Luís Monteiro: “Se não estou a incomodar ninguém é porque estou a fazer um mau trabalho”


A maioria parlamentar à esquerda quer manter-se independente, mas diz-se unida para apoiar o executivo liderado por António Costa que tomou posse na semana passada. Com a inclinação para uma democracia mais parlamentar, o poder de decisão passa dos ministérios e das reuniões de Conselho de Ministro para as mãos do jogo na Assembleia da República, onde Carlos César, o atual líder parlamentar do PS, tem um papel fundamental, assim como o secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares Pedro Nuno Santos, e outras figuras do partido como o deputado João Galamba, atual porta-voz. Mais à esquerda, o Partido Comunista Português mantém a sua representação na AR e o número crescente de deputados do Bloco de Esquerda colocam o partido no centro da decisão do XXI Governo Constitucional de Portugal. O benjamim de toda a assembleia, eleito pelo círculo eleitoral do Porto, é Luís Monteiro, de 22 anos, natural de Gaia, desde 2009 no BE.

Em entrevista ao Shifter, afirma pertencer à “primeira geração que está a viver pior do que os antepassados”. É sob este panorama, que considera ser “destruidor”, que chega ao centro da democracia portuguesa numa altura em que o seu partido não falta à chamada. Na Comissão de Educação e Ciência terá o papel principal, fruto do seu passado como estudante e dirigente associativo. Há mês e meio em Lisboa, vindo do Porto, Luís Monteiro confessa a sua missão:  “Se não estou a incomodar ninguém é porque estou a fazer um mau trabalho”.


Recentemente, as deputadas do Bloco de Esquerda foram apelidadas de “esganiçadas” por Pedro Arroja no Porto Canal. Pela idade que tens e pela circunstância em que chegas à Assembleia da República, alguma vez sentiste que te tratam de forma diferente?

Não… vamos lá ver: no primeiro dia em que entrei no plenário, que foi exatamente para a eleição do Presidente da Assembleia da República, houve alguns risos por parte das bancadas da direita quando eu me dirigi ao centro do hemiciclo para votar. Por parte da maioria parlamentar até fui bastante bem recebido e isso senti também nas comissões, ou seja, de deputadas do Partido Socialista, do PCP, do PEV, e também parte da direita com quem eu acabo por trabalhar nas comissões receberam-me bem. Mas nota-se uma crispação muito grande no debate político. Esse episódio do Porto Canal, do Pedro Arroja, é um bocadinho a imagem de um desespero que a direita tem.

Não há portanto preconceito perante o mais jovem e os mais velhos (a deputada mais velha do parlamento também é do BE)?

Não, mas é óbvio que nas redes sociais recebi os dois lados: por um lado, muita gente a dar-me os parabéns e a encorajar-me para esta nova etapa, e muita gente com insultos até gratuitos – pessoas que nem me conhecem, que nunca vi, inclusive me identificam nas suas publicações [risos] -, mas eu acho que isso faz parte, quer dizer que incomodo alguém. Este trabalho tem de incomodar alguém. Se não estou a incomodar ninguém é porque estou a fazer um mau trabalho aqui.

Mas os jovens apoiam-te mais, os que viram a tua eleição, também por teres um passado no associativismo estudantil?

Acho que sim. Não consigo fazer uma leitura, não tenho dados estatísticos para dizer isso. Agora, das pessoas que me acompanharam ao longo deste tempo, e pessoas que nem sempre concordaram com tudo o que eu defendi e são insuspeitas, não são do Bloco de Esquerda, têm vindo de dia 4 até agora a dar-me um grande apoio. Mesmo durante a campanha onde havia a previsibilidade de ser eleito vieram-me dar apoio. Sinto que essas pessoas que fizeram um trajecto comigo no movimento estudantil, na Escola Artística Soares dos Reis (Porto), na faculdade, professores inclusive, me apoiam e vêem em mim alguma esperança para algumas políticas educativas que foram destruídas nestes últimos anos. Vêem em mim alguém que saiu dessa sociedade civil, desses espaços (gosto pouco de utilizar esta distinção entre sociedade civil e espaço político) e tem hoje a oportunidade de falar daquilo que tem vindo a falar “lá fora”.

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Tendo em conta esse passado no associativismo estudantil, quando é que começaste a ganhar consciência política?

