Rui Cruz: “Quando se vê o que não se quer ver, fica-se deprimido”


No próximo dia 11, Rui Cruz lança-se pela primeira vez a um solo. Cego, Surdo e Mudo promete lançar flechas afiadas à sociedade contemporânea e quebrar barreiras no humor político.

Para conhecer mais do homem por detrás do espetáculo, marcamos um café no foyer do teatro Villaret. Cruz recebe-nos vestido de preto da cabeça aos pés durante o tempo livre que tem entre a escrita de guiões de um programa de culinária. Em conversa longa, dissecam-se os principais problemas dos portugueses, questiona-se o humor enquanto arma e conhecem-se histórias ébrias de Arganil e Coimbra.

Pausa-se agora a voz do jornalista e ouve-se a do comediante. Cruz tem muito para dizer e o pouco que não diz jura que poderá ser ouvido na próxima quarta-feira. O escriba obedece. Que role a bola (mas sem fazer piadas).

 

Como é que um tipo assumidamente tímido se lança a uma sala de 300 pessoas a solo?

Senti que era a altura de dar o salto e de tentar fazer as coisas sozinho. Tenho estado — desde que comecei há quatro anos — sempre em grupos, primeiro com os Aristocratas, depois com Overdose e Ruído Negro e agora com os Anjos Negros; senti que era a altura certa de ver o público que tenho estando sozinho. Quero avaliar se consigo fazer um espetáculo sem estar suportado por outros comediantes ou amigos.

Tens-te sentido, de algum modo, na sombra do trabalho do Rui Sinel de Cordes ou do Paulo Almeida?

Não, não me sinto sequer menosprezado, mas acho que chega um momento nas nossas carreiras — como aconteceu por exemplo com os Monty Python — em que temos necessidade de dizer só as nossas coisas e de mostrar que também conseguimos ter o nosso caminho.

O processo criativo deste espetáculo parte do storytelling pessoal ou é moldado em volta da opinião que tens em relação aos temas da atualidade?

O Cego Surdo e Mudo será mais sobre o caos em que o mundo se está a tornar. É um espetáculo de observação; coloco-me numa perspetiva exterior e comento o que se passa à minha volta em vez de contar detalhes sobre a minha vida. Claro que o stand up acaba sempre por ser pessoal e vou acabar por bater em coisas que fiz ou que se passaram comigo, mas no geral será uma espécie de missa do sétimo dia à sociedade, que está a caminhar todos os dias para um ponto sem retorno. Acho que é necessário haver uma voz com consciência, e eu quero ser essa voz, na linha de alguns dos meus heróis, como o George Carlin, o Bill Hicks, o Luiz Pacheco ou o Vilhena foram antes de mim.

 Comparares-te a nomes tão sonantes não é nadar fora de pé?

Acho que não, primeiro porque tenho um ego enorme; as pessoas que me conhecem há mais tempo dizem que sou convencido — o que acho que não é verdade; penso que sou só uma pessoa realista que sabe o valor que tem. E depois, porque não tenho medo de dar um passo maior do que a perna; tenho medo se a sala estiver vazia, não tenho medo daquilo que vou dizer. Se puder chegar ao nível desses escritores e comediantes que citei, ótimo, se não conseguir fico muito contente com este nível que é o meu e que foi trabalhado apenas e só por mim.

É assim tão diferente construir este tipo de espetáculo? Estás a ter maiores dificuldades do que quando fizeste os Anjos Negros e o Overdose?

Tens uma maior responsabilidade, mas de resto o processo de escrita acaba por ser semelhante. Tenho talvez de o preencher com mais momentos — num espetáculo de vinte, trinta minutos consegue-se condensar melhor a mensagem —, de escrever mais e alargar o que quero dizer. O meu processo de escrita não mudou muito ao longo dos anos; a diferença está na qualidade e não no processo.

Como é que se evita que um espetáculo de stand up comedy seja somente um agregado de punchlines?

Cada comediante tem o seu método. Há comediantes cujo o espetáculo é um agregado de punchlines e de piadas rápidas; e não tem mal nenhum nisso, basta veres o exemplo do Jimmy Carr, que é um dos melhores a nível mundial. Eu gosto de ver esse tipo de espetáculo, mas não sinto que seja aquilo que quero fazer em palco. Os comediantes que mais me tocaram fizeram-no através da intervenção social misturada com spoken word, e como me identifico mais com esse tipo de humor, acaba por ser o caminho natural a seguir.

