170 anos de Eça de Queirós: as 5 obras obrigatórias


Faria hoje 170 anos aquele que é considerado um dos melhores escritores realistas de romance portugueses do século XIX. Eça de Queirós nasceu a 25 de Novembro de 1854 e foi autor de algumas das mais importantes obras literárias do país.

Escrevia com uma transversalidade que ultrapassou séculos, viu muitas das suas obras serem adaptadas aos meios modernos e além de Pai do romance realista é um dos Pais do ensino da escrita, tendo influenciado a educação literária do país com a leitura obrigatória de Os Maias no ensino secundário. Para comemorar o seu aniversário escolhemos as nossas 5 obras preferidas:

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A Relíquia

Os feitios não são uma coisa fácil. E as heranças também não. Este livro trata, principalmente, destas duas coisas. Um sobrinho chico-esperto que quer ficar com a fortuna da tia rica, mas só com muitas visões de Cristo acaba por se endireitar. Ou será que nunca se endireita? A Relíquia é uma obra repleta de antíteses humanas, de remorsos e de novos rumos, tudo para nos mostrar que não há relíquia maior do que a verdade, ou melhor, do que a mentira. Num dos momentos geniais de Eça nos subtítulos, o desta obra chama-se sobre a nudez forte da verdade – o manto diáfano da fantasia.

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A Cidade e As Serras

A Cidade e as Serras é um retrato lindíssimo sobre Portugal, sobre o quanto somos campónios face aos nossos amigos parisienses, mas como acabamos por ser felizes assim. Através do nosso protagonista Jacinto, um português riquíssimo que tem de voltar às suas herdades nas Beiras, temos um retrato claro das diferenças entre a grande metrópole e a vida portuguesa. E não é que mesmo habituado ao melhor de Paris, nada vai contentar tanto Jacinto como uma canja de galinha com dois dedos de gordura? Mistérios da terra.

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O Mistério da Estrada de Sintra

Juvenilia é o termo usado habitualmente para descrever uma obra artística criada ainda durante a juventude do autor. Apesar de ter sido editada quando Eça de Queirós tinha 25 anos, esta obra pode entrar nessa patamar, sobretudo pela vergonha que sentia sempre que lhe perguntavam por ela. Tiques de génio, decerto, porque para além de contar uma história de suspense tão clichética como qualquer outra, ainda cumpre o feito de ser um dos primeiros policiais alguma vez escritos em Portugal. Começa com um rapto de um médico por quatro indivíduos mascarados e a partir daí é… um mistério.

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Singularidades de uma Rapariga Loura

Singularidades de uma Rapariga Loura foi publicado originalmente em 1874 no Diário de Notícias e, para além de ser uma história de amor e uma obra-prima, é o primeiro conto realista de língua portuguesa. Nesta obra, Eça de Queirós descreve com grande detalhe o amor do jovem Macário, um rapaz honesto e trabalhador, por uma singular rapariga loura, de seu nome Luísa, que: “Tinha o carácter louro como o cabelo – se é certo que o louro é uma cor fraca e desbotada: falava pouco, sorria sempre com os seus brancos dentinhos, dizia a tudo «pois sim»; era muito simples, quase indiferente, cheia de transigências. Amava decerto Macário, mas com todo o amor que podia dar a sua natureza débil, aguada, nula. Era como uma estriga de linho, fiava-se como se queria: e às vezes, naqueles encontros nocturnos, tinha sono.”

Esta jovem aparentemente dócil faz com que o nosso protagonista saia de casa do seu tio Francisco, onde trabalha como escriturário para ir até Cabo Verde em negócios, com intuito de merecer a sua mão. No entanto, a jovem Luísa é de facto uma rapariga loura e singular.

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Os Maias

Para muitos um resumo de Os Maias não fazia falta neste artigo, ou porque já leram o livro ou porque têm até um resumo da vossa autoria feito algures entre os exames do 12º ano.  A esses juntam-se os que ficaram ficaram pelo 8º capítulo e os que, para contrariar a obrigação escolar, nem o leram mas sabem do que trata. É por todos eles que Os Maias não podiam faltar nesta lista. Se por um lado faz sentido que a sua leitura seja obrigatória na escola pela forma como une em si tudo o que é características (e qualidades) da escrita; por outro, é verdade que a leitura que se faz nessa altura não permite apreciá-la na sua plenitude.

Talvez por falta de maturidade literária, a escrita rica de Eça acaba por não ser reconhecida por muitos na primeira leitura que fazem da obra. O conselho é: voltem a ler passados uns anos, com mais autores e conhecimento na bagagem. Não é por acaso que Os Maias é um dos mais famosos livros da literatura portuguesa.

No Portugal de finais do século XIX, a história da família Maia e do amor trágico e incestuoso de Carlos Eduardo e Maria Eduarda é embelezada pelos enredos secundários e pela tão característica contextualização. Tendo certamente servido de base para muitas das telenovelas dos nossos tempos, é obrigatória a referência à actualidade da estória que, mesmo passado mais de um século, podia perfeitamente passar-se nos nossos dias, tanto no que diz respeito às relações humanas, como no que respeita a política.

Texto de: Rita Pinto, Alexandre Couto e Rui André