Aquele festival de Inverno


É certo e sabido que a equipa de Luís Montez não tem por hábito falhar na segmentação dos seus festivais: ao longo do ano, o reggae fica na Ericeira, o rock na Expo, a electrónica na Zambujeira do Mar, o jazz em Cascais e o fado em Alfama. As receitas são de sucesso — ou não tivesse a Música no Coração alguns dos melhores olheiros que por aí andam — e geralmente não mudam, até porque em equipa vencedora não se mexe. No final do ano, juntam-se alguns ingredientes de sobra e faz-se Roupa Velha com aparente sucesso. Sucesso esse que dá pela forma de Vodafone Mexefest, esgotado em 2015, tal como em 2011, 2013 e 2014.

Pode o leitor estranhar alguma proximidade com a promotora Lisboeta, mas afaste-se daí a sua visão; não só o escriba se priva de vincular com as duas grandes rivais da capital, como adopta uma postura exterior, de mero observador, face às tendências que surgem anualmente. E é nesse sentido que o elogio se pode e deve fazer. A convocatória e réperage do festival mais ciclotímico do país provaram mais uma vez muita coisa boa. A ver: 1) os nomes da música alternativa banhados a ouro pela Pitchfork e NME não fogem ao roteiro português e são escolhidos com coerência; 2) é possível fazer um festival em que a música portuguesa se aproxima do que se faz lá fora, sem que se caia na tendência copista; 3) Lisboa tem uma vida cultural cada vez mais activa; 4) a ideia de um festival de Inverno não é, de todo, descabida.

Vamos por pontos:

1) Os cabeças de cartaz do festival revelaram-se um diamante em bruto, raro, e que nem todos têm a obrigação de conhecer. O valor da sua actuação está também na surpresa da sua descoberta. Benjamin Clementine e Patrick Watson são nomes do universo indie/urbano-depressivo e que dele raramente saem. Aproveitando a forte ligação destes nomes com Portugal (Watson já tinha inclusive passado pela vida anterior do Mexefest, enquanto Super Bock em Stock), a empresa de Montez tornou concertos de artistas do ano — At Least For Now e Love Songs For Robots certamente entrarão na maior parte das compilações que antecipam o réveillon — em momentos intimistas e previsivelmente prazenteiros aos ouvidos das gerações Radar, Antena 3 e agora Vodafone FM.

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Até há bem pouco tempo, o vencedor do Mercury Prize para álbum do ano não sonharia encontrar um Coliseu cheio até mais não, de lágrima no olho, sofrendo por mais e vergando-se a seus pés. Muito menos pensaríamos nós que depois do concerto morno no Super Bock fosse Clementine capaz de ser tão pouco clemente e de nos arrebatar ao luar com rendições infalíveis de Nemesis ou Condolence, acompanhadas selvaticamente por Alexis Bossard. Fomos amáveis o suficiente para retribuir, dando-lhes o calor que as canções frias não têm. Vestido principescamente, Benjamin agradeceu do alto do seu banco de piano, ali erigido trono à frente de todos nós.

A ele seguir-se-ia Watson; pai atormentado das canções melancólicas que nos salvam e amachucam a vida, correu sem rei — mas com algum roque — Coliseu adentro, invadiu o camarote onde atualmente se sentaria o filho de Boliqueime e disparou lasers que iluminaram a sala por detrás dos candelabros fumosos que a sua equipa ergueu em palco. Mas tudo isso seria pouco quando posto em perspetiva; as músicas — “Good Morning Mr. Wolf” no início, “Man Like You a meio, “Lighthouse” no encore e “To Build a Home” já com metade do público fora da sala — clarearam mais do que qualquer strobe. Iluminaram aqueles que já não viam a luz há algum tempo (longe de ser o caso deste que vos escreve, acabado de sair da atuação de Nicolas Godin, maravilhosa mas deserta como ninguém esperaria) e hão de ter construído futuros casais, que eventualmente se hão de dissolver ao som de qualquer outra canção do senhor Wolf. A registar sem hesitações na lista de concertos do ano. Bem jogado, Patrick.

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Nos nomes de meio da tabela, a dor e agonia de Anna B.Savage, o indie-punk dos Demob Happy e Bully ou a catarse electro de LA Priest provaram que se presta atenção suficiente ao que é tendência lá fora. Conhece-se o que de bom há no mercado e arrisca-se com algum compromisso — quem diria que um tipo vestido em seda branca podia subir ao Tivoli com uma guitarra e um sintetizador e fazer história? Sabe-se que haverá sempre erros de casting como os Ducktails — responsáveis por uma magistral seca —, mas por cada banda árida de Nova Jérsia parece haver quatro ou cinco talentos em bruto por descobrir, como a fantástica Akua Naru ou o enérgico San Holo.

