Nerve e o exercício da genialidade

Se os beats moldam a envolvência numa audição normal, ao vivo junta-se a textura da voz, a intensidade do olhar, o refúgio do capuz e uma série de gestos vigorosos com tanto de homem como de máquina.

Depois de mais de 7 anos fechado em casa a preparar o seu segundo disco de originais, Nerve voltou a sair à rua na passada sexta-feira dia 27 de Novembro para um concerto que ficará com certeza na memória de todos os presentes. Enquadrado no primeiro dia de Vodafone Mexefest, foi no carismático Palácio Foz que apresentou aquele que é seguramente um discos do ano: Trabalho & Conhaque ou A Vida Não Presta & Ninguém Merece a Tua Confiança.

Mais do que expectativa, antes do concerto multiplicavam-se as questões sobre qual seria a sua postura e como resultaria toda aquela orquestração complexa de ideias num espectáculo ao vivo. Apesar do prenúncio ser a apresentação do álbum, foi com uma faixa do EP anterior que tudo começou. “Água do Bongo”, do EP homónimo abriu as hostes numa espécie de introdução despretensiosa ao universo psicótico de Nerve. Os momentos iniciais foram marcantes e marcados por um certo alívio de pressão do rapper que começou aí a sua viagem de apresentação.

Se os beats moldam a envolvência numa audição normal, ao vivo junta-se a textura da voz, a intensidade do olhar, o refúgio do capuz e uma série de gestos vigorosos com tanto de homem como de máquina com que Nerve ilustra os seus poemas. Um jogo de interpretação com uma naturalidade que nos faz acreditar que afinal foi mesmo aquele gajo a escrever aquilo tudo. O detalhe do registo audio em disco foi substituído pela emoção pura da interpretação ao vivo e o resultado acaba por ser idêntico.

Num concerto marcado pelo tom da talha das paredes do Palácio viveu-se um ambiente intimista e inteiramente dedicado às palavras. O silêncio reinou e até a dança se foi contendo perante uma certa estupefacção pela força dos projecteis atirados do palco.

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Não faltaram referências aos produtores dos instrumentais como Notwan, Pedro, o Mau ou Keso, escondido no fundo da sala. Para a memória e como cicatrizes marcantes de um momento indiscritível, ficam interpretações como “’98”, o poema de um só jorro dito à capella, “Nós e Laços” e “Subtítulo” que despertaram nos ouvidos dos menos atentos como ainda vão ecoando em algumas rádios nacionais.

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Uma aula de assertividade, dada por uma voz gritante vinda da garganta, que se fez intercalar por um sorriso ácido e excertos pontuais de confiança e de uma proximidade longínqua pelo génio, encheram uma sala de espelhos que reflectiu a essência do “Sacana Nervoso”. Não houve uma vírgula, uma respiração que tenha manchado o espectáculo.

Feita a primeira paragem e elevadas as expectativas, Nerve volta a actuar dia 11 de Dezembro no Maus Hábitos no Porto e em Janeiro na cidade de Lisboa.

Texto de: João Ribeiro e Rita Pinto
Fotos/vídeo de: Marco Brandão