O que é o Estado Islâmico? Como se combate? Quererá o Ocidente meter-se nisso?


O que é o Estado Islâmico

O grupo terrorista Estado Islâmico é diferente de tudo o que conhecemos até agora. Tem um nível de organização, de logística e de financiamento que o torna dificílimo de combater.

Colocadas as coisas de uma forma simples: perante a sua sofisticação, só uma linha ténue impede que não lhe possamos efetivamente chamar de “estado” — o facto de (ainda) não corresponder a um território, de (ainda) não ter uma geografia associada.

O grupo Estado Islâmico tem uma economia própria, vende petróleo e gás natural, obtém receitas da extorsão, controla outros recursos naturais (com que sujeita as populações locais), possui rudimentos financeiros e controla bancos na Síria, branqueia milhões de dólares anualmente nas lavandarias off-shore.

Compreender que as suas ramificações financeiras são uma das primeiras razões que dificultam o seu combate é compreender a superficialidade ou mesmo a inutilidade da argumentação que estabelece os refugiados, as madraças e bairros islâmicos das capitais europeias, e o islamismo em geral, como prioridades do combate ou da discussão política que o precede.

Vai ao ponto de ter uma espécie de sistema de segurança social: paga aos seus soldados (acima da tabela dos exércitos esparsos) e protege as famílias dos heróis mortos em combate. Não admira que recrute facilmente entre as juventudes ociosas da Europa, da América do Norte ou da Ásia. Ao contrário da crença popular, o EI importa terroristas, não os exporta.

Acresce que o grupo tira partido dos problemas profundos que afetam as sociedades mais avançadas para as aterrorizar e fragmentar.

Mais que a informação superficial sobre a contabilidade das culpas e responsabilidades, mais que a exposição das diferentes opiniões sobre as causas e sobre o recrutamento do EI, procuramos apresentar artigos que informem e ajudem a compreender com que tipo de besta se defrontam as civilizações.

Civilizações no plural porque as ações do EI são globais, não afetam exclusivamente o Ocidente, os cristãos, os judeus e os interesses das sociedades europeias e americanas. O quadro de afetados comporta na verdade muito mais cidadãos islâmicos e de países não-europeus do que o contrário.

Um dos problemas na Europa é precisamente o enviesamento da comunicação social: tendemos a olhar para o EI como um nosso inimigo porque valorizamos — naturalmente — as ações que são dirigidas contra nós. Naturalmente, os 130 mortos de Paris têm sobre nós um impacto muitas vezes superior às 43 vidas ceifadas dias antes em Beirute pelos mesmos terroristas.

Mas uma resposta efetiva não se pode arquitetar em cima de visões distorcidas da realidade. Ao nível da opinião pública, que é o nível em que a Hoje opera, é preciso corrigir as assimetrias informativas no sentido de preparar as sociedades democráticas para as decisões que precisam ser tomadas ao nível institucional.

É o que procuramos fazer em seguida com sugestões de leituras e de videos que reduzem o ruído e contribuem para sabermos o que é efetivamente o grupo terrorista Estado Islâmico e como pode ser combatido.

Se é que pode.

O Estado Islâmico tira também partido da sujeição das políticas europeias e americanas à lógica financeira. O preço dos ataques terroristas é baixo. O ataque em Madrid (2005) teve um custo operacional de cerca de 9.050 euros. Este preço está significativamente abaixo do patamar valor considerado como referência na legislação de combate ao branqueamento de capitais e financiamento do terrorismo: 15.000 euros.

Em português simples: é mais caro combater o terrorismo do que praticá-lo ou deixá-lo acontecer. Enquanto não entrarem na equação outros custos — como o custo das vidas humanas que só uma sociedade civil melhor organizada do que nas hashtags das redes sociais pode cobrar aos seus governos —, a hesitação prevalecerá.

E é porque a hesitação tem prevalecido num quadro político extremamente complexo que o grupo terrorista Estado Islâmico pode robustecer-se.

Dependendo das reações e respostas dos próximos dias, saberemos com o que podemos contar no futuro. A organização deverá estar interessada em continuar a crescer pela via do saque, da pilhagem e do terror, contribuindo para uma mudança mais ou menos gradual na Europa a caminho do fechamento da sociedade. Mas nalgum ponto da sua trajetória pode preferir abandonar as práticas de sangue para se impôr como um parceiro económico e político aceite com mais ou menos relutância.

A História não é grande conselheira: não faltam estados nascidos de banhos de sangue, saques e pilhagens. E neste momento o Estado Islâmico está a vencer as civilizações que decidiu aterrorizar.

Texto: Paulo Querido

Aprofundar

Islamic State: Where does jihadist group get its support? (Michael Stephens/BBC): The horrific acts committed by IS are difficult for anybody to support, but its goal of establishing a caliphate is certainly attractive in some corners of Islamic thought. IS exports about 9,000 barrels of oil per day at prices ranging from about $25-$45 (£15-£27). The point is that Islamic State is essentially self-financing; it cannot be isolated and cut off from the world because it is intimately tied into regional stability in a way that benefits not only itself, but also the people it fights. The larger question of course is whether such an integral pillar of the region (albeit shockingly violent and extreme) can be defeated.