Há a tentação de “ir ao público” neste Cego, Surdo e Mudo?

Eu não costumo interagir muito, a menos que o primeiro contacto parta do público; interajo só se acrescentar alguma coisa. Há uma corrente de stand up — muito defendida por escolas como a Bang e outras — que diz que o espetáculo só é completo quando o comediante interage com a plateia, o que acaba por ser penoso, porque a maior parte dos comediantes que segue essa corrente força o contacto, tornando a coisa pouco natural e até incómoda para a plateia.

Irritou-te a geração Bang?

Sim, por uma razão: aquilo que a escola Bang defendia enquanto modelo de stand up é tudo menos aquilo que eu acho que deve ser um espetáculo de stand up. São as formatações, as regras. Tens de interagir sempre com as pessoas, há módulos só de interação com as pessoas. Tu consegues datar o pessoal que tirou lá o curso e que não evoluiu pelas punchlines que continuam a fazer. Pessoal que ainda continua a fazer piadas com a Elsa Raposo é pessoal que saiu de lá em 2010, pessoal que faz piadas com o José Carlos Pereira saiu em 2011… Depois irritava-me o modelo de negócio; a maior parte dos comediantes ia atuar de borla e era explorada pelos bares, e isso não pode acontecer por duas razões: primeiro porque estás a dar o teu trabalho e deves ser pago por ele, segundo porque se estiveres dois anos atuar de borla não vais saber o que é a responsabilidade de teres alguém que pagou para te ver e que tem de receber um bom espetáculo. Se não tiveres isso tu não cresces.

Ganhaste mais em não ter sido ensinado?

Eu fui ensinado, tirei um curso nas Produções Fictícias entre 2010 e 2011 e fui aluno do Salvador Martinha e do Luís Franco-Bastos. A Susana Romana, que dava esse workshop, é uma excelente professora, tal como o Salvador. Aprendi coisas boas lá, mas ninguém sai de um curso de comédia a ser comediante. Tu sais de um curso destes com bases para escrever comédia; quando sais, cabe-te inteiramente a ti o resto da tua formação; tens de ver muita coisa, de ler muita coisa,de falhar muita vez e de acertar muito também; tens sobretudo de viver. Quanto mais culto fores, mais fácil é fazer humor.

A tua escrita difere da dos outros comediantes por teres vindo de uma vila pequena como Arganil?

Tenho a certeza de que sim, porque me vejo em Lisboa como um peixe fora de água; vejo-me com um olhar exterior e posso absorver todas as idiossincrasias típicas dos lisboetas e dos citadinos que na minha aldeia não existem. Lá toda a gente se conhece; aqui em Lisboa é tudo muito impessoal, há imensas regras de etiqueta que vocês não notam porque estão habituados, e que eu acho extremamente engraçadas. Depois há também os próprios grupos sociais; a maneira como os betos, os góticos se vestem e se agrupam, aquelas microculturas…

Há mais razões para rir de Lisboa do que de Arganil?

Há motivos diferentes. Mas há muita coisa com que rir em Arganil; há a gebaria extrema de uma aldeia, onde um homem bate na mulher mas é bem visto; onde a mulher bate no homem, mas o marido é que diz que lhe bate; há as bebedeiras às oito da manhã e a ignorância em relação à política e à atualidade. Tudo isso é engraçado. Preocupante, mas engraçado ao mesmo tempo. Em Lisboa, há uma coisa que acho hilariante e que os lisboetas não percebem, que é o pedantismo da capital. Quem está cá não percebe, mas a maneira como olham para resto o país enquanto província ou como comem bifanas de roulotte com um guardanapo XPTO é hilariante.

Foi o ambiente ébrio de Coimbra que tornou possível a tua carreira de humorista?

Não sei se tornou possível, mas que deu um grande empurrão deu. Nós em Coimbra tínhamos muitos passatempos que envolvem álcool e drogas leves e culminam em longas horas em frente à televisão a ver programas de comédia. O primeiro espetáculo de stand up televisivo que vi foi em Coimbra— vi, salvo erro, primeiro o do Seinfeld e a seguir o do Dane Cook. As séries que me marcaram, como o League of Gentlemen, vi-as lá. Era quase sagrado fumar petardos, beber bohemia e ver filmes maus.

