DocLisboa 2015: frio e cru, mas tremendamente verdadeiro


DocLisboa 2015
 
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Chegou ao fim mais uma edição do DocLisboa. Com a forte componente multicultural e social que já é habitual nas obras em exibição, este ano primou também por um carácter de (ainda) maior ênfase na intervenção política e social junto dos espectadores. Para tal, além das obras em competição, o festival contou ainda com retroespectiva ao realizador Zelimir Zilnik, crítico, através das suas obras, à antiga Jugoslávia comunista, além da retroespectiva “I Don’t Throw Bombs, I Make Films”, do Cinema de Urgência, do Heart Beat e ainda um foco especial sobre a Grécia. A estas secções, vieram juntar-se as já habituais Verdes Anos, com curtas portuguesas, e Riscos.

Na Competição Nacional, pudemos assistir a obras que nos conquistaram, pela humanidade que lhes estava subjacente, como Portugal – Um Dia de Cada Vez, de João Canijo e Anabela Moreira, um retrato sobre o interior esquecido do nosso país, na zona de Trás-os-Montes e Alto Douro, e Maybe Desert Perhaps Universe, de Karen Akerman e Miguel Seabra Lopes. Um documentário cru e sem subterfúgios sobre alguns dos doentes de uma Unidade de Internamento do Hospital Júlio de Matos.

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Inserido no Cinema de Urgência – secção do DocLisboa dedicada a um universo social em crise – surge talvez um dos filmes mais acarinhados pelo público não fosse o tema tão actual e a moeda de troca tão necessária. Trata-se da película Growing Home que em pequenas curtas de 2 e 12 minutos conta as histórias de vários refugiados em fuga. Desde sírios e turcos à procura de melhores condições de vida na Europa a um campo de refugiados na Jordânia que acolhe há já largos meses quem procura por um sinal de “vida”. O bilhete de entrada ao invés de pagamento monetário era garantido com a doação de bens alimentares e higiénicos. Já no fim, houve tempo para limpar as lágrimas e debater junto de Tiago Afonso (moderador), Susana C. Gaspar (da Amnistia Internacional), Mónica Frechaut (do Conselho Português para os Refugiados), Pedro Rita e Miguel Carmo o futuro destas milhares de pessoas.

A secção Heart Beat foi pensada para todos os amantes da música e das artes performativas. Embora com muitos filmes contemporâneos e históricos, houve um que mereceu o nosso devido interesse, não fosse mais uma vez a actualidade política recair sobre a nossa consciência ocidental. E por isso, em plena noite de Halloween, a sala Manoel de Oliveira encheu-se para se ouvir a história do Mali em They Will Have to Kill Us First da realizadora Johanna Schwartz. No norte deste país a música foi proibida. Jihadistas e a sua lei xaria instalaram-se em pleno território, outrora proclamado pelos radicais touaregs, proibindo qualquer manifesto musical. As imagens, contam a vida de vários artistas que não se calaram e que tentaram manter a música viva. “Mesmo com o choro na garganta.”

A última obra de Albert Maysles, In Transit, esteve também presente no festival. Gravado a bordo do Empire Builder, comboio de longa distância dos EUA, em In Transit a câmara percorre as vivências de vários dos seus diferentes passageiros a bordo. Um obra com uma riqueza imensa e que nos transportou numa “viagem” que desejávamos não ter acabado tão cedo.

Rio Corgo, dos luso-suíços Maya Kosa e Sérgio da Costa e Il Solengo, de Alessio Rigo de Righi e Matteo Zoppis, foram os vencedores das competições Nacional e Internacional, respectivamente, num festival em que Dead Slow Ahead, de Mauro Herce, e Maybe Desert Perhaps Universe, de Karen Akerman e Miguel Seabra Vasconcelos, acabaram por ser os filmes mais premiados.

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O DocLisboa não ignorou o contexto socio-político que o rodeia. Pelo contrário, aceitou esse mesmo desafio e primou por uma aproximação ao público através de temas fracturantes encarando-os sempre com o propósito de nos dar um despertar necessário face à actualidade em que estamos inseridos mas que tantas vezes preferimos encarar de olhos fechados. Foi então, de olhos nos olhos, bem abertos e conscientes, que nos deixámos conquistar pela 13ª edição do DocLisboa.

De referir ainda que durante a esta semana e até dia 15 de Novembro poderão também ver alguns filmes portugueses em streaming no DocAlliance e que já passaram pelo DocLisboa em edições anteriores através do link dafilms.pt.

Texto por: Mariana Dias e João Estróia Vieira

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