O filme ‘La Haine’ aos olhos dos dias de hoje


La Haine
 
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Há 20 anos estreava em Portugal o filme francês La Haine. Um clássico instantâneo, pode dizer-se. No entanto, dificilmente acreditaríamos que se poderia tornar tão actual passadas duas décadas. Afinal, tal como outros grandes clássicos, La Haine também é intemporal.

Filmado a preto e branco (escolha propositada que visava esbater as diferenças que se propunha a filmar), o filme de Mathieu Kassovitz que teve como actores principais Vincent Cassel, Saïd Taghmaoui e Hubert Koundé foi vencedor do prémio para Melhor Realizador em Cannes e foi ainda nomeado para a Palme D’Or. Vencedor de outros prémios do circuito europeu de festivais de Cinema, ganharia ainda o prestigiado César.

La Haine retrata a história de três amigos de origens diferentes: um judeu, Vinz, um árabe, Saïd e um de raça negra, Hubert. Ao longo do filme acompanhamos os três amigos, 24 horas depois de alguns confrontos violentos no típico bairro parisiense onde habitam e onde a diversidade cultural se mistura com a opressão policial. Estes dois elementos conduzem invariavelmente a um conflito que, infelizmente, era expectável. Dos confrontos nasce a raiva e da raiva nasce o ódio, “la haine”.

O filme de 1995 não surgiu num ano qualquer. As severas medidas de austeridade do primeiro-ministro francês Alain Juppé despertavam uma sensação de revolta e injustiça por toda a França e assimilavam as diferenças entre os centros das grandes cidades e os seus subúrbios onde, geralmente, residem as comunidades imigrantes, na sua maioria oriundas do norte de África.

Em 2005 tivemos outro capítulo desta triste história que parece repetir-se de 10 em 10 anos, originado pela morte de dois adolescentes de ascendência africana que morreram electrocutados enquanto fugiam de uma rusga policial. Na altura este acontecimento viria a provocar motins por todas as comunidades imigrantes em França mas que, como seria de esperar, se fizeram demonstrar maioritariamente nos arredores de Paris.

Na altura Ministro francês do Interior, Nicolas Sarkozy referiu que se deviam “limpar” esses subúrbios. Agora, a extrema-direita ganha cada vez maior voz na política francesa. Para onde caminha esta França que ficou presa a meio dos anos 90? E o Mundo? “La Haine”, em português “O Ódio” é infelizmente um filme mais actual que nunca. Ou melhor, nunca deixou de o ser.

2015 tem sido um ano negro para Paris e, por consequência, para o Mundo inteiro onde, por várias zonas, se assistem quase diariamente a ataques terroristas. Começando em Janeiro deste ano com os ataques ao jornal satírico francês Charlie Hebdo e acabando agora (esperamos nós) com os ataques terroristas em vários pontos da capital francesa que vitimaram perto de 130 pessoas, Paris não tem tido descanso.

No rescaldo dos ataques ao Charlie Hebdo, o realizador Mathieu Kassovitz veio na altura a público referir que estava na hora de fazer o La Haine 2. As declarações foram uma reviravolta na opinião do francês que entretanto se tem dedicado mais a uma carreira como actor. Kassovitz sempre considerou que La Haine fora uma “maldição” e até há bem pouco tempo seria impensável vê-lo a admitir uma sequela do filme. O realizador fez vários outros filmes que acabam inevitavelmente por ser alvo de comparações injustas em termos qualitativos, o que os faz cair na sombra do clássico de 1995.

Dúvidas existem em relação a que tipo de sequela seria possível realizar. Certo é apenas que seria uma versão ainda mais “negra” do que a feita em 1995. Agora o Mundo encontra-se ainda mais dividido e seria quase impensável ver nestes banlieues (assim são conhecidos estes subúrbios) três amigos de origens tão diferentes.

Vincent Cassel tem sido uma voz a favor da realização de um La Haine 2. O actor que interpretou Vinz no primeiro filme diz que seria interessante uma nova versão do mesmo mas adaptada aos dias de hoje. Infelizmente, refere que a sua hipotética participação em La Haine 2 está fora de questão por razões que só quem viu o primeiro filme entenderá.

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