‘Montanha’


Montanha
 
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Chega hoje aos cinemas do país Montanha, a primeira longa-metragem de João Salaviza.

Depois de ter feito um roteiro aclamado em festivais de cinema internacionais, Montanha estreou em solo português pela mão do Lisbon & Estoril Film Festival. Trazia na bagagem o Antigone d’Or, o mais importante galardão no Festival de Montpellier e um monte de expectativas que não saíram defraudadas.

Montanha retoma um tema conhecido de Salaviza, a adolescência e a relação de um adolescente com a cidade. Cru e real, conta a história de David, um rapaz de 14 anos – quase 15 – cuja vida está desalinhada por bem mais que as hormonas típicas da idade. David tem um avô internado no hospital, uma mãe emigrada que regressa chamada pela possibilidade da tragédia, um amigo com quem vagueia pela cidade e uma vizinha por quem se apaixona.

A história não é complexa, é real e identificável e todos os ingredientes do filme parecem contribuir para essa sensação. Montanha é protagonizado por David Mourato, actor não profissional escolhido entre mais de 400 candidatos. Na apresentação do filme, Salaviza acabou por revelar que David se escondia da câmara durante as filmagens e o feeling passa, como se estivéssemos a intrometer-nos na sua vida, como se aquela fosse mesmo a vida do David-actor.

A espera é uma constante na estória. Um miúdo que está uma semana a deambular pela cidade sem ter para onde ir, chumba o ano, vai a festas, apaixona-se, rouba uma mota e vagueia por esconderijos nos Olivais que só um adolescente conhece, tudo isso enquanto espera por uma pequena tragédia familiar.

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À naturalidade de David junta-se a de Rafa (interpretado por Rodrigo Perdigão, é o mesmo Rafa da curta-metragem com o mesmo nome realizada por João Salaviza em 2012), o amigo com quem partilha tardes quentes de verão em casa a fumar, com quem anda para todo o lado com quem acaba por partilhar a paixão por Paulinha (Chayenne Rodrigues).

Há ainda a mãe, personagem interpretada por Maria João Pinho, com quem David tem, apesar da distância, uma relação de mútua proteção; e um namorado da mãe, meio obcecado, interpretado por Carloto Cotta, protagonista de Arena, curta de 2009, fazendo assim o segundo cruzamento entre obras antigas do realizador e o filme.

Montanha vive dos personagens e do respeito de Salaviza para com as suas histórias. Há tempo para conhecer cada um, é dado tempo e espaço a cada actor para que se construa no filme onde é visível o fascínio do realizador pelas pessoas que filma. E num filme onde um actor pode ser ele próprio, o plano e a luz certa acabam por revelar-se naturalmente.

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João Salaviza confessou já várias vezes que há memórias suas materializadas em Montanha, mas que o objectivo nunca foi filmar questões factuais ou uma relação mimética com a realidade de um adolescente, mas sim captar as sensações da adolescência. E a questão sensorial passa, não fica o generalismo de achar que todos podíamos ter vivido o que o David viveu, mas fica a ideia de que já vivemos sensações idênticas. A adolescência fechada de não fazer perguntas, de quem leva segredos nos bolsos para se proteger. Neste caso foi David num prédio de militares reformados num bairro dos Olivais envelhecido com meia dúzia de jovens tão enclausurados como livres, noutro podíamos ser nós no nosso contexto mas com memórias perfeitamente identificáveis.

É essa verdade que está presente no cinema de Salaviza desde o início e que desta vez, como se o seu génio já não coubesse numa curta, se materializou naquela que não podia ter sido a melhor estreia do realizador nos longa duração.

Se não conseguirmos aumentar o número de patronos, a 2ª edição da revista será a última, e o Shifter como o conheces terminará no final de Dezembro. O teu apoio é fundamental!