Mencionas o teu avô como uma das tuas grandes influências. Em que sentido é que ele foi realmente importante para começares a escrever comédia?

A minha história com a comédia começa muito cedo, vem dos meus nove anos. O meu avô era um contador de histórias nato; toda a vila de Arganil sabia disso e adorava-o. Quando ele morreu, colaram o chapéu dele na parede do café que costumava frequentar, porque passava a tarde inteira a contar histórias e piadas a toda a gente que passava ali; era mobília. O modo como ele cativava as pessoas através da palavra e da piada fez com que eu pensasse que era possível para mim fazer o mesmo através dos mesmos. Depois, tive a sorte de o meu pai me oferecer um livro do Woody Allen aos nove anos, que foi provavelmente a melhor coisa que me aconteceu na vida.

O que é que te ensinou esse livro?

Ensinou-me muita coisa, sobretudo que é possível ter piada a cada linha e que é possível fazer piadas com coisas aborrecidas ou que inicialmente não seriam objeto de piada, como por exemplo a filosofia. Se a filosofia ou a religião forem pegadas pelos ângulos certos podem ser gozados de certeza. Depois, houve outra particularidade que me influenciou bastante: como a minha mãe é retornada de Angola, o próprio modo como ela via o mundo arganilense, que não era o mundo dela — porque chegou a Portugal quando tinha catorze anos —, fez com que eu próprio começasse ver o mundo de uma forma diferente. Como a minha mãe era um peixe fora de água, tornei-me num peixe fora de água também. Juntando o meu avô, esse livro do Woody Allen e as vivências da minha mãe, estavam reunidas as condições para começar a escrever comédia.

É mais fácil digitar um piada no computador ou dizê-la à frente de uma plateia?

Neste momento é mais fácil dizer uma piada em frente a uma plateia do que escrevê-la no computador, porque quem está num espetáculo teu foi lá para te ouvir. Já na internet, há os gebos e o pessoal ofendidinho que te escreve um comentário negativo sobre uma piada de que não gostou e que chama os amigos para te atacar depois. De repente abres o Facebook e tens trinta mil pessoas a dizer que és uma besta e que devias morrer e bloquearem-te a página e a apagar-te posts.

Tornaste-te inabalável em relação à crítica? Sempre ignoraste esses comentários?

No princípio era completamente inabalável; achava que eu é que sabia tudo e que quem não gostava era burro. Para o meio, as críticas começaram a afetar-me um bocado mais, mas como sempre defini o caminho que queria seguir nunca deixei que tivessem grande efeito em mim. Talvez até tenha feito com que quisesse chegar mais longe através desse caminho. Hoje sinto-me completamente à vontade. Não tenho problemas com as críticas. Não me empolo com as positivas, mas também não deprimo com as negativas.

Já apagaste piadas?

Não, nunca apaguei uma piada. Se tirei piadas do meu set de stand up comedy não foi por alguém estar ofendido, mas por achar que não resultavam tão bem como poderiam resultar. Muitas delas até as reformulei mais tarde. Agora, por ofensas a ninguém nunca apaguei. 

Forças-te a estar sempre de smartphone na mão para poder ser o primeiro a reagir às notícias da atualidade?

Não me forço, mas acho que já se tornou um hábito. Sempre fui um tipo que leu muito e que esteve sempre em cima das notícias; gosto de saber o que se passa à minha volta. Apesar de não me obrigar — tento fazer uma piada pelo menos todos os dias, mas isso é para não perder o treino —, dou por mim aflito por serem quatro ou cinco da tarde e ainda não ter visto as notícias. Nas férias até tentei desligar o telemóvel; não consegui mas estive lá perto.

Há algo de urgente a dizer neste momento?

Neste momento é urgente dizer algumas coisas, sim. Olhamos à nossa volta e temos os refugiados, a completa automatização da sociedade com os reality shows, a falta de cultura que é quase louvada. No meu tempo — e digo isto como se fosse muito velho —, o burro da turma podia ser engraçado mas era gozado, hoje em dia esse burro é o maior da escola; é alguém que diz que não quer saber de política e a quem se bate palmas. Isto assusta-me. O Geordie Shore, a reality tv do TLC… Tenho ataques de pânico a ver aquilo. Houve duas ou três vezes em que a minha namorada estava a fazer zapping por esses canais e tive arritmias a ver aquilo. Preciso de tirar isto do meu peito e de mostrar que este não é o caminho. Pode ser ouvido ou não, mas pelo menos a minha consciência fica limpa.

