Parabéns, Mr. Sinatra


Sinatra

O retrato definitivo da golden age americana terminou o caminho a 14 de Maio de 1998. Mas hoje, do pico destes montanhosos 100 anos, continuamos a celebrar Sinatra. A razão é simples, nunca houve – e nunca haverá – alguém com tanta vida dentro.

É difícil explicar o extraordinário alcance de alguém cuja realidade foi feita de sonhos. Francis Albert Sinatra foi um caso curioso, uma combinação de todos os factores que são necessários à criação de um fenómeno maior que a vida. Se foi o único? Não. Mas foi o primeiro.

Muito antes do estrelato de Elvis Presley, Bob Dylan ou Michael Jackson já Sinatra tinha o mundo num fio, e tudo começou em Hoboken, Nova Jérsia, no ano de 1915. O único filho de Natalina Garaventa e Antonino Martino Sinatra foi a prova de que há pessoas destinadas a mais do que existir simplesmente.

Mas Hoboken era demasiado pequena para alimentar o coração. Assim, os olhos deixaram o Garden State e apontaram directamente à Big Apple para dar início à viagem. Por lá, Sinatra experimentou a música na perspectiva mais viciante em que a conseguiu. E por ela fez parte dos projectos que haveriam de o mostrar à América. The Three Flashes, mais tarde conhecidos como The Hoboken Four, foi o primeiro empurrão no show biz.

Em 1951 lança o primeiro disco, The Voice of Frank Sinatra, e a Sinatramania tornou-se uma realidade. Nunca um artista tinha conseguido algo assim, transformar a música e a emoção pessoal num só. Deixar aquilo de que se é feito em pequenos pedaços das letras é uma coisa, mas Sinatra foi mais longe e criou uma imagem que o distingiu até hoje.

Porque não foram só os fatos, os cigarros, o chapéu ou o Jack Daniels que o fizeram no ícone. Foi a maneira como os tornou seus, a forma como os fundiu em si próprio e os mostrou ao mundo. Esta era a primeira vez em que o artista e o homem eram o mesmo. Sinatra não tinha reservas. Nem na música, nem nas mulheres, nem na vida.

1951 foi também o ano do divórcio da primeira mulher, Nancy Barbato, e de nova união com a actriz Ava Gardner. O rapaz de Hoboken deixava assim para trás a imagem happy-go-lucky que o caracterizava e mostrava, sem pudores, o reverso da medalha. Negro, solitário, ponderado. Era este o Sinatra dos anos 50.

O casamento durou apenas seis anos e a carreira de Frank estava, pela primeira vez, nas cordas. Perdeu o primeiro assalto mas nunca sem dar luta e acabou por vencer o Óscar de Best Supporting Role em From Here To Eternity, no ano de 1954. Durante esta década gravou ainda temas como “I Get a Kick Out Of You” ou “My Funny Valentine”. Termindos os anos 50, os 60’s trouxeram-lhe uma nova vida.

Las Vegas foi a paragem que se seguiu, como artista a solo e, mais tarde, com a segunda geração dos Rat Pack. Dean Martin, Sammy Davies Jr., Peter Lawford e Joey Bishop comandaram a Sin City desde o começo da década até ao final dos anos 70.

Mas foi ainda durante os sessentas que aconteceu um dos mais marcantes registos musicais até à data. Aquele em que talento de Sinatra e a genialidade de António Carlos Jobim se encontraram. “The Girl From Ipanema”, a versão bilingue da “Garota de Ipanema” de Jobim, mostrou a versatilidade dos dois músicos e é, ainda hoje, uma ponte entre as duas culturas. A faixa é retirada do disco Francis Albert Sinatra & António Carlos Jobim.

Já com o mundo aos seus pés e um outro casamento – com Mia Farrow, de 66 a 68 – Frank Sinatra inicia a curva descendente e entra na década de 70 cansado de correr contra o tempo. Para trás ficaram duas guerras mundiais, três casamentos, três filhos, dezenas de álbuns, dezenas de amigos – entre os quais o ex presidente Jack Kennedy – rumores de associação à Máfia e uma mudança social generalizada à qual The Voice nunca se conseguiu habituar.

O concerto de despedida aconteceu em 1971 e contou com as 11 faixas que o músico escolheu para retratar a carreira. Em 1976 casa novamente, desta vez com Barbara Marx. A união extende-se até à data da morte.

Francis Albert Sinatra foi um dos mais condecorados artistas do século XX e hoje, 17 anos depois da sua morte, ainda percebemos porquê. O miúdo de Hoboken, que tinha em Bing Crosby e Billie Holiday as suas maiores influências, não coube num só tempo. Por tudo o que fez pela música, pelo cinema, pela televisão ou pelas causas sociais, Frank Sinatra garantiu a inscrição do seu nome no ouro da existência humana.

Parabéns, Mr. Sinatra. The Best Is Yet To Come.