OFFF: um festival inspirador no Porto


OFFF

2015 foi o ano da chegada do festival itinerante OFFF à cidade do Porto.

A cidade que se tem tornado cada vez mais um ponto de referência do design a nível nacional – e internacional – recebeu este ano, pela primeira vez, a edição do OFFF, organizado sob o mote “lets feed the future”.

O conceito é simples e a fórmula tem vindo a ser replicada há uma série de anos, não fosse o OFFF Porto a 15ª jornada de uma aventura levada a cabo pelo único e inconfundível Hector Ayuso. Barcelona, Cincinnatti, Mexico, foram algumas das paragens anteriores desta espécie de dirigível inspirador que tem voado pelo mundo.

offfporto15_02

Conferências, workshops e instalações no contexto de festival são os três igredientes principais desta receita que já provou fazer sucesso. Sempre com foco no futuro mas um respeito incrível pelo legado que o festival já vai tendo, às apresentações criativas junta-se o ambiente distinto e o testemunho dos que hoje estão em palco, não deixando dúvidas de que o OFFF, mais do que uma conferência, pode ser a inspiração necessária para o futuro.

 

Dia 23

09h30 – Workshop This Is Pacifica

O programa de festas apontava para as 9:30h o primeiro momento do festival. Com o selo da EDIT, o conceituado estúdio local This is Pacifica abriu as hostes com um workshop sobre o Erro e o seu potencial sentido. Em 3h de conversa, passaram-se em revista alguns dos melhores erros, entre trabalhos do estúdio e outros exemplos do quotidiano. Com recurso a técnicas alternativas e algumas completamente aleatórias, como o glitch em txt ou a geração de grafismo através de scripts, foi então a vez dos participantes explorarem os seus erros tendo como ponto de partida um auto-retrato. Os resultados podem ser vistos no instagram, na hashtag #errorwithsense.

#errorwithsense Workshop This Is Pacifica @ #OFFFPorto

A photo posted by Shifter (@shifterpt) on

15h30 – Workshop Valleé Duhammel

O segundo momento do dia era, para nós, um dos mais aguardados momentos do festival. A dupla Valleé Duhammel preparou um workshop sobre o absurdo. A sessão tinha trabalho de casa prévio, era suposto que cada participante tivesse levado consigo dois objectos para trabalhar. Com o foco no craft work, fomos convidados a pôr literalmente mãos à obra e, de uma sala repleta de cartolinas, papeis coloridos, tesouras, linhas e agulhas, nasceram as mais diversas criações. Houve gifs animados, fotografias tratadas com jogos de ilusão óptica, e houve quem vestisse as estátuas da sala do cinema Batalha com recurso a adereços produzidos na sessão.

Workshop Vallée Duhamel @ #OFFFPorto

A video posted by Shifter (@shifterpt) on

offfporto15_03

19h00 – Conferência OPEN TITLES com Hector Ayuso

A abertura das conferências do festival ficou a cargo de um dos principais anfitriães, Hector Ayuso, um dos co-fundadores desta ideia que tem guiado o OFFF pelas suas 15 edições. Mestre na arte de falar em público partilhou com o público a sua paixão pelo mundo da criatividade e alguns segredos que a alimentam. Entre vídeos, aplausos e gargalhadas, estava a dado o pontapé de saída para 2 dias preenchidos.

Como nota fica o anúncio do próximo projecto de Hector, anunciado pela primeira vez no festival,  a Unstate/, uma revista que criou com o seu irmão, e uma ideia simples: “You are and idea away from something brilliant!”

offfporto15_04

20h00 – Conferência Vhils

A conferência de Vhils era um dos momentos altos do dia e de todo o festival. O momento era de expectativa, essencialmente por ser a primeira apresentação pública de Alexandre Farto aka Vhils.  A escolha do OFFF para tal feito foi justificada pelo artista ao longo da apresentação que começou com uma viagem pela sua vida e trabalho que, como o próprio confessou, começou como espectador do festival. Dos graffitis em comboios na margem sul aos tags em Barcelona nos intervalos das conferências de uma das primeiras edições do OFFF, ao videoclip dos U2 e trabalhos em favelas no Brasil, Vhils dissecou todo o seu percurso e carreira, com um discurso pessoal e nervoso, talvez pelo sentimento de estar num palco para o qual sempre olhou da plateia.

A apresentação acabou por ser um decorrer de portefólio e de alguns dos mais conhecidos trabalhos do artista, com pouco foco nos processos, técnicas e  bastidores, mas onde não faltaram agradecimentos à equipa que tem por perto.

offfporto15_05

Dia 24

11h00 – Conferência Solid Dogma

Uma apresentação que levou muita gente a acordar cedo e que acabou por deixar na dúvida quem foi à procura de respostas sobre o futuro desta agência. O ambiente descontraído e o tom menos inspirador da sessão de Solid Dogma deixou no ar a curiosidade do que a agência pode trazer ao mercado e do que cada um dos intervenientes pode trazer a agência. Pedro Pires abriu as hostes enquanto Diogo Potes, Samuel Simões, Vulgo Axiom e André Santos esperavam pela sua vez. As apresentações foram díspares e, para quem conhece as personagens, ficou a sensação de que ficaram aquém. Quem não conhecia não ficou a conhecer melhor, com discursos pouco focados em trabalhos antigos e mais na criatividade pessoal de cada um.

