New York Times apela ao controlo das armas no seu primeiro editorial na capa desde 1920


O dia 2 de Dezembro ficou marcado por mais um massacre nos Estados Unidos. Um casal fortemente armado abriu fogo num edifício em San Bernardino, na Califórnia. Matou 14 pessoas e deixou outras 17 feridas.

Escrever sobre tiroteios em território americano é exercício de literatura que ocuparia milhares de páginas. Só este ano já se registaram mais 300 de grande escala e o uso violento das armas já vitimou mais de 12 mil pessoas. Estes números fixam os Estados Unidos da América no topo das tabelas estatísticas quando o assunto são mortes relacionadas com armas de fogo, onde o país se mistura com outros sub desenvolvidos onde o narcotráfico regula o quotidiano das populações e a pistola é, na maior parte das vezes, a maior lei nas ruas.

A falta de regulamento no comércio, produção e utilização de armas tem sido fortemente criticado interna e externamente. E desta vez coube ao The New York Times desferir a alfinetada com um editorial intitulado de End the Gun Epidemic.

A particularidade não se fica por aqui. Pela primeira vez desde 1920, o editorial do jornal norte-americano fez capa e o tema não foi apenas o problema das armas. A crítica foi maioritariamente apontada à inércia dos líderes que teimam em fazer nada sobre o assunto e sugere, entre outras coisas, que se interdite ao comércio público determinados tipos de arma. 

“[…] motivos não interessam aos mortos na California, nem interessaram no Colorado, Oregon, South Carolina, Virgínia, Connecticut e demasiados outros lugares. A atenção e raiva dos americanos também devia ser direccionada para os líderes eleitos cujo trabalho é manter-nos seguros […]”, pode ler-se no editorial que sublinha também o facto dos políticos depositarem mais importância sobre “o dinheiro e poder político de uma indústria dedicada a lucrar com a propagação de armas de fogo cada vez mais poderosas num mercado desregulado.”

Sobre a decisão de incluir o editorial na capa, Arthur Sulzberger Jr., editor do NYT evidenciou os efeitos práticos que esta chamada de atenção pode ter ao “transmitir uma mensagem forte e uma declaração visível de frustração e angústia sobre a incapacidade que o nosso país tem de chegar a um acordo sobre o flagelo das armas. Mesmo na era digital, a capa de um jornal permanece enquanto uma forma incrivelmente poderosa de chamar à atenção para problemas que necessitem de atenção” , declarou o editor ao The Washington Post

A exposição de editoriais na capa de um jornal não é novidade no mundo do jornalismo. Nos Estados Unidos, a utilização do editorial nas capas dos jornais é uma tendência em crescendo e tem servido para evidenciar e centrar o debate sobre assuntos de primeira importância através de tomadas de posição. Em 2011 o The Patriot News utilizou a capa para pedir a demissão de Graham Spanier, o presidente da Universidade Estadual da Pensilvânia, onde se tornou público um escândalo de abuso sexual. Em 2012, o The Arizona Republic deu destaque ao editorial na primeira página para pedir reformas nas políticas de imigração.

O New York Times não o fazia desde 1920 e isso torna toda a situação mais mediática não só pela raridade do acontecimento mas também pelo facto de ser um jornal nacional cujo alcance se estende não só aos 50 estados norte-americanos como a uma mão cheia de países de todos os continentes.  A pressão que se exerce sobre a sociedade civil e a opinião que ajuda a construir são os efeitos práticos que Arthur refere. A escolha editorial é sobretudo um estímulo que se exerce sobre uma discussão que não é nova e que pode conhecer novas conclusões mediante o desfecho das eleições presidenciais norte-americanas que se realizam em Novembro do próximo ano.