5 anos de ‘My Beautiful Dark Twisted Fantasy’


Será que My Beautiful Dark Twisted Fantasy está mesmo a envelhecer bem?

Quem não se lembra do redondo dez que a Pitchfork atribuiu a este disco? Eu não me esqueci, porque na minha opinião, continua a ser o melhor disco da carreira de Kanye West (e olhem que eu gosto muiiito do College Dropout.) Será que o apogeu da grandiosidade musical do rapper norte-americano e o principal motivo para que tanta gente ficasse desiludida com o Yeezus, ainda mantém o seu rótulo de disco perfeito cinco anos depois do seu aniversário?

Ao longo deste artigo vamos visitar alguns dos pontos que considero mais importantes para o seu sucesso, para o seu legado e para ser um marco definitivo na carreira de um rapper, que para além de ser um dos mais odiados no game, é aquele que tem maior facilidade em ser apelidado de génio.

O som

My Beautiful Dark Twisted Fantasy‍‍  não teria sido tão épico sem a grandiosidade musical que Kanye West colocou neste disco. Quase uma mescla de todos os seus trabalhos até aqui, neste álbum encontramos o soul que o caracterizou no The College Dropout (2004), a pompa e circunstância sinfónica do Late Registration (2005), todo o brilho e verniz sonoro que Graduation ostentava (2007) e a electrónica disfarçada e abafada de 808s & Heartbreak (2008).

Trabalhou nele noite e dia, mas principalmente durante a noite, fazendo pequenas sestas no estúdio durante o dia, enquanto engenheiros e técnicos de som se sentavam à mesa de mistura, por turnos, durante 24 horas por dia. Afinal, estava rodeado por tipos como Kid Cudi, que agradeceu a política liberal de Kanye em relação ao consumo de marijuana, assim como o icónico RZA dos Wu-Tang Clan que não dispensava o seu ginásio diário. Encontravam-se de manhã para jogos de basquetebol e dirigiam-se para o estúdio para trabalhar na música.

A palavra culminar é geralmente aplicada ao resultado final do disco. Afinal, poucos são os músicos que conseguem chegar a uma fase da sua carreira em que se rodeiam dos seus maiores pontos fortes para criar um masterpiece. Tem características de todos os seus discos até aqui. É completamente diferente de cada um deles. E as 13 músicas que compõe o disco estão interligadas de uma forma tão suave que é difícil não pensar que não tenham influenciado discos como Good Kid, M.A.A.D City de Kendrick Lamar e Channel Orange de Frank Ocean.

A capa

Poucos discos de rap demonstram uma pretensão artística tão clara no seu primeiro rosto visível, a capa, como este MBDTF. Kanye West queixou-se logo em 2010 de que uma série de lojas não queriam ter o disco à venda porque achavam que a capa era provocadora demais. Mas, não seria isso mesmo que ele queria?

O artwork, uma pintura de George Condo, mostra duas figuras completamente nuas, uma figura negra que parece ser uma versão devassa de Kanye West (provavelmente, uma sátira à forma como tantos o vêm), nos braços do que parece ser um anjo ou uma fénix. A segunda capa, uma pintura de uma bailarina, também de Condo, foi postada no site da Amazon para mostrar que ia existir uma versão mais simpática (e politicamente correcta) deste disco.

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Kanye West e George Condo (que posteriormente adiantou que Kanye o briefou com o pedido de uma capa que fosse potencialmente proibida) encontraram-se várias vezes, falaram da sua música e do que planeava para este disco. Foi a partir daí que o artista criou os primeiros nove quadros que vieram parar às capas do disco. Uma delas, destacando um Kanye West decapitado, tornou-se particularmente desejado entre os seus fãs, por representar o que este disco era.

Poderoso, certo?

A temática (e os temas)

Era mesmo necessário que Kanye West já estivesse numa fase avançada da sua carreira para poder escrever um disco que tocasse em temáticas tão acertadas como esta. Se bem se lembram dos seus primeiros discos, não havia tanta conversa de marcas e de moda, sim, havia referências fartas ao seu estilo, mas uma obsessão mais natural e menos plástica.