Publicitas este espetáculo como sendo uma “sessão de terapia que o comediante faria”. Vai mesmo haver um lado terapêutico no Cego, Surdo e Mudo?

Não tenho dinheiro para um psicólogo, mas dava-me muito jeito ter, porque há coisas que deixam completamente sem forças. As novas gerações deixam-me assustado pela falta de referências que têm. Fico enervado só de falar nisto… Como é que um miúdo pergunta por que é que os Beatles roubaram o Kanye West? Como é que se perdeu o gosto pela cultura, por aprender? Isto é sintomático; basta veres que não tens um filósofo político a pensar um sistema desde o final do século XIX. A nossa sociedade parou de pensar. É louvada a paragem do pensamento. O pensador é um nerd, chato e aborrecido. O mundo quando não tem pensadores acaba no 1984 do Orwell, que é para onde acho que andamos a caminhar.

Porque é que o humorista é quase sempre deprimido?

O humorista é deprimido porque, tal como o escritor ou o músico, vê as coisas de uma maneira mais profunda do que a maior parte da sociedade. Os artistas são mais sensíveis e forçam-se a ver aquilo que passa despercebido aos olhos do resto das pessoas — que andam ocupadas com a comida dos filhos, com os horários de trabalho e essas coisas todas. O artista inspira-se nas pessoas e naquilo que está a sua volta, logo tem de estar mais atento. Estando atento, vê-se coisas que não se quer ver. Quando se vê o que não se quer ver, fica-se deprimido.

Como é que se vende a ideia de que um humorista sensível é capaz de fazer piadas sobre uma violação?

Nenhum humorista está a dizer que as vítimas de violação são umas porcas que mereceram ser violadas; a situação é que pode ser engraçada. As incongruências — como por exemplo a irmã da irmã Lúcia atropelar mortalmente sete peregrinos — e a ironia da situação é que tem piada. É engraçado conseguires juntar trinta idiotas na índia para violar uma mulher e não conseguires juntar trinta amigos para jogar à bola em Lisboa. Se chegares a um palco e disseres só que “aquela é uma porca porque foi violada”, não estás a fazer humor negro, estás a fazer humor Negrais. De leitão mesmo. Nem todo o humor negro é bem feito, sobretudo porque há muita gente que confunde negrume com estupidez. Basta olhares para os gebos que enchem as minhas caixas de comentários para perceberes isso.

No entanto, são esses gebos que compram os bilhetes para o teu espetáculo…

Nem todos, mas há de tudo. Nesse aspeto sou como o Cobain; há pessoas que seguem o meu trabalho que eu preferia que não seguissem. Não quero ter um gajo do PNR que bate em pretos e que cospe em homossexuais a ver o meu espetáculo e a aplaudir. Já bloqueei algumas pessoas que gostavam até das minhas piadas mas que faziam comentários agressivos e completamente despropositados. O comediante não é responsável por aquilo que as pessoas absorvem das piadas, tal como o Nabokov não é responsável por um pedófilo que lê o Lolita e decide violar uma miúda.

Foste um dos responsáveis pela escrita do Sábado à luta e de outros conteúdos dos irmãos Duarte. Porque é que o humor interventivo e absurdo deles não resultou tão bem na generalista?

Na minha opinião, houve vários fatores que fizeram com que o programa não resultasse como deveria ter resultado. Um deles foi o condicionamento que surge por trabalhares com uma generalista; condicionar o humor irreverente e de choque como é o do Jel e o do Vasco no uso de uma personagem demasiado antagónica segundo os padrões da sic — como é o caso do Carlinhos o machista gay — limita à partida um programa que tem um universo criado; se não podes usar uma das personagens mais queridas do público original, perdes grande parte da força. Depois houve também o esgotamento; os Homens da Luta ganharam o Festival da Canção e aí sim deveriam ter tido o programa numa generalista, nunca três ou quatro anos depois de já estarem esgotados. Depois, houve também problemas decorrentes da própria produção de conteúdos. Houve sketches que resultaram muito bem e outros que resultaram muito mal, porque o ambiente de escrita e de produção era tenso. As generalistas não dão tempo para os programas amadurecerem; imagina, se tens um programa que estreia com novecentos mil espetadores e na semana seguinte baixa para oitocentos mil, começas a receber chamadas em que te dizem que caso os números não melhorem, o programa passa para as três ou quatro da manhã.