Eu diria que houve sempre dois mundos paralelos, mas que sempre se cruzaram. Desde o 9.º ano, início do 10.º, que me interessei por política de forma muito vasta. Comecei a seguir o trabalho parlamentar de vários partidos políticos, sentia-me uma pessoa de esquerda. Tinha pessoas na família de esquerda, nunca me encorajaram propriamente a fazer parte de um partido, mas havia uma discussão política permanente em minha casa. Isso ajudou a que eu me interessasse por uma série de causas. Eu tinha 15 anos quando começou a avaliação dos professores, aulas de substituição, entre outros, que eram matérias que eu ia estando atento. A minha entrada no Bloco é quase simultânea à minha entrada no movimento estudantil. Eu entro no BE no final do 9º ano e no início do 10º, ou seja, um verão depois, estava a fazer uma lista para a associação de estudantes, onde estive três anos. Inicialmente até tive um percurso mais forte, de presença e de actividade, no movimento estudantil do que no Bloco de Esquerda. Eu fazia parte do Bloco, mas era no movimento estudantil que eu encontrava a minha formação política. Era uma praxis, uma teoria prática e uma prática teórica. Inicialmente, no Bloco foi um espaço onde eu reflecti muito e conheci muita gente, mas não era propriamente uma pessoa que estava em órgãos com responsabilidade no partido. Fui lá buscar a base de um pensamento à esquerda para o ensino.

Estás na AR há mês e meio. Esses ensinamentos têm sido fundamentais para a tua presença enquanto deputado?

Só o tempo dirá. Aquele trabalho mais minucioso, que se faz mais nas comissões, de análise de documentos e discussão de projetos… O facto de eu ter mais proximidade com alguns problemas diretos do ensino, acho que isso é um bom apoio para mim. Eu não fiquei com uma pasta que me alheia, eu não fiquei com o poder local, não fiquei com a saúde… Eu já tenho um espaço de atividade no associativismo estudantil que é um espaço de reunião e discussão, nos ENDA’s (Encontro Nacional de Direções Associativas), nas reuniões com a Federação Académica do Porto, nas próprias reuniões da Associação de Estudantes com outros parceiros sociais. Essa experiência, que é pouca mas é relevante, pelo menos eu sinto que esse background, dá para um início mais sustentado.

Nos últimos quatro anos, em termos de política educativa, o que mais te chocou?

Eu tenho uma grande proximidade com o ensino artístico. Uma das grandes bases do Crato para a educação foi dar uma primazia ao português, à matemática e às ciências exatas. No seu projeto educativo para o país, isso foi clarinho como a água, desde os exames da quarta classe ao ensino superior. Com isso, arrastou com ele uma série de políticas educativas que foram desmoronando, destruindo, aquilo que já era um património muito importante das ciências sociais e das artes. O ensino das artes foi tornado praticamente um ensino profissional ou vocacional, que não tem nada a ver. Quando falamos de ensino artístico, estamos a falar de planos curriculares muito concretos para aquelas áreas, de financiamentos que foram perdidos, tanto pelo Orçamento de Estado como através do programa europeu POPH, onde o Governo disse que não cortou no OE mas depois cortou neste programa.

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Para ti, o ensino superior deveria ter como objectivo final a empregabilidade, um apelo maior da direita que governou, ou a formação pessoal e humana dos jovens?

É preciso desconstruir um bocadinho o discurso da direita. Claramente que houve um maior envolvimento nas políticas educativas para dar prioridade às engenharias, às matemáticas, dizendo em primeiro lugar que os cursos têm de estar preparados para o mercado de trabalho e, por isso, vamos pensar em planos curriculares nesse sentido. Por outro lado, houve uma pressão gigante por parte dos cursos com menos empregabilidade porque são também aqueles cursos que precisam de mais apoio do Estado. Um exemplo muito claro: a Sociologia existe se houver investimento na investigação e na ciência sociológica; a Museologia existe se houver um investimento camarário por parte do poder local e por parte do poder central na investigação do património. Ao contrário de uma engenharia civil que é mais independente do Estado ou do empenho do Estado na criação desses empregos. Portanto, esqueceu-se completamente os cursos que podem vir a estar mais dependentes do Estado. Vamos imaginar, por exemplo, Cinema: alguém que tire Cinema hoje dificilmente tem um apoio estatal para fazer um projecto.

Achas que as duas coisas, da minha pergunta anterior, são conciliáveis? De que forma?

Acho que sim. O que não foi conciliável foi esta política: mesmo dando um discurso do meu ponto de vista retrógrado da ideia de escola pública para todos e com oportunidades para todos, nós tivemos um desemprego cada vez mais crescente, mesmo naqueles cursos onde disseram que à partida havia emprego. Nós hoje já temos engenheiros civis em Portugal sem emprego. Já temos matemáticos sem emprego, físicos sem emprego, já temos engenheiros mecânicos sem emprego. Também não podemos analisar as políticas educativas sem analisar o resto da economia, da situação do país. Foram uma série de políticas educativas que não olharam à situação do país, onde era preciso realmente mais apoio estatal. Nós somos a geração mais bem preparada de Portugal e a que vive mais a precariedade, muito mais do que os nossos pais. Somos a primeira geração que está a viver pior do que os antepassados. Isso é destruidor.