De realçar é a apresentação gráfica da agência, o seu vídeo de apresentação e a ausência de Vhils que, enquanto criador do projecto, não marcou presença naquela que foi a apresentação da sua agência.

offfporto15_06

12h00 – Conferência Vasava

Enric Godes, em representação do estúdio de Barcelona Vasava, deu uma lição de compostura aos portugueses que o antecederam e mostrou que as mesas não servem para sentar. Numa apresentação altamente guiada pelo seu portefólio, onde mostrou a versatilidade e entrega a cada projecto, é de destacar a abordagem quase camaleónica do estúdio. Apesar de manter sempre altos padrões, o estúdio evita ao máximo as trends e vícios fáceis que podiam fazer do seu trabalho demasiado seu, demasiado assinado. As soluções Vasava são assim um misto entre criação autorial e orgânica, com o refinamento técnico de um lado e a diversidade estética de outro.

Com Vasava houve tempo e espaço para ensinamentos e conselhos que permitiram perceber um bocadinho melhor o funcionamento interno da agência e o caminho que percorrem até aos trabalhos invejáveis que produzem.

offfporto15_07

15h00 – Conferência Hellohikimori

A dupla francesa dispôs-se no palco ao centro, por trás da mesa e dos laptops, de forma a fazer lembrar um dj set e, embora a temática não seja a música este não deixa de ser um óptimo paralelo para o estúdio parisiense. Hellohikimori mostraram-nos com uma revista pelo seu processo e projectos como transportam uma onda mais urbana para um universo “high tech” em projectos com técnicas tão avançadas como o webgl – uma linguagem de programação que permite criar gráficos em páginas web.

Os actores da sessão eram dois dos cabecilhas da agência e a personificação do espírito do seu trabalho. O designer e o programador, creative director e lead interactive developer, espelharam a componente tecnológica do trabalho gráfico que desenvolvem. A isso, aliaram umas dicas para lidar com clientes e uns slides e discurso engraçados mas explicativos.

offfporto15_08

16h00 – Conferência Spin

Spin apresentou-se como o estúdio do design intelectual, mostrando mais referências de design que qualquer outro. A conferência começou como um tour pelo escritório do estúdio e terminou numa espécie de venda ambulante de livros. O estúdio apresentou uma editora própria, a Unit Editions, um projecto que mostra o gosto pelo research e pela canonização do design enquanto disciplina.

Numa apresentação que acabou por se tornar monótona e demasiado expositiva, a qualidade do trabalho acabou ofuscada pela burocracia da conferência. Tecnicamente, mostraram que são um dos estúdios mais rigorosos.

offfporto15_09

17h00 – Conferência MILL +

MILL é um clássico e o nome a quem ninguém no mundo da criatividade consegue ficar indiferente. MILL + é uma novidade e promete uma abordagem alternativa, aliando a qualidade a que MILL nos habituou à veia indie de ter menos recursos, menos espetacularidade mas mais criatividade e forward thinking.

MILL + é o estúdio onde vale tudo e prova disso é o trabalho da dupla de realizadores Bif para o OFF Porto. Depois de terem sido elogiados vezes sem conta por Hector Ayuso durante a sua apresentação no dia anterior, as expectativas estavam altas e não saíram defraudadas. Percebemos que a ideia para o vídeo surgiu quase por acaso, com templates encontrados na internet, mas o resultado final acaba por ser harmonioso com o festival. A restante conferência foi a prova de que o projecto-piloto da conceituada Mill  que tem muito por onde crescer.

offfporto15_10

18h00 – Conferência Vallée Duhamel

A presença deste estúdio neste momento é tão inusitada que até os próprios se mostraram surpreendidos por pisarem o mesmo palco de Vasava ou MILL. Não porque o seu trabalho seja de qualidade mais fraca mas porque é muito diferente daquilo a que estamos habituados, como tivemos oportunidade de ver no dia anterior no workshop da dupla. Julien Valeé e Eve Duhamel foram a dupla mais carismática a pisar o palco, e se isso pode parecer irrelevante, vale a pena ver o trabalho e a forma como o carisma high class, lo-fi o afecta.

Foi precisamente na diferença que focaram a sua apresentação e acabaram por partilhar uma série de coisas em que são obcecados e usam em todos os seus projectos, de gatos a buracos negros as in “quando não sabem o que fazer com uma coisa, façam-na desaparecer num buraco negro.” 

offfporto15_11

Texto: João Ribeiro e Rita Pinto
Fotos: Renato Cruz Santos