Why do our youth want to join ISIS? (Samudrani/Maps of India): How Is Life Working Out for Them? From the evidence, it cannot be said with certainty that life has been kind to all of them. Some of them – really educated people – have had to leave their educational institutions and look for alternative paths to get their lives back on track. A computer engineer, who was caught before he could join ISIS, is now studying interior designing and looking to get into the furniture business of his family. However, there are also instances where some of these youngsters have been so overwhelmed by the cordial behaviour of police that they have joined the police force instead. One thing though can be said for sure – the path for these deviant youngsters to be brought back to the fold is indeed a long one.

Obama, seguro de si, cabeça da NATO, veio explicar que os EUA vão fazer o que sempre fizeram – economia de guerra (Raquel Varela): E aí começa o primeiro problema, metade da produção da Boeing, da GM e da GE são directa e indirectamente economia de guerra; o segundo é a pilhagem de recursos no Médio Oriente que leva a que o ocidente vá criando monstros que se transmutam de acordo com as tácticas dos Estados ocidentais transformando o quotidiano daqueles povos numa Paris bárbara, mas todos os dias – morrem na Síria 180 pessoas por dia e não se pode assumir que um ataque em Paris é um ataque à humanidade e um na Síria é um ataque aos Sírios. A grande maioria dos emigrantes, a esmagadora maioria, aceita viver num gueto e não ter futuro e direitos políticos, e infelizmente não reagem politicamente a isso, mas uma parte, ínfima, já nascida na Europa em muitos casos, a quem é recusado futuro, escola decente (têm programas adaptados), sem emprego, sem vida aceita ser literalmente carne para canhão não de Alá mas de uma fracção religiosa que lhes é o único Estado Social que conhecem.

O que é o Estado Islâmico? (Graeme Wood/The Atlantic/Público): O autoproclamado Estado Islâmico não é um simples grupo de psicopatas. É um grupo religioso com crenças cuidadosamente pensadas, entre elas a de que será ele o agente do apocalipse que se aproxima. Aqui explicamos o que isso significa para a sua estratégia — e como acabar com ela.

A Estratégia do medo… (João Fernando Ramos/I): O mundo demorou a acordar, deu tempo ao Estado Islâmico para crescer, solidificar fontes de financiamento e conquistar um território suficientemente grande para se tornar um alvo difícil.

Islamic State Financing and U.S. Policy Approaches (Carla E. Humud, Robert Pirog, Liana Rosen/Congressional Research Service): For example, documents describing ISI operations in Sinjar reveal a group that was reliant on incoming foreign fighters for funds, internal transfers from other areas under ISI’s control, local donations, and conflict loot. Other areas under ISI’s control were reportedly funded through oil revenue, agricultural production, ransom payments, and external donors.

Islamic State: the Economy-Based Terrorist Funding (Jean-Charles Brisard and Damien Martinez/Reuters): Given the importance of these figures, it is likely that the organization of the Islamic State is trying to enter the mainstream economy either through the banking system or via certain industrial sectors, especially energy and commodities. In this respect, IS represents an unprecedented level of risk.

The Islamic State’s Backdoor Financing (Matthew Levitt): In Syria, the Assad regime not only allows banks to continue servicing branches in ISIS-held areas, it also appears to use these services to further its own business interests with the Islamic State. On March 7, for example, the European Union sanctioned a Syrian businessman with close ties to Damascus for serving as a middleman in regime deals to purchase oil from ISIS.

The Economist explains. Where Islamic State gets its money (The Economist): IT WILL not be easy to defeat the brutal jihadists of Islamic State (IS), as the American-led coalition against the group aims to do. IS is one of the best-financed terrorist organisations in the world, except for state-backed ones. There is no credible estimate of the secretive group’s net worth, but in October 2014 an American official described it as amassing wealth at “a pretty massive clip”. It pays fighters around $400 a month, which is more than Syrian rebel groups or the Iraqi government offer. It appears to have no trouble purchasing weaponry, either on the black market or from corrupt officials or militias. And it runs services (even if not always successfully) across the areas it controls, paying schoolteachers and providing for the poor and widowed. So where does it get all its cash from?

Baixo custo do financiamento do terrorismo (Orlando Mascarenhas/Visão): Os ataques terroristas de custo mais baixo são, nos tempos atuais, aqueles que maior preocupação devem colocar às políticas de contraterrorismo implementadas pelos Estados.

Comprendre la situation en Syrie en 5 minutes (Delphine Papin, Donald Walther, Henri Olivier, Jules Grandin, Flavie Holzinger e Francesca Fattori/Le Monde): Après quatre années de combats sur son territoire, la Syrie est devenue bien plus que le théâtre d’une sanglante guerre civile. Elle est aussi la scène d’un affrontement par procuration entre les puissances régionales sunnites et chiites ainsi qu’entre les grands frères ennemis que sont les Etats-Unis et la Russie. Par ailleurs, l’expansion djihadiste sur son sol n’en finit pas d’aggraver la situation. Pour y voir plus clair, voici un résumé de la situation en graphiques et en cartes.