Não houve então uma falha de compreensão no humor político que se propunham a fazer?

Acho que não, porque os Homens da Luta são personagens populares. Não eram, mas tornaram-se personagens populares; são a coisa mais parecida com o Agostinho e a Agostinha ou com o Senhor Feliz e o Senhor Contente que apareceu nos últimos vinte anos. O programa era visto pelo público classe A — que são os políticos e figuras de chefia — e pelo público classe D, de origens humildes em Rio Tinto e afins. A classe B e C não chegava a vê-lo. Naquele espectro de personagens, acho que o humor político foi bem feito. Agora, o que eu acho é que a maior parte dos humoristas que hoje em dia tenta fazer humor político o faz mal por uma razão: porque não tem conhecimento de política. Nesse caso, o Jel é diferente; tem um saber enorme e e por isso faz quando quer humor assertivo ou popular. Em Portugal tu tens seis ou sete humoristas que consigam fazer humor político como deve ser, porque são os únicos que percebem de política.

Queres dizer quem são esses humoristas?

São o Ricardo Araújo Pereira, o João Quadros, o José de Pina, eu, o Filipe, Homem Fonseca, o Jel, O Vasco Duarte, o Cláudio Almeida e a Cátia [Domingues], minha namorada.

Como é que vês o final do Tubo de Ensaio?

É pena, porque era um programa bom e faz-nos falta esse humor mais diversificado na rádio e nas televisões. Hoje em dia o humor é todo banal e bacoco, feito para não chatear ninguém, e o Tubo chateava. O humor precisa de chatear, de ser interventivo e acintoso, senão são as piadas do Camilo repetidas vinte vezes, como é o DDT ou o Estado de Graça — aquilo é a Revista à portuguesa de 1936 feita em 2015 na televisão. Na rádio passa-se o mesmo; apesar de nem sempre ter sido bom ou certeiro, aquele programa chateava, era um espaço que agora faz falta.

É fácil fazer humor com este governo?

Este governo deu-nos muito material, isso é um facto. Desde a Tecnoforma ao Relvas, passando pela Assunção Esteves ou o Citius… É sempre fácil fazer humor com a autoridade, até porque a autoridade sempre foi o alvo do humor. Se um governo nos der vinte Ferrari vai ser fácil fazer piadas na mesma, porque foram vinte e não vinte e um bólides. Com este governo houve tantos casos que tudo aquilo nos pareceu dado de bandeja para gozar. Depois, temos um primeiro ministro que não tem propriamente o dom da oratória ou grande conhecimento. Um gajo que em campanha diz que leu a Fenomenologia do Ser do Sartre, que é um livro que não existe, e que ainda acrescenta que é o livro preferido dele só dá para gozar, não?

O Rui Ramos está assim tão errado quando diz que todos os humoristas são de esquerda?

Está erradíssimo. O Zé Diogo Quintela é de direita, por exemplo. O próprio Sinel de Cordes não é um humorista de direita; não tem ideologia política, mas se tivesse andaria muito próxima do Partido Popular Monárquico. Mas há uma grande diferença: tendencialmente, o pessoal que é de esquerda acaba por ter um pensamento mais livre, um pensamento mais fora da caixa, enquanto que o pessoal de direita é mais conservador. Acho aliás que humoristas realmente de esquerda há poucos; há muitos humoristas que não são necessariamente de esquerda, nem de direita. Esse foi um paradigma criado pelo Herman; se reparares, os humoristas não assumem a cor política, seja ela qual for; isto porque o Herman não tinha nem partido nem clube de futebol. Diziam que o humorista não pode ter partido porque perde a parcialidade. Desde quando é que o humorista tem de ser imparcial?

O futebol continua a ser o único tema sagrado e intocável no humor?

É o tema mais complicado de abordar. Tu podes fazer trinta piadas de cancro e quarenta de violações que a primeira ameaça de morte que recebes é no dia em que fazes uma graçola com um clube de futebol ou com uma claque. É absurdo como um desporto consegue criar tanto fanatismo.

É fácil para uma mulher ver este teu espetáculo? Grande parte das piadas resvala para misoginia.