Aqui estamos perante uma volta completa. Kanye West é uma celebridade a odiar a cultura de celebridades, a criticar o excesso, a decadência. É um álbum de “more is more” e uma meditação muito interessante sobre o lado negro da fama. Com uma série de referências a drogas, álcool, vícios, assim como uma necessidade tremenda de estar em controlo da situação, encontramos aqui um tópico forte e o tema central sobre o qual todo o disco é construído.

Se pensarmos que começa com um prelúdio em que Nicki Minaj nos avisa que tudo vai correr mal, avançamos para momentos épicos de beleza em Runaway, e acabamos tudo num hino à sobrevivência em que percebemos que os nossos objectivos e a nossa forma de viver é megalómana e egocêntrica demais para ser verdade, descobrimos que este disco é uma tragédia.

Uma tragédia clássica, com um fim anunciado, um segundo acto repleto de esperança e uma queda inevitável – onde o anjo caído aparece como metáfora repetida. Afinal, Kanye quer mostrar-nos que uma mulher nos pode fazer sentir ainda mais culpados. Mas, no fundo, a culpa é sempre nossa. E essa é capaz de ser a mensagem mais poderosa do disco.

See, I could have me a good girl
And still be addicted to them hoodrats

And I just blame everything on you
At least you know that’s what I’m good at

O momento

MBDTF acontece num momento negro da carreira de Kanye West. É escrito durante um exílio auto-infligido, após o incidente com Taylor Swift nos VMA’s de 2009, quando toda a gente da indústria musical, e não só, lhe caiu em cima devido à parvoíce que fez. Para além disso, atravessava o fim da sua relação com Amber Rose, que para além de mediática, foi também algo trágica.

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Se Kanye West queria recuperar o público, assim como a sua vida no geral, era pela música que tinha de o fazer. Foi por isso que criou as “G.O.O.D. Fridays” onde lançava uma música por semana, como diz o nome, à sexta-feira. Se isso lhe dava créditos junto dos fãs de rap, ainda não limpava a sua imagem mainstream. É aqui que se junta ao Twitter para nos dar pérolas como “as batatas fritas são o diabo.” Mas o mais importante ainda estava para vir.

Kanye West gastou três milhões de dólares só na produção do disco. Também não fez a coisa por menos do que alugar todos os estúdios do Avex em Honolulu, no Havai. Contam que andava sempre de um estúdio para o outro, a ultrapassar os bloqueios criativos que tinha e a avançar em diversas músicas ao mesmo tempo. Para além do processo musical, este foi um processo de transformação.

Quando apresentou o seu vídeo para Runaway nos VMA’s de 2010, a metamorfose de vilão para génio estava quase completa.

O impacto

Quando MBDTF saiu toda a gente ficou algo estupefacta com a qualidade deste trabalho. O que justifica ter estado em primeiro lugar em quase todos os tops desse ano, do The Guardian à Pitchfork. Enquanto a crítica falava em momento alto e pico da sua carreira, Kanye West dizia repetidamente que só o tinha feito para nos mostrar que sabia criar a obra perfeita. Se não o é, está perto disso.

E nas tabelas de vendas? Este disco de Kanye West nem sequer vendeu tanto como o 808s & Heartbreak, um disco mais estranho e não tão badalado, mas ainda assim foi suficiente para chegar ao número um do top americano. Foi o quarto disco de Kanye West a conseguir essa proeza, o que explica algum do seu ego disparatado, mas não todo.

Não é um disco fácil, o que o pode ter castigado nas vendas, mas essa não pareceu ser a principal preocupação do músico norte-americano acerca dele.

Para terminar

Para terminar, não haveria a figura de Kanye West como a temos hoje sem este disco. Foi a primeira vez que pegou em tudo o que já sabia fazer e aplicou isso num disco. É uma celebração do seu passado conturbado, da persona macabra que tem vindo a construir para si próprio, assim como da sua carreira repleta de decisões pessoais, complexas e nem sempre as mais lógicas. É também a maior beleza no meio de todo este caos. Um triunfo musical que vai continuar a ser olhado em retrospectiva daqui a muitos anos, como hoje é olhado após cinco.

Para todos os que gostam tanto desta pérola como eu, resta-nos agradecer todo o foco que Kanye teve em fazer o álbum perfeito.

É o seu maior triunfo no meio de tanto disparate.