Samuel Pimenta: “Um escritor jovem tem de ter o dobro do cuidado”


Samuel Pimenta
 
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Encontrei o Samuel Pimenta em Belém, para falar do passado, do presente e do futuro do seu trabalho. Achámos adequado fazê-lo enquanto comíamos uma pizza. Comecei a entrevista pelo começo, ou seja, pelo passado do Samuel Pimenta, onde começou a escrever e porque começou a escrever. É de Alcanhões, Santarém e nasceu em 1990. Sim, é muito novo, sobretudo para os parâmetros habituais de ser escritor.

Quando lhe perguntei se a sua terra teve influência na sua carreira como escritor, recebemos uma resposta natural: «Acho que sim que continua a ter essa influência, é onde consigo escrever mais e melhor. Acho que está relacionado com a natureza, com o facto de eu ter sido sempre muito ligado à natureza, porque comecei muito cedo a questionar-me, despertando uma certa sensibilidade acerca do que está à volta.»

Faz sentido, por muito urbano ou rural que um escritor seja, os seus primeiros porquês são de uma importância tremenda para o desenvolvimento da sua obra. E, afinal, a obra do Samuel Pimenta é o principal motivo desta entrevista.

Aproveitei para perguntar se escrevia muito, ou melhor, se escrevia todos os dias. A resposta foi algo despreocupada e ainda bem, a vida de um escritor não é só a escrita. «Não escrevo todos os dias, se sinto que preciso de descansar em vez de estar a escrever, descanso. Obrigo-me a alguma disciplina no processo de escrita, mas gosto de fazer paragens, para o cérebro respirar.»

O rumo da entrevista foi interrompido pela chegada das nossas bebidas. Uma coca-cola com gelo e limão para mim, uma água tónica com gelo e limão para o Samuel. Devidamente refrescados, decidi perguntar pelo livro, a obra que saiu em Setembro de 2015 e o tem levado a muitas entrevistas como esta. Perguntei-lhe o que nos podia contar sobre este Os Números que Venceram os Nomes, que já está nas bancas.

«É um livro sobre um jovem de 30 anos, que trabalha num call center como tantas pessoas da nossa geração e que têm trabalhos mais precários. Vive numa sociedade futurista, o livro é uma distopia, mas o futuro também serve para falar do presente. É uma realidade semelhante à que nós vivemos, mas um pouco mais exagerada e controlada. As pessoas são monitorizadas e em vez de nomes têm números. Este personagem principal vai entrar numa busca pelo seu nome pessoal, que tem, mas que é tirado por esta sociedade controladora. No fundo é esta busca pela identidade e é este jogo entre perda e busca que dão o mote ao livro.»

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Os Números que Venceram os Nomes conta história de Um Nove Um Seis, um personagem perdido neste universo que Samuel Pimenta descreve e que vai, lentamente, encontrando provas para suspeitar do quanto a cidade é controladora. Saiu pela editora Marcador e expõe esta resistência à falta de cultura e de expressão, através de um dilema que tantos atravessam.

Pergunto-lhe se a ideia surgiu de alguma situação pela qual tenha passado, até porque já tinha descoberto que experiências passadas são o principal motivo de escrever do Samuel. A reflexão é sempre necessária. «Este último livro, por exemplo, surgiu de uma formação em call center que fiz, onde ao passarmos à parte prática se tornou um horror. E uma das coisas que me disseram foi que não devíamos questionar. ‘”Não questionem.” E dizerem-me isso a mim que estou habituado a questionar tudo…»

Quando pergunto ao Samuel Pimenta se um mundo precário é um sufoco ao que queremos ser, concorda comigo. Arrisco dizer que somos o que este malabarismo nos permite ser. O livro trata também disso, do quanto estamos preocupados com uma série de obrigações para podermos verdadeiramente criar ou inventar algo novo. Esta é uma questão séria. E como é escrever sobre coisas tão sérias aos 25 anos?