É fácil ou difícil para qualquer pessoa, depende sobretudo dos gostos dela. Não faço distinção entre homem e mulher ou preto ou branco. A misoginia é engraçada, como o feminismo exacerbado é engraçado, porque é tudo gebaria e a gebaria é engraçada. Tem tanta piada ser misógino quanto invadir barbearias e dizer que os homens são todos uns filhos da puta que roubam trabalho e que recebem mais. Tudo o que é extremo é hilariante. O Hitler é hilariante. Um gajo racista ao ponto de achar que uma mesa preta é burra por ser preta é hilariante. Ver o Cego Surdo e Mudo não é mais difícil para uma mulher do que para um homem; a pessoa em questão tem é de gostar do género de humor que faço.

Acreditas no lado prático do Humor? O Ricardo Araújo Pereira defende, por exemplo, que o humor não tem utilidade porque não derruba governos.

Esse raciocínio está errado logo à partida, porque na história tiveste, por exemplo, o bloco soviético a cair graças a piadas. O comunismo foi tão minado e tão ridicularizado que perdeu força. O Relvas sai do governo não porque lhe descobriram um escândalo, mas porque durante três semanas tiveste mil e tal piadas a serem feitas sobre a licenciatura dele. O meu avô materno, que esteve ligado à luta contra o regime, contava-me que o próprio departamento de propaganda do Salazar tinha uma secção de humor para fazer piadas pueris sobre o Salazar; não para ridicularizar, mas para o tornar mais popular junto do povo. O humor tem um lado prático tremendo. Há uma coisa de que não gosto no Ricardo Araújo Pereira, que é a desresponsabilização do humor que ele faz. O Ricardo sabe que é a voz de uma geração e que pode ser uma força de mudança, mas parece-me sempre que tem medo de tomar essa responsabilidade; usa sempre o argumento de ser um palerma que diz coisas quando não é palerma nenhum. O humor dele teria se calhar até mais força se ele assumisse o que quer realmente dizer. As pessoas iriam vê-lo como um líder, como alguém que diz as coisas certas no momento certo, pensariam como ele. Chateia-me bastante isso nos Gato: eles têm tudo para ser opinion makers, porque sabem que têm influência, mas não querem assumir essa responsabilidade.

Podemos dar-lhes credibilidade, fugindo eles às suas responsabilidades?

Podes dar credibilidade, claro. O Ricardo, que é o mais mediático de todos, já provou ter opiniões vincadas em vários assuntos, como o casamento homossexual ou a despenalização do aborto. O sketch dele com o professor Marcelo teve um efeito prático na sociedade e ele sabe que teve. Depois há este lado mesquinho da coisa: desresponsabiliza-se o humorista porque o humor não tem força, mas depois o humorista é responsabilizado porque ofendeu alguém. Qual é que é o peso e qual é a medida, afinal?

Qual foi a maior conquista do teu humor até agora?

Talvez ter feito com que algumas pessoas lessem alguns livros que considero essenciais e que vissem debates parlamentares, que fazem falta a muita gente. Consegui também fazer com que minha mãe, que é uma pessoa muito conservadora, se risse de piadas sobre o aborto ou violações. Hoje em dia até já é ela a mandar-me notícias para que eu possa fazer piadas. Depois há a minha namorada também; ela diz que a conquistei quando a fiz rir. E foi uma bela conquista.

Este solo é só o princípio de uma carreira feita de ti para ti? Ou vamos continuar a ver-te escrever para programas de culinária e outros humoristas?

Em principio será o que vai acontecer. Eu sou pago para escrever seja o que for, porque sou humorista e guionista, mas gostava de ser só comediante, ou pelo menos comediante e guionista de comédia e ficção, o que nem sempre acontece. Mas não vejo que o possa fazer nos próximos tempos, sobretudo porque os caminhos estão cada vez mais fechados nos media. A RTP tem agora o Nuno Artur Silva, que é uma pessoa da ficção, e a aposta continua a recair nos mesmos artistas, nos mesmos escritores, nos mesmos argumentistas. A SIC já nem tem humor, a TVI trocou a comédia pelos reality shows. Como é que havemos de ter trabalho se as generalistas estão fechadas e o cabo só tem dinheiro para apostas seguras? Espero um dia conseguir chegar a essa fase. Se não der cá, penso em ir fazê-lo para outro lado e falhar, muito provavelmente, de forma miserável.