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Como é que se concilia a situação financeira e económica do país com as políticas de esquerda?

Eu acho que com as políticas que foram seguidas é que não se paga a dívida. Cortamos nos salários e pensões e nos apoios do Estado na saúde, educação e segurança social e a dívida aumentou de 109% para 137%. Ou seja, ficámos uma dívida que está incontrolável e um país que desmoronou a sua democracia e o poder que tinha sobre a economia real porque privatizou muitos serviços públicos. É um país que está mais ao sabor do vento e dos chamados mercados financeiros. É um país muito mais viável a que a dívida suba. Há uma ideia contraditória que é a esquerda gasta, a direita poupa. Mas não é verdade. O Bloco de Esquerda é mais do que a favor de contas públicas justas e controladas, mas nós achamos e, continuaremos a defender isso, que só com uma renegociação da dívida e dos juros é que vamos conseguir pagar esta dívida. É um ponto de vista racional de ponto de vista económico, não são propriamente apenas os economistas do Bloco de Esquerda a defender isto. Nós temos a Manuela Ferreira Leite e o Bagão Félix a dizer que o Tratado Orçamental é impossível de ser cumprido por qualquer país da Europa, e a própria renegociação da dívida é uma coisa que se coloca em cima da mesa. Já nem se fala de uma escolha política ou ideológica. Fala-se de um facto que a dívida vai continuar a aumentar porque à medida que se corta rendimentos e se privatiza é verdade que os cofres do Estado podem ficar mais cheios e com menos despesa, mas depois as pessoas perdem a capacidade de consumo e portanto também há uma regressão do ponto de vista económico porque as empresas não vendem nem exportam. Por outro lado, as empresas que davam lucro também foram privatizadas. É uma bola de neve.

O problema tem outra escala: a Europa. No caso da renegociação da dívida, já vimos uma tentativa falhada, a do Syriza. Qual é para ti a solução deste xadrez?

Nós sabemos que o Syriza fez uma primeira tentativa, apesar de não concordarmos com o acordo que fez depois, mas também não farei juízos de valor sobre quem ganhou umas eleições, o que nós não fizemos em Portugal. Isso [o falhanço] aconteceu porque o Syriza era o único. O que se discute hoje na Europa é também a relação de forças. Nós quando falamos na Europa estamos a falar de uma maioria de governos de direita que tomam essas posições e fazem uma pressão muitas vezes injusta em relação aos outros países. É preciso que haja mais Grécias a aparecer do ponto de vista da sua situação económica – não desejo isso a ninguém -, mas mais governos que confrontem a Europa. Isso é que é uma relação de forças. Se nós tivermos uma Espanha, um Portugal ou uma Itália onde coloquem em cima da mesa a proposta que o Syriza colocou, tenho a certeza que o debate será diferente. Mais do que um problema económico, é um problema político.

Muito concretamente: se o Parlamento Europeu e a Comissão Europeia mudarem de mãos [mais controlados pelo Partido Popular Europeu, afecto ao PSD e à direita europeia], achas que pode haver espaço a uma mudança nas políticas económico financeiras?

Sem dúvida que o debate hoje é na Europa. O problema é europeu. O Varoufakis [ex-ministro das finanças grego], uma pessoa que vou seguindo, diz isso com muita clareza. Não há possibilidade nenhuma de um país sair da crise financeira em que está sem recorrer a um alívio pela parte da União Europeia. O futuro passa pela Europa.

A Europa é o centro de decisão, mas em Portugal vês margem para a mudança no sistema político?

Eu acho que uma maior participação dos cidadãos pode-se fazer sem ser preciso mudar a Constituição. Uma das propostas que o Bloco já apresentou várias vezes, por exemplo, é que movimentos independentes de cidadãos se possam candidatar às legislativas. Não faz sentido que movimentos independentes se possam candidatar à Presidência da República, mas que não haja os mesmos movimentos independentes com programa político à Assembleia da República. Isso sim seria uma grande medida para aproximar a sociedade civil à casa da democracia, dos espaços de decisão. Eu, mesmo fazendo parte de um partido, não acho que os partidos tenham legitimidade total em todas as decisões do país. Por isso é que há referendos, por isso é que há iniciativas legislativas cidadãs. Agora, fazer outras revisões constitucionais, não acho que seja prioritário.

Fotos: Manuel Casanova