‘Que Horas Ela Volta?’


Candidato brasileiro ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, Que Horas Ela Volta? é uma obra séria e humana da realizadora Anna Muylaert, a primeira mulher desde há 30 anos a representar o Brasil na “corrida aos Óscares”. Sendo um dos filmes brasileiros que mais tinta fez correr nos últimos anos não podíamos deixar de o olhar com atenção redobrada.

Que Horas Ela Volta? dá às mulheres o seu protagonismo num grito de revolta quando o mundo do cinema está cheio e entupido de masculinidade excessiva. De resto, não nos parecem inocentes algumas atitudes machistas, carentes e exasperantes dos homens ao longo do filme no que a este tema diz respeito.

O filme traz-nos Val, empregada doméstica de uma família abastada que por incidências da vida fica a trabalhar em São Paulo enquanto a filha, Jéssica, fica a ser criada pelo pai no interior do país. Certo dia, e depois de 10 anos sem ver a mãe, Jéssica vai para São Paulo por precisar de fazer uns exames para entrar na faculdade e fica a viver com Val na casa dos patrões. O facto de Jéssica ter sido criada pelo pai com um distanciamento enorme em relação à mãe, trouxe indiferença e impessoalidade entre a filha e a mãe, que não é reconhecida como tal. Um desapego notório demonstrado cada vez que Jéssica trata a mãe por Val, ou seja, pelo seu nome próprio, de forma a salientar ainda mais a falta de ligação emocional entre ambas. Já Fabinho, por oposição, apesar de ser filho da patroa de Val é nela que vai procurar o ombro e o colo de uma amiga. O que é uma mãe? A que está lá e nos educa, nos cria e nos faz crescer ou alguém que o sendo biologicamente nunca existiu enquanto tal na vida da pessoa?

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Em oposição a Val que quer criar ligações emocionais com a filha, temos uma família (os patrões de Val) em que os elementos mexem nos telemóveis durante o jantar, sem prestarem atenção nem falarem a ninguém. Qual das situações a mais criticável? O afastamento “natural” causado pela vida ou o afastamento causado por nós mesmos; o afastamento causado pelo “artificial”?

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Que Horas Ela Volta? salienta as restrições impostas à classe empregada, uma subalternização constante de Val que até perante a sua filha, que não via há anos, se torna em várias situações não mais que uma mera empregada. À tal constância de comportamentos mais que denotada ao longo do filme, intromete-se ainda um confronto entre rebeldia (Jéssica) e servidão (Val) e um rompimento com o usual e rotineiro, a que estas duas classes diferentes de empregada/empregadores estavam habituadas. No final, uma exímia cena por parte da realizadora utilizando Val na piscina (simbólica aqui por uma cena anterior no filme) vai dar-nos uma emancipação que tanto desejávamos.

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Num filme com excelentes interpretações das duas protagonistas, Regina Casé é facilmente adorável para o espectador enquanto Camila Márdila faz, por outro lado, um óptimo trabalho a ser odiada. Que Horas Ela Volta? é um filme que não se esconde, dá a cara sobre o que se propõe criticar e é claro nas mensagens que passa. É sem dúvida um desafio às famílias e ao que isso significa, um desafio às classes sociais e ao seu comodismo de parte a parte.

A obra realizada e escrita por Anna Muylaert é portanto um filme que merece a nossa admiração por não recorrer a subterfúgios narrativos.