La Luz: “Só nos apercebemos de que somos uma banda de mulheres quando nos entrevistam sobre isso”


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Shana Cleveland (guitarra), Marian Li Pino (bateria), Alice Sandhal (teclas) e Lena Simon (baixo) são La Luz, quarteto de surf rock originário de Seattle. O grupo feminino norte-americano estreou-se em 2013 com o álbum It’s Alive em que deu a conhecer ao público uma base rítmica sólida assente num contagiante surf-rock repleto de distorção, mudanças de tempo energéticas, backvocals melódicos e o eventual solo que rasga com o demais, ao bom e clássico estilo do rock n’ roll mais embrionário.

Em Weirdo Shrine, segundo álbum da banda lançado em Agosto deste ano, as La Luz parecem numa abordagem mais virada para o psicadelismo, que dá lugar a um certo contrassenso no ritmo base até aqui quase sempre rápido e alegre – uma espécie de vislumbre de escuridão na “Luz”, por assim dizer. No álbum de 11 faixas e pouco mais de meia-hora de duração, que foi produzido pelo famoso músico-dos-sete-ofícios Ty Segall, as La Luz parecem abraçar esse lado mais obscuro e melancólico de forma fluída e descomplexada, sem com isto relegar para segundo plano o registo lo-fi de garagem, que permanece como pilar de identidade da banda que, uma vez em palco, cativa com facilidade, boa-disposição e muito entusiasmo.

A promover o novo álbum numa digressão mundial que dura já há mais de dois meses, o quarteto de Seattle estreou-se em solo português no passado dia 9 de Outubro na Casa Independente. No final do concerto aproveitámos a ocasião para falar um pocuo com Shana Cleveland e Marian Li Pino sobre o grupo, o novo álbum, e a vida de “rock stars” emergentes.

 

Actuaram hoje [9 de Outubro] pela primeira vez em Portugal depois de terem tocado ontem em Madrid e antes de ontem em Barcelona. Como é que têm sido estes dias por terras ibéricas?

MARIAN – Têm sido excelentes, muito divertidos! Sempre que vamos a Espanha somos sempre bem recebidas, e hoje que tocámos aqui pela primeira vez o público foi excelente. Acho até que hoje foi mais divertido do que ontem.

SHANA – Sim, ontem foi muito bom, antes de ontem foi… bastante bom, mas hoje foi o melhor (risos). Acaba sempre um bocado por depender da cidade onde tocamos, e é normal uma tour ter os seus altos e baixos, mas estes últimos dias têm corrido muito bem por isso estamos muito felizes.

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Sendo uma banda de rock exclusivamente composta por mulheres, como é que têm lidado com isso ao longo da vossa carreira? Sentem que vos tratam de forma diferente por isso ou não passa meramente de um detalhe da identidade das La Luz?

SHANA – Eu acho que o mais estranho em fazer parte de uma banda de rock totalmente feminina é estarem sempre a perguntar-nos sobre isso, como se estivessem à espera de algo diferente ou especial. É verdade que nos Estados Unidos é mais comum, especialmente em Seattle de onde viemos, em que parece que há milhares de músicos por toda a parte mas ao mesmo tempo é uma cidade pequena, e acabamos todos por nos conhecer uns aos outros. Mas não, para nós é algo completamente normal e já estamos tão habituadas que nem pensamos muito nisso.

MARIAN – Sabes, parece que às vezes só nos apercebemos de que somos uma banda de mulheres quando nos entrevistam sobre isso (risos). No fundo acho que estar numa banda assim é um bocado como ser mulher em qualquer parte do planeta – simplesmente fazes o que estás a fazer e segues em frente com o teu trabalho.

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Seattle tem uma longa história na indústria da música por ser o berço de várias gerações de músicos e artistas que imortalizaram o malfadado estilo de vida de estrela de rock, com muitas festas, bebedeiras e afins à mistura. Identificam-se minimamente com este tipo de conceito?

SHANA – Não, de todo. Normalmente nós até preferimos é ir logo para a cama no final dos concertos (risos).

MARIAN – Muitas vezes parece que essa é mesmo a única opção, porque se não dormires depois dos concertos no dia seguinte vais acordar completamente exausto. Nós temos andado em digressão há já quase 3 meses seguidos e se estivéssemos sempre em festas e noitadas íamos acabar por morrer… ou então tínhamos de consumir um monte de drogas, o que provavelmente iria dar ao mesmo.

