? A esperança? O amor?

O disco é sobre amor claro, quem ouvir perceberá que se trata de uma lamechisse pegada. Talvez eu seja um bocado lamechas, pelo menos na hora de escrever. A frase do é melhor amar que estar sozinho é um clichê que gosto bastante, o Vinicius de Moraes usava essa ideia de uma forma muito bonita.

Foto: Maria Rita/Shifter

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