«Há muitas pessoas que ficam reticentes, “ele não tem experiência nenhuma, vai escrever sobre o quê?” Mas também há um entusiasmo pelos assuntos que eu abordo, porque não há jovens de 25 anos a falar deste tipo de assuntos. São coisas de uma geração que fez a luta social, gerações antes de mim. E que se está a perder, com muita pena minha, porque é algo a que dou muito valor. Penso que por fazer isto, há um entusiasmo maior. Mas também sinto muitas dúvidas e dificuldades. Costumo dizer que por ter a idade que tenho, tenho de ter o dobro do cuidado, porque sou um alvo fácil. Quando estamos à frente de alguma coisa somos alvos muito fáceis. E isso leva-me a ter o dobro do cuidado.»

E, curiosamente, não demorou muito tempo até este factor do escritor interventivo ter voltado à baila. No que parece ser uma questão de ética, o Samuel procura mesmo num escritor um agente de mudança, um barómetro social. Só isso explica que, ao perguntar-lhe pelas suas influências na escrita, tenho tido uma resposta que volta a pender para esta presença e força.

«Sophia de Mello Breyner foi uma professora. Ela marcou-me muito. Tal como o Saramago. Também pelo seu papel social, até porque acho que um escritor, como chega a um grande público, tem de ter um papel social.» 

Adianta-me que também gosta de «Clarice Lispector, dos clássicos gregos, de todo um cocktail de influências Fiquei curioso com a força que esta moral tem de ter num escritor. Um romance não é coisa fácil de se escrever, nem uma coisa pequena. É preciso ter mesmo uma história para contar. Perguntei-lhe se o romance era o seu formato favorito.

«Eu não tenho um formato de eleição, eu escrevo. A Adélia Prado quer sempre chegar à poesia da linguagem, mesmo na prosa, quer torná-la o mais poética possível. Revejo-me nisto, embora eu não tenha nenhum género preferido para escrever. Sinto que cada género tem um propósito.»

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Mais à frente, enquanto comíamos as pizzas que tinham chegado, adiantou-me que «para mim a poesia serve para cantar, para cantar sobre o amor, sobre o que for. A prosa serve para contar. Quando quero contar uma história escrevo em prosa.»

E as perguntas para o Samuel duraram o almoço inteiro. Agora mais focadas na sua vida pessoal, nos seus planos para o futuro. Só que ainda antes disso, não queria perder a oportunidade de dar aos nossos leitores as dicas de um escritor que já está publicado, cuja obra podemos tocar. Perguntei-lhe o que recomendava a todos os que estivessem a ler a entrevista.

«Cada pessoa é uma pessoa. Há vários caminhos e várias fórmulas. Mas existem conselhos para nos iniciarmos. Acima de tudo ler, ler de uma forma atenta, uma leitura crítica. E depois escrever. Para se ser escritor é preciso escrever. E isto é fundamental. Bem ou mal, não importa. É um processo de evolução. É um processo contínuo. Só depois disso é que se procura um meio para publicação.»

Foi só aqui que lhe perguntei o que se aproximava nos seus planos para o futuro. A resposta de Samuel Pimenta foi de escritor: «Escrever até morrer.» Mas, também descobri e com muita alegria, que vai lançar um novo livro de poesia ainda este ano. Tivemos de falar sobre ele também.

«Daqui a 16 dias vou lançar um próximo livro, de poesia. Tem vindo a ser escrito desde 2013 e tem de ser lançado este ano. Chama-se Ágora e é sobre a crise de valores que a Europa tem vindo a atravessar, que é ainda mais grave que a económica. Tudo isto que está a acontecer, todo este horror, é sobre isso. O livro é sobre a ruína e sobre a esperança. Tem de sair este ano porque acho que é muito actual.»

E foi com esta mensagem de esperança, depois de uma conversa em que se falou sobre precariedade, sobre a tarefa intensiva que é ser escritor e sobre os tempos estranhos que vivemos (dizem que o presente é sempre assim, mas agora tem parecido pior), que descobrimos o Samuel Pimenta e o seu trabalho. Ficámos curiosos com os seus trabalhos mais recentes e com os que ainda estão para vir. E ainda bem.

Fotos: Pau Storch

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