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2) Difícil será lembrarmo-nos do Vodafone Mexefest sem ter em conta alguns nomes portugueses. Alinhados com o profissionalismo estrangeiro, os Best Youth e Beautify Junkyards juntaram-se ao ex-ídolo Salvador Sobral no pódio das actuações melhor desenhadas e equilibradas do festival.

Sobre os primeiros há pouco que se possa dizer de novo; Ed Rocha Gonçalves e Catarina Salinas parecem estar cada vez mais na mesma página — uma dupla que olha sem qualquer tipo de nervoso miudinho para uma plateia de oitocentas pessoas e lança single atrás de single sem que o público sinta que esgotou todos os trunfos (prova disso são a colaboração com Moullinex  — a deslumbrar já na recta final do concerto— e a cover de INXS, saída não se sabe bem de onde) vale a pena ser (re)vista do minuto zero ao cinquenta, mesmo que isso implique perder os primeiros instantes da actuação em crescendo de Ariel Pink ou um reset de computador por parte dos Flamingos.

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Adição recente da editora britânica Ghost Box — facto que parece ter passado ao lado de grande parte da sempre crescente media jovem portuguesa —, os Beautify Junkyards são uma das grandes surpresas do ano. The Beast Shouted Love, o segundo disco de originais, soa ainda melhor com as reverberações típicas da Igreja de São Luís dos Franceses. Os seis músicos maravilham sobretudo pela desconstrução da fórmula da canção; nunca fica claro o que vai acontecer a seguir, e isso prende-nos quase tanto como as vocalizações quasi eruditas de Rita Vian, figura de proa do grupo. No final guardam ainda um trunfo; “Que Amor Não Me Engana”, do José Afonso, surge de cara lavada com uma abordagem experimental e reconstrutiva. Há percussões e baixos em catadupa num frenesim sonoro que parece impossível de replicar. Sentimo-nos tentados a desvendar o segredo por detrás daquela parede de som, mas hesitamos e deixamos a ideia para outro dia, até porque há coisas que são sempre melhores encobertas.

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Por fim, surge-nos ainda Salvador Sobral. Muito mudou desde que, numa vida passada, Sobral participou num concurso de talentos da televisão portuguesa. O Hot Clube moldou-lhe o gosto, tornou-o profissional, e a viagem por terras de nuestros hermanos trouxe-lhe o salero de que precisava. Vemo-lo agora descontraído, a tocar trompete aéreo entre as pausas nos temas mais jazzísticos e ritmados e com uma boa disposição que nunca acaba; “After You’ve Gone”, cover de sucesso no YouTube, começou uma segunda noite de festival em ascendente, tendo deixado muitos à porta, graças à lotação limitada do belíssimo palácio Foz. O virtuosismo de Samuel Lercher, André Rosinha e Bruno Pedroso foi suficiente para fazer o resto. Contas feitas, honrou-se a portugalidade que há em nós.

3) A capital é uma matriosca. Quando pensamos que já lhe conhecemos os cantos, surge sempre um novo espaço. Fala-se pois do Tanque — recentemente inaugurado e direcionado para as lides da electrónica — e do Picadeiro Real do antigo Colégio dos Nobres — que acolheu o mercado de música independente, curado — e com boa saúde — pelo jornalista Rui Miguel Abreu. Sobre o primeiro, fica a vontade de destacar (como que picando o leitor que ainda não frequentou o novo local de culto) a imagética adolescente das festas americanas com beer pong e dj’s da moda. Duvida-se ainda hoje que haja ambiente melhor para acolher a folia de Peaches, endiabrada como é seu apanágio, e bem acompanhada pela nossa Da Chick.

4) O melómano, tal como o cinéfilo, não tira férias. As gerações mais jovens, que vivem o fenómeno da instantaneidade, parecem precisar de um estímulo constante; de um festival que traga os artistas que se ouvem naquele Inverno e de outros tantos certames que as entretenham nos folgados meses de verão. É de surpreender que, face ao sucesso do Mexefest, não tenha ainda surgido um concorrente à altura por parte dos restantes tubarões da produção de espetáculos. Num mercado cada vez mais liberal, e que se reanima anualmente com o surgimento de micro e nanofestivais, urge aproveitar uma das épocas mais rentáveis do ano para dinamizar os fenómenos artísticos que não param de brotar. Haverá uma nova vida dos festivais portugueses? 2016 que nos conte. E que haja muito para contar.

Fotos: Nuno Diogo/Shifter