Certo, então – nada de festas nem de drogas?

SHANA – Quer dizer… nada de festas a toda hora, “quase” nada de drogas (risos). Há várias bandas que fazem muito isso e depois se gabam de ser todos “do rock” e assim, mas fazeres esse tipo de vida constantemente quando estás em tour é insano. Pessoalmente acho até que é um bocado falta de respeito para com as pessoas, que estão semanas e por vezes meses à espera de te ver actuar, para depois estares em palco todo destruído e sem condições de dares um bom espetáculo.

Passando agora para o vosso mais recente álbum, como é que foi trabalhar com o Ty Segall na produção do “Weirdo Shrine”? Concordam com a visão de que as La Luz são como uma espécie de “protegidas” do músico?

SHANA – No que diz respeito à produção do álbum, nota A+ para o Ty. Nós estivemos em digressão com ele a abrir os concertos e ele é verdadeiramente um excelente músico. Acho que quando estás numa banda mais pequena e tens oportunidade de trabalhar com nomes maiores há sempre aquele sentimento de admiração e respeito pelo seu trabalho, mas muito também de aprendizagem, tipo “ah, é assim que fazes isso? Porreiro, não fazia ideia, tenho de experimentar!”.

MARIAN – Não me parece contudo que sejamos necessariamente as tais “protegidas do Ty Segall”, até porque ele sempre nos encorajou a seguirmos o nosso próprio estilo. Grande parte das vezes o que ele ia fazendo era mais no sentido de nos aconselhar a experimentar coisas novas e a dar sugestões sobre como melhor fazer isto ou aquilo, mas foi sempre muito respeitador do nosso projeto, e é claro aprendemos muito com esta experiência de produzir um álbum com ele.

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Comparativamente ao vosso álbum de estreia It’s Alive!, quais diriam que foram as maiores diferenças para vocês enquanto banda e projecto que se fazem sentir no Weirdo Shrine?

MARIAN – Ainda que não tenhamos tentado ir propositadamente nessa direcção, acho que neste álbum existe de facto um bocado desse lado mais negro, o que acho que é importante porque não podemos estar sempre a fazer músicas felizes e divertidas sem termos também outras com mais profundidade e significado. Para além disso, sinto que a grande diferença foi mesmo todo este tempo que passámos a tocar juntas nos deu bastante confiança para atuar ao vivo e sermos nós próprias.

SHANA – No início deu-nos um bocado a impressão de que foi tudo muito estrito e profissional, em que tínhamos aquelas músicas definidas e que tínhamos de fazer tudo e mais alguma coisa para as gravar e depois promover. Desde então tivemos já alguma mudanças na composição da banda, em que passámos a contar com a Lena (Simmon) no baixo, e as coisas parece que começaram a fluir mais naturalmente, e passámos a dar mais de nós em cada música e em cada espetáculo. No primeiro álbum não houve tanto esse sentimento, mas agora sinto que estamos mais maduras e entrosadas, quer a nível criativo quer enquanto performers.

Imaginem, e para terminar, que podiam deixar uma mensagem para o público português que nunca ouviu falar das La Luz, no sentido de promover e dar a conhecer um pouco mais deste vosso projeto. O que diriam?

SHANA – Eu sinto que a nossa “missão” no meio de tudo isto passa muito por invocar e canalizar aquele espírito original do rock’n’roll, em que está tudo a bater o pé e saltitar sem te preocupares com o facto de pareceres bem ou estares a dançar como deve ser. É algo muito especial para nós quando as pessoas se apercebem disso, e entram nas nossas brincadeiras de fazer coisas malucas tipo crowd surf e assim, em que te deixas ir e acabas por momentaneamente esquecer tudo o resto.

MARIAN – Grande parte disso é também mostrares estás presente de corpo e alma, e que te estás ali para atuar mas também para te divertires com as pessoas. O que foi ótimo porque sinto que isso aconteceu no concerto de hoje [9 de Outubro], o público foi impecável connosco, divertimo-nos imenso e por isso acho que podemos prometer que havemos de regressar a Portugal num futuro próximo.

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Fotos: Luís Silva/Shifter