O novo filme de João Canijo é um retrato filmado do nosso país


João Canijo

Do material fílmico que deveria resultar numa série para a RTP sobre Portugal, nasceu o documentário Portugal – Um Dia de Cada Vez, que fez parte da edição deste ano do DocLisboa e estreou no dia 5 de Novembro nos cinemas. João Canijo, o realizador, tem procurado obter cada vez mais realismo nos seus filmes. Desde Sangue do Meu Sangue, em que as suas actrizes entraram num grande período de conhecimento mútuo e treino de improvisação antes da realização do filme, até ao título É O Amor, sobre a comunidade piscatória das Caxinas em que alguns dos intervenientes eram os próprios pescadores e peixeiros da zona.

Em Portugal – Um Dia de Cada Vez, João Canijo e Anabela Moreira, actriz que tem sido uma constante nos trabalhos do realizador, vão mais longe e abraçam um realismo de um Portugal há muito esquecido, o interior do nosso país, mais propriamente a região do Alto Douro e Trás-os-Montes. O documentário é focado em pessoas que “se têm na raíz”, como confessa uma das pessoas no documentário. Pessoas que vivem no seu mundo longe de tudo por escolha própria e cujos assuntos do dia é o (pouco) que se passa à sua volta ou o que sabem através dos jornais e TV, fiéis aliados que os mantêm a par do que se passa longe daquele canto no mapa onde se encontram.

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Pessoas que se recusam a esquecer também elas o interior, pessoas que se recusam a esquecer onde nasceram e decidiram voltar após anos no estrangeiro. Pessoas que preservam laços e que têm na telenovela ou numa aparição do Tony Carreira em qualquer programa, matinal ou não, o seu ponto alto do dia em frente à TV que muitas das vezes lhes rouba lágrimas e as deixam tão próximas daqueles que tanto gostam de ver. Mas nem só de lágrimas de felicidade é feito este documentário. Existem também as de amargura, de tristeza. As lágrimas dos injustiçados que apontam o dedo aos políticos, tantas vezes mencionados ao longo da rodagem do filme. Retratos reais, retratos de esquecidos. Os cantares, a religião, o tricô, as conversas com a vizinha do lado, os desabafos e silêncios de pessoas com demasiado (ou quanto-baste) amor à sua terra.

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Das mais de 300 horas de filmagem de Anabela Moreira cuja câmara é tantas vezes esquecida pelos intervenientes que nos abrem a porta das suas vidas, sem qualquer pudor, sem qualquer maldade, resultaram pouco mais de duas horas e meia de uma viagem fantástica e cheia de emoções pela vida de pessoas com vidas ricas,  com vivências fabulosas e tão distintas.  No final é inevitável o nosso desejo de continuar a escutá-los, de lhes continuar a fazer companhia por trás daquela câmara, tão invisível, tão próxima de pessoas puras e com histórias tão fantásticas. Agora o número de confidentes prontos a escutá-los é bem maior graças a João Canijo e Anabela Moreira.

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Em exibição desde 5 de Novembro no Cinemas IDEAL (Lisboa) e na sala UCI Arrábida (Porto). Sessões agendadas para Cascais (Cinema da Villa, 8 de Novembro), Castelo Branco (Cineteatro Avenida, 10 de Novembro) e Santarém (Teatro Sá da Bandeira, 18